Da soberba militar
Inês Etienne Romeu saindo da prisão em 1979, após ser anistiada (Arquivo Público Do Estado De São Paulo)
Inês Etienne Romeu pesava 38 quilos quando foi deixada na casa de sua irmã em um bairro pacato de classe alta em Belo Horizonte. Era 11 de agosto de 1971. Após três meses presa em um centro clandestino do Exército em Petrópolis, na serra do Rio de Janeiro, ela havia chegado a um acordo com seus torturadores: cuidaria de melhorar sua saúde e aparência física para atuar como “cachorro” da repressão, infiltrando sua própria organização revolucionária para entregar companheiros de luta aos militares. Faria como fizeram outros “virados” pela tortura. Mas Inês nunca abraçou de fato o plano.
Ao sair do carro dos captores, jogou-se no gramado para fugir de tiros imaginários. Naqueles tempos, e para pessoas como ela, era tênue a linha que separava paranoia de realidade. O movimento brusco assustou o cachorro da casa, que furou o silêncio da vizinhança com latidos furiosos e antecipou a estratégia de defesa do advogado e da família de Inês: espalhar a notícia de seu retorno para o maior número possível de pessoas. A ideia era simples: jogar luz no que o regime preferia manter nas sombras; tratar o segredo com publicidade.
Sua irmã seguiu o princípio com obstinação. Iniciou uma série frenética de ligações para informar sobre o reaparecimento de Inês. A notícia correu rapidamente pela alta sociedade da capital mineira, e, em pouco tempo, a casa ficou abarrotada de gente. “Inês, acamada, em estado grave” era “pele e osso,” conta um amigo próximo. Entre a massa de visitantes, a nora do governador de Minas Gerais, Rondo
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