Um gênio e dois poetas

Um gênio e dois poetas

 

Ocorreu-me anos atrás ler alguns poemas excelentes de Marly de Oliveira (1935-2007) em seu livro Cerco da primavera (1957) e, procurando agora, no Google, encontro: “Poetisa, esposa do poeta e membro da Academia Brasileira de Letras João Cabral de Melo Neto”, em grande destaque. É esse aposto que costuma se fixar na memória do buscador. Mas, além e afora do ilustre consorte, houve e há críticos que muito a apreciaram. Para o poeta, ensaísta, diplomata e acadêmico Alberto da Costa e Silva: “dentro de alguns anos, a obra poética da Marly de Oliveira será seguramente comparada à do próprio João Cabral”, escreve ele em Um feixe de rúcula, obra de Marly publicada há pouco pela UNESP (2024) e organizada por Cecília Scharlach. Trata-se de um livro de poemas inéditos onde outros críticos a consideram: “continuadora de Cecília Meireles, e hoje tida como a melhor poetisa brasileira”.

Entre os muitos poemas que me chamaram a atenção no livro (há inclusive os italianos que impressionaram Ungaretti, compostos durante a permanência dela em Roma, para estudos: “é um milagre, simplesmente poesia em um italiano luminoso”, diz o poeta), destaco o admirável “A fria e ardente, luminosa treva,” onde encontrei coincidências que costumam tomar de surpresa poetas e leitores.

 

A FRIA E ARDENTE, LUMINOSA TREVA,

 

A fria e ardente, luminosa treva.

é o prêmio (não do esforço)

do não buscado amor,

do não vindo do atrito ou do esfregar

de pedras, cuja chama se conserva;

o que depõe seu ouro

de entrega em vivo fogo,

e não se espalha no ar.

O escuro, a que um ardor sem esperar

de repente conduz, a viva morte

(que o renascer envolve)

de cada instante, um contínuo sim,

que é dado a esse fluir

sem esperança e grato a quem desiste

de tudo: o dia claro, esse pungir

da memória que insiste

sob a palha translúcida do vivo

presente. A morte dessa vida, o fio

de algum desconhecido labirinto,

onde quem mais adentra,

 mais se perde e se encontra,

e sabe não sabendo, e não revela

o que na fala humana é sem sentido.

O que em mim não pensa

e me é, não me retém

em curto espaço, nessa

forma que somos cega;

malha, crivo, enganoso entendimento,

extático arremesso

para que fim, que vácuo, que ardentia,

que insuspeitada mina,

onde se chega, enfim, por extravio,

e se descerra aquilo que me fica

ainda intangível,

no périplo do amor que é sempre escuro,

como passivo, nobre testemunho.

 

Tanto no poema de Marly de Oliveira, quanto em “Tocar o tempo” de Mário Ramos (em Labirinto de vidro, Sinete, 2025), poeta e tradutor de Velímir Khlébnikov (o gênio) aparece, entre antifrases e paradoxos que ambos trabalharam, o tema do labirinto.

 

TOCAR O TEMPO

o espaço cerrado do labirinto,

seu ritmo, já pouco me interessam

sei de cor onde a saída

só não queria perder, ali dentro,

certo efeito dramático da vida

certo palco onde o mito é alento

onde minhas mãos possam

trêmulas tocar o tempo

porém tudo fica vago, vácuo,

a vida entre vírgulas

prende-se a fluidos momentos,

o vigor no riso da filha

a panela apressada que apita, 

grita um obreiro, um lamento

no apartamento ao lado,

e nada responde: onde quando

como tocar o tempo

a saída é bilhete só de ida,

as portas abertas sequestram

o direito de fuga ou prisão,

o verso estende-se no espaço

entre a mente e a mão

e tudo estanca no momento

em que as paredes se diluem

transmutam-se e sou tocado

pela face do tempo, inexorável

 

Do labirinto, Mário conhece a saída, mas nele procura “certo efeito dramático da vida”, enquanto que para Marly, pelo fio do labirinto, quem se adentra “mais se perde e se encontra, e sabe não sabendo, e não revela o que na fala humana é sem sentido”.

Pois bem, o que na fala humana é sem sentido e tem sentido pode ser descoberto em Zanguézi, “épico moderno, composto por vários gêneros literários” de Velímir Khlébnikov (Nauta, 2025), recém traduzido por Mário Ramos e que vem acompanhar o conto Ka, igualmente épico, recentemente reeditado pela Ed. Perspectiva e que, desde 1977 tem feito a alegria dos nossos leitores esotéricos e não.

