Soberba colonial

Soberba colonial
Colombo chegando às Índias (1594), de Theodor de Bry (Bibliothèque Municipale De Lyon)
“Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente deles. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos.” Davi Kopenawa Yanomami Beatriz Azevedo A citação de Davi Kopenawa pode iluminar percepções sobre algumas características da soberbia: a tentativa de rebaixar o outro (“nos chamam de ignorantes”), o desprezo pela alteridade (“porque somos gente diferente deles”), o narcisismo daqueles que “só sonham consigo mesmos”. Kopenawa alude aos que aqui chegaram durante a colonização europeia, quando manifestações de soberba foram motor e substrato de outros pecados capitais e coloniais. Sabemos que a assim chamada “descoberta da América” – invasão – constitui um marco para a história da humanidade e, como tal, impulsionou reflexões filosóficas. Mas quem poderia supor que o pensador grego Aristóteles (384-322 AEC) também estaria no centro das discussões sobre a vida indígena das Américas? Como veremos, a questão é muito, muito antiga. Na pólis grega, à época de Aristóteles, a concepção de igualdade entre os seres não havia sido estabelecida nem era ainda uma “endoxa” (opinião aceita por todos, pela maioria ou pelos sábios). Assim, tentando dar conta das posições divergentes sobre o tema, no livro I da Política, o filósofo pratica aporias, oscilando entre afirmações contraditórias. O pensador grego afirma que, entre os seres, deve haver um dominado e um dominante, justificando assim as relações hierárquicas. A ação de comandar e ser comandado seria não apenas necessária, co

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