Valor de brancura

Valor de brancura
Trabalhadores negros na lavoura de café no Vale do Paraíba, em 1892 (Marc Ferrez / Coleção Gilberto Ferrez / Acervo Instituto Moreira Salles)

 

No reflexo do espelho do toucador, a mulher na camisola de algodão bordada se admirava. Era a hora de se preparar para dormir. Abriu o frasco de água de beleza e aplicou o líquido translúcido nas curvas do rosto. Com as pontas dos dedos, esticava a pele da testa e das têmporas, deslizando até as olheiras, as bochechas e o queixo pontudo. Terminava o ritual no nariz, alisando-o nas laterais com cuidado para afiná-lo. Mesmo sob a luz fraca e tremulante do candeeiro, sua tez brilhava como porcelana e um sorriso pairava em seus lábios finos.

Pegou a escova de cabo de madeira e começou a pentear os cabelos lisos e longos. Em noites como aquela, o gesto simples a transportava de volta ao caminho aquático e poeirento que a levara até o grande casarão na cidadezinha incrustada no Vale. Suas mãos, agora macias, não carregavam mais a aspereza e as feridas da enxada; as costas, eretas, haviam esquecido o peso do trabalho da roça; a pele, alva e imaculada, não era mais curtida pelo trabalho ao sol. O corpo agora era rechonchudo – fruto da abundância de comida cultivada e preparada por mãos negras –, e ela já não vestia as roupas puídas de outrora, por vezes podia até escolher um vestido, como aquele que jazia sobre a cadeira, como uma joia, para o grande dia que teria amanhã.

– Um dia vão descobrir que você nunca poderia ser uma signorina.

A voz ríspida do pai às vezes cortava sua mente em noites ansiosas como aquela, sobretudo quando os nervos estavam agitados pela responsabilidade que repousava em seus ombros de governanta. Mas ela endireitava as costas, decidida a não lhe dar ouvidos. Os ombros pareciam mais altos enquanto se enunciava: a governanta italiana, signorina Bianca. Era assim que a chamavam, era isso que ela era. Qualquer um que pudesse questionar seu valor estava morto ou distante demais para fazer isso.

Antes de se deitar, aproximou-se do vestido de seda francesa cor de esmeralda. Ficaria esplêndida nele. Os mais atentos notariam que sua beleza, mesmo sendo ela uma mulher um pouco mais velha, ofuscava até as sinhazinhas. É verdade, seu vestido não tinha a opulência dos delas – bordados com fios de ouro, ornados com joias –, mas Bianca aprendera a subverter os limites. Numa ocasião anterior, a sinhá mandou arrancar as pedrarias do busto de um modelo de vestido que Bianca mandara ajustar em segredo, enquanto lhe lançava um duro olhar para lembrar que, apesar de ser a única a ter um quarto só para si, ela ainda era uma empregada. A verdade é que a sinhá via com maus olhos a chegada daqueles italianos na região. Eles não sabiam seu lugar, diferentemente dos negros, que ela mandava açoitar por qualquer sinal de desobediência. Além disso, ela preferiria ter uma alemã, mais discreta e educada como aquela da casa do barão, mas, naquela lonjura, tinha de se contentar com o que havia. Bianca, porém, conhecia seu valor. Desde o incidente, forçava as negrinhas da casa a bordarem as pedrinhas escondidas em mangas e golas nos vestidos.

Quando finalmente se deitou e os olhos se fecharam, a realidade se dissolveu no redemoinho familiar. O mesmo sonho retornava, implacável. Os montes do Vêneto surgiam na paisagem do Vale, misturando-se como se o tempo não tivesse passado. Lá estava o vilarejo de sua infância – terra encharcada, arrendada pelo pai, onde o destino parecia selado antes mesmo de nascer. Observava, impotente, meses de plantio serem engolidos pelas águas revoltas do rio que cortava a propriedade. A fúria do pai era constante e proporcional à devastação: quanto mais a colheita se perdia, mais violentas eram as surras que desferia contra ela e as irmãs.

Desde criança, Bianca soubera que era diferente. Não apenas pelos olhos esverdeados ou a pele clara que contrastava com a dos outros camponeses – mas por uma certeza inabalável: nascera para algo grandioso. Não para ser enterrada viva naquela terra de fome e guerra, casada com um lavrador que a deixaria exausta de partos e miséria, como a mãe, morta de febre em um corpo frágil demais para sobreviver.

