Da liturgia ao circo: a sociedade dos espetáculos digitais

Da liturgia ao circo: a sociedade dos espetáculos digitais

 

Em 2011, Saul Cohen, um leitor londrino do The Guardian, enviou à seção Red Tapes, White Lies (algo como “Burocracias, Mentiras Brancas”, em tradução livre) a seguinte pergunta a seus pares: “Qual foi o incidente mais embaraçoso que ocorreu nos círculos diplomáticos ou políticos?”

Antes de começar a ler as respostas, foi quase imediata a lembrança de Bóris Yeltsin, ex-presidente da Rússia, dançando desengonçadamente (talvez sob efeito etílico) em um evento em Rostov, em 1996.

À época, o caso foi tratado como um desastre diplomático por alguns, mas, para outros, aquela cena era uma anedota para contar para as futuras gerações. Risadas, sátiras e charges explodiram mundo afora, mas sem a profusão das redes sociais da atualidade, é claro. Aliás, ainda hoje encontramos no YouTube alguns vídeos desse momento constrangedor, imortalizado ao som de músicas virais como Gangnam Style, sucesso do coreano Psy em 2012.

Lendo as respostas à pergunta de Cohen, outros eventos vieram à mente: em 1992, durante um banquete, George W. Bush pai vomitou no então Primeiro-Ministro japonês Kiichi Miyazawa; no mesmo ano, o ex-Primeiro-Ministro australiano, Paul Keating, abraçou a Rainha Elizabeth II, numa quebra de protocolo imperdoável; e mais recentemente, no ano passado, o Presidente do Conselho de Transição do Haiti, Edgard Leblanc Fils, viralizou ao beber água diretamente da jarra durante seu pronunciamento na ONU.

A lista é grande. De gestos ou palavras fora de hora a traições da realeza vazadas em áudios picantes, muitos líderes mundiais ficaram em “saias justas”. Contudo, nas mais de vinte respostas dadas a Cohen no The Guardian, todos os episódios foram o que chamamos de falhas humanas. Tanto que após cada uma das gafes, as comitivas diplomáticas suaram a camisa e assessores tentaram bloquear a difusão pelos meios ou aplacar a fome dos tablóides e da imprensa marrom.

A vergonha pública, estampada em todos os lugares, era o que se desejava apagar. E os próprios autores dos vexames apareciam depois mais sóbrios, discretos, com ar contrito, até que outro evento escandaloso acontecesse e os tirasse do foco.

Por outro lado, alguns buscavam se explicar em entrevistas – como foi o caso do controverso Keating – ou em notas de retratação. Afinal, um líder, que deve estar à altura da liturgia do cargo, inclusive por ser referência para seus concidadãos e representação de seu país no exterior, não poderia (ou não deveria) se dar ao luxo de cometer atos impróprios.

O mundo mudou. A frase é um clichê, mas quem disse que devemos prescindir deles quando o óbvio salta aos olhos? E mais ainda quando essa mudança se estende a mandatários e chefes de Estado?

Desde o seu primeiro mandato, o presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, lançou sua nova ideia de diplomacia e de liturgia de cargos públicos: a antidiplomacia e a antiliturgia, que parecem estar muito mais relacionadas ao show business, de onde surge a sua figura pública, do que a sua real posição como comandante em chefe de uma nação. Como nos reality shows o que vale é a novidade, a máxima passa a ser: “fale mal, fale bem, mas fale de mim”, ou “quem não é visto, não é lembrado”. Nesse sentido, a Casa Branca, durante Trump 2.0, tem sido exemplar.

Há pouco mais de um mês, a sede do poder dos Estados Unidos publicou duas novas imagens de Trump criadas pela inteligência artificial (IA): numa delas, o presidente aparecia, antes mesmo da escolha do novo papa, como o novo pontífice da Igreja Católica (“O papa está morto, viva o papa”, poderia ser a legenda), na outra, era um dos personagens da série Star Wars.

Trump fez escola ou é aluno? Não sabemos. Possivelmente é mais um elemento do círculo dantesco da economia do show, cujo objetivo é o embrutecimento do discernimento de massas e líderes.

No Brasil, o ex-presidente Jair Bolsonaro, admirador declarado do presidente estadunidense, fez de sua última internação hospitalar um Show de Truman. Afinal, os boletins médicos emitidos por hospitais credenciados já não são mais críveis e tampouco comovem. O importante é mostrar o que era até então “imostrável” na vida pública.

Na vizinha Argentina, por sua vez, o presidente Javier Milei teria tido um surto psicótico e corrido nu pela Quinta de Olivos da Casa Rosada, enquanto gritava que estava pegando fogo. A informação, veiculada pelo jornalista Jorge Rial em um bate-papo na Radio 10, foi tratada como anedota, ao som de risadas e piadas sucessivas. O episódio dantesco era mais um show hilariante do que o grave problema de supostamente ter um líder psiquicamente incapacitado.

Mas tudo é graça e profusão de imagens e sons, inclusive em fiscalizações sérias que envolvem toda uma nação.

E assim acompanhamos mais uma peça tragicômica live em terra brasilis, na semana passada. Diante de uma influencer de jogos de azar digitais, senadores faziam fila para tirar fotos com a mocinha do copinho rosa e canudinho de microfone. Como uma turma de adolescentes diante do ídolo, a câmara virou um espaço instagramável para alavancar ainda mais o número de seguidores da depoente, que estava ali supostamente para explicar seu envolvimento com o escândalo das apostas. Porém, os questionamentos dirigidos a Virgínia Fonseca eram desviados por cumprimentos à plateia e pelo visual infantil da jovem, enquanto políticos combinavam, em plena mesa da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), de segui-la nas redes.

O tigrinho arranha e devora toda uma sociedade, ao mesmo tempo em que as cenas ricamente detalhadas são transmitidas em tempo real, alimentando olhos curiosos de espectadores e bolsos ávidos de espectados.

É fato que a ideia de uma sociedade do espetáculo não é nova, vale lembrar a reflexão de Guy Debord em seu célebre A Sociedade do Espetáculo, lançado em 1967. Mas talvez a novidade seja a de que a espetacularização tenha se espalhado e contaminado os limites entre a indústria do entretenimento e a diplomacia, afetando estruturas institucionais que, mesmo sem sucesso, buscavam balizar a autocrítica. Não se recorre aqui ao apelo nostálgico, mas se propõe uma ponderação sobre o amontoamento das dramatizações espetaculares digitais que nos transformam em subprodutos consumíveis e consumidores.

Num turbilhão alienante, todos se desnudam na internet “como minhocas”, usando a linguagem de Sartre. Como numa viagem lisérgica, nada é o que parece, se é que ainda temos os parâmetros mentais para delinear conceitos e afirmar com propriedade que algo parece isto ou aquilo. E no mergulho de cabeça para dentro das telas, alguns contratos sociais foram rompidos, novas normas estabeleceram-se e a ética também se virtualizou. Nada foi assinado ou declarado através de um decreto, o acordo se deu pela imagética e pelos signos algorítmicos.

Se clichês não cabem mais nesta reflexão, uma pergunta certamente é muito pertinente: quando cair o pano e o espetáculo chegar a si mesmo, o que farão as multidões solitárias e desnorteadas sem os aplausos?

Dirce Waltrick do Amarante é professora da Universidade Federal de Santa Catarina, tradutora, escritora e ensaísta.

Fedra Rodríguez é especialista em comunicação, tradutora, escritora e palestrante.

 

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