 

Algumas palavras sobre Khlébnikov 

Velímir Khlébnikov (1885-1922), o mais importante vanguardista da poesia russa (além de matemático, historiador, ornitólogo e estudioso de línguas orientais), tem hoje uma fortuna crítica extensíssima, sendo considerado por Roman Jakobson, entre outros, “o poeta mais original do século XX” e por Maiakóvski: “Um de nossos mestres em poesia e… O magnífico e honestíssimo paladino de nossa luta poética”.

No Brasil, além dos dois épicos citados e dos Poemas de Khlébnikov traduzidos em 1993 por Marco Lucchesi, ele deve sua fortuna inicial aos irmãos Campos e a Boris Schnaiderman que o traduziram na já clássica Poesia Russa Moderna, cuja primeira edição da Editora Civilização Brasileira data de 1968.Quem não lembra o Ride, ridentes/sorride, sorridentes da “Encantação pelo riso”, ou o Boeóbi – cantar de lábios/ Veeomi, cantar dos olhos… da tradução do Haroldo?

O que emerge particularmente em Zanguézi (nome de um poeta/profeta, mas que representa — ao mesmo tempo — a imagem da união entre a Ásia e a África, na fusão dos nomes de dois grandes rios: Ganges, que nasce na Índia e deságua em Bangladesh e Zambezi,um dos maiores rios africanos) são os números expressos nas “tábuas do destino” que apresentam os cálculos matemáticos com os quais Khlébnikov acreditava ser possível estabelecer períodos regulares entre as datas de fatos históricos importantes para a humanidade e, aplicando tais datas à sua fórmula, encontrar uma regularidade que permitiria prever as datas de importantes.

acontecimentos no futuro.

Não menos importante é sua previsão de um mundo futuro que, além de ter os números como “rede do mundo” (será o algoritmo da I.A.?), terá um novo sistema semântico em que o discurso íntimo do indivíduo contemporâneo penetrará nas coisas cientificamente como nos fenômenos e a questão do som e das camadas que constituem as palavras será fundamental.

Pois bem, no “Plano ХV” de Zanguési temos um exemplo do sistema semântico do indivíduo Velímir:

Plano ХV

E agora, as canções em fonopinturas, nas quais o som

pode ser azul-claro, azul-escuro, negro, vermelho:

Véo-véia: o verde da árvore,

Nijeóty: o tronco escuro,

Mam-eámi: isso é o céu,

Putch e tchápi: a gralha negra.

Mam e émo: isso é a nuvem.

O cheiro das coisas é numérico.

Um dia no jardim.

E aqui está seu feriado:

Léli-líli: a neve das cerejeiras,

Sombreando o fuzil.

Tchítchetchátcha: o brilho do sabre,

Bieénzai: o escarlate das bandeiras,

Zieégzoi: a escritura do juramento.

Bóbo-bíba: o vermelho da fita,

Mipiópi: o brilho dos olhos das tropas cinzentas.

Tchútchu bíza: o brilho da promessa.

Miveáa: o firmamento.

Mipiópi: o brilho dos olhos,

Veeáva: o verde das multidões!

Mimomáia: o azul dos hussardos,

Zizo zéia: a escritura dos sóis,

O campo de centeio dos sabres ao sol.

Léli-líli: a neve das cerejeiras,

Sossesáo: montanhas de edifícios…

 

Ouvintes. Tá bom! Tá bom! Basta! Troféu “ananás” para

o Zanguézi! Até que ele é ousado! Alguém bote fogo nele!

Olha só, até mesmo uma lebre apareceu para te ouvir,

coçando a orelha com a pata, toda zarolha.

Zanguézi! Dá o que é das lebres às lebres. Ora, nós somos

homens! Olha quantos se reuniram aqui, Zanguézi!

Nós estamos caindo de sono. Tudo isso é muito bonito,

mas não anima a plateia! A tua lenha é molhada, não vira

brasa. E está ficando frio.

Aurora Bernardini é professora, escritora e tradutora. É doutora pela USP com tese sobre o futurismo russo e italiano e fez livre-docência na mesma instituição sobre a poeta russa Marina Tsvetáieva. Já traduziu mais de cinquenta livros, além de ter organizado obras como O futurismo italiano: manifestos, Mitopoéticas: da Rússia às Américas e A estrutura do conto de magia.

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Fevereiro

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