O engraçado é que, no sonho, ela usava aquele vestido costurado pelas negrinhas. Caminhava pela lama em direção à casa do pároco que falava da América prometida. Ela tinha só 15 anos: costelas aparentes, mãos em carne viva e costas já curvadas pela enxada – mas o nariz empinado. Naquela noite, seu pai havia esmurrado seu rosto novamente. O corte arroxeado na bochecha arrebentou seu sorriso e sua dignidade. Por isso, estava disposta a fazer qualquer coisa para deixar aquela terra desgraçada. O homem de deus, que antes falava com voz mole – “As autoridades brasileiras vão pagar a passagem e lhes dar terras quando chegarem ao continente” –, lhe cobrou o único bem que ela possuía: sua honra. Enquanto era violentada no quarto úmido anexo à capela, ela se via em um salão ornamentado do outro lado do oceano, em terras brasileiras. No sonho, ela se olhava e via o sangue manchando a saia volumosa do vestido.

A única coisa que Bianca lamentava daquela época era sua juventude. Fugiu na noite marcada para a partida, segundo as instruções do pároco, sem olhar para trás, para se juntar ao resto do grupo de imigrantes. A excitação era muito maior do que o medo que deveria sentir por ser uma jovem viajando sozinha. O que a incomodava mesmo era ter de se misturar àquela gente rude, de olhos vazios e mãos ásperas. Disfarçava o asco enquanto dividia abrigos imundos e comia restos com eles numa travessia que se revelou uma mentira. O pároco falara de uma jornada curta, de carroças e trens até o porto – mas foram semanas em barcos apodrecidos e longas caminhadas na lama, além de noites ao relento sob chuvas geladas. Quando chegou ao porto, na última cena do sonho, de onde partiria o navio a vapor, a barra do vestido estava em frangalhos. Assim como se passara na realidade, ela não tinha sapatos, e os pés estavam em carne viva.

Acordou sobressaltada, os dedos tateando os pés sob a coberta. Estavam macios do escalda-pés noturno – leite quente e pétalas de rosa, que ela forçava as negrinhas a esfregarem em sua pele após o trabalho diário. Mesmo assim, ao pressionar a pele, sentia os calos entranhados como raízes de uma vida que insistia em não morrer. Sentou-se na beira da cama, o coração martelando o peito, e respirou fundo até o passado se reduzir a um sussurro. O vestido esmeralda jazia sobre a cadeira, impecável, seu trunfo diante dele. Ela ainda era a signorina Bianca. E, pelo ângulo da lua na janela, era hora de começar a dar ordens àquela gente imprestável.

A exaustão impediu as cozinheiras de ouvirem os passos pesados da governanta. Ela se aproveitou do silêncio para chutá-las de seu sono pouco no chão batido da cozinha. As mulheres só conseguiram cobrir o rosto para evitar as pancadas enquanto se levantavam em um susto. Bianca usava um espartilho apertado – ajustado para sufocar dois dedos a mais do que sua cintura permitia – que comprimia não só suas costelas, mas sua paciência. O sotaque italiano se acentuava quando ela gritava, porque a língua estrangeira devia elevar sua autoridade:

– Andem, inúteis! As galinhas vão se depenar sozinhas? Ainda há os peixes para descamar, as tortas e os pastéis para assar, as sopas e os caldos para preparar! Esse ensopado não está pronto ainda?! A prataria não está toda polida? Vocês são muito preguiçosas. Acho que querem todas ir pro tronco!

Ela sorria ao ver o grupo se agitar e se movimentar. Era um sorriso satisfeito em torno da altivez da voz que saía da garganta, por poder ter sua autoridade finalmente reconhecida. Mandar era uma coisa que o Brasil havia lhe proporcionado pela primeira vez, um poder que ela sempre soube ser seu direito sob a pele alva que ostentava. Negros não eram capazes de se governar, e sorte deles terem alguém como ela, uma pessoa tão capaz e bondosa, para lhes dizer o que fazer. Ela ignorava, é claro, que foram aquelas mesmas mulheres que haviam ensinado cada segredo da casa e cada capricho da sinhá quando chegara, uma estrangeira perdida de quem a sinhá desconfiava e as sinhazinhas se ressentiam. Mas isso não importava. Afinal, ela era diferente. A pele de porcelana e os olhos esverdeados a colocavam acima daquela gente. Um dia, ela seria uma sinhá. Era só uma questão de tempo. Enquanto dava ordens às cozinheiras, Bianca ignorava as costas encurvadas e as mãos feridas que ela própria conhecia tão bem. Para ela, aquilo era natural. Afinal, eles precisavam de alguém como ela que lhes dissesse o que fazer.

Desde a chegada da carta com o selo imperial ao casarão, anunciando a visita, semanas de trabalho intenso tomaram a cozinha. Bianca ficava em seus cangotes, às vezes correndo de um lado para o outro fiscalizando o trabalho miúdo, ameaçando castigos, outras vezes sentada num canto em uma cadeira confortável para descansar os pés delicados. O trabalho na cozinha já era extenso e exaustivo habitualmente para aquelas mulheres, mas, no caso de um jantar como aquele, para o qual senhores de todo o Vale haviam enviado bichos como capivaras abatidas, pacas vivas, garças e até um jacaré para ostentar riqueza no banquete, ele era praticamente impossível. Os senhores do Vale queriam ostentar poder, e os métodos de controle e tortura de signorina Bianca garantiam que cada prato refletisse a generosidade e a opulência da região. Ainda bem que alguns deles também mandaram suas escravas, porque era de interesse de todos que a festa transcorresse bem e eles conquistassem seu objetivo de dissuasão daquela ideia descabida de abolição.

– Faça o que for necessário para que a noite transcorra perfeitamente e reflita a honra que estamos sentindo de recebê-la, mesmo por esses motivos – alertara a sinhá. – Vamos convencê-la. Sua permanência aqui depende disso.

Em pouco tempo, a cozinha, que começava a se iluminar com os primeiros raios de sol e do fogão a lenha, se tornou um balé forçado de trabalhadores negros e negras carregando água e lenha, mexendo panelas pesadas, limpando aves e peixes, cortando legumes e verduras, limpando o chão de terra batida, lavando os utensílios. Em um canto, um grupo de crianças escravizadas, de dedos esfolados, polia a prataria, centenas e centenas de colheres, garfos, facas e outros talheres. A beleza frágil de taças, cálices, decantadores, bandejas e da porcelana francesa se movimentava, enquanto os objetos eram retirados com cuidado das três cristaleiras da copa para a sala de jantar. Antonia, que no dia interior tinha deixado cair uma peça de porcelana de Limoges, estava encurvada do lado de fora, diante da pintura impecável das paredes exteriores do casarão, das rosas brancas e dos jasmins cuidadosamente plantados nos canteiros ao redor da casa, debaixo de uma palmeira imperial perfeitamente podada. Tudo recendia à opulência e à vida bucólica que tentavam exibir, enquanto Antonia estava amarrada diante da parede branca, com o vestido arriado até a cintura e as costas em carne viva das chicotadas.

Bianca passou por ela sem olhar.

– Desamarrem-na e lavem o sangue do chão e das paredes – ordenou às outras. – E você, moleque, cubra essas correntes com os barris de carvalho.

Quando o jantar acabou, o café havia sido servido com biscoitinhos enrolados a mão e cestinhas salgadas cuidadosamente trançadas, e o baile se arrastava em valsas cansadas. Foi Bianca quem enfileirou as cozinheiras diante da princesa. “Não respirem fora do ritmo”, susurrara antes. “Nem pisquem ou mesmo ousem parecer cansadas.” As mulheres, de vestidos remendados, olhos baixos e meio sorriso, pareciam estátuas de barro adornando a sala de visitas. A noite ia terminando com um discurso acalorado de um dos abolicionistas em defesa da causa que a princesa estava ali para sensibilizar os proprietários da região. Bianca teve de disfarçar a contração corporal diante de tantos desatinos. Foi então o momento de o senhor da casa erguer-se ao lado das cozinheiras, a sinhá e a signorina Bianca distintamente postadas ao fundo:

– Vossa Alteza vê essas mulheres? A abolição periga ser a própria maldade, pois elas desejam estar aqui, tão bem tratadas e alimentadas quanto as nossas sinhazinhas.

E seguiu nessa toada diante da princesa. Então Bianca viu o detalhe que poderia arruinar tudo. Moveu-se sem alarde, ajustando o tecido gasto sobre as costas da escravizada. Um vergão avermelhado das chicotadas da noite anterior teimava em aparecer.

O que ela e mais ninguém ali jamais poderia aplacar era o fogo nos olhos daquelas mulheres feridas e silenciosas. O futuro não tardaria.

Este conto é um aprofundamento de uma das personagens secundárias do meu próximo livro, que se passa no Vale do Paraíba paulista entre 1880 e 1914. Através da história de Bianca, uma governanta italiana, o texto expõe a construção da soberba em torno do valor da brancura no Brasil do período e a forma como esse valor atravessa todas as relações, da intimidade doméstica às estruturas de poder.

Taís de Sant’Anna Machado é pesquisadora, escritora e servidora pública federal. Doutora em sociologia pela UnB, estuda a alimentação através da experiência de trabalhadoras negras. Autora de Um pé na cozinha: Um olhar sócio-histórico para o trabalho de cozinheiras negras no Brasil (Fósforo, 2022)

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