“Melancolias, mercadorias espreitam-me”: Performatividade e sofrimento

“Melancolias, mercadorias espreitam-me”: Performatividade e sofrimento
Carl Gustav Jung em 1910 (Wikimedia Commons)
No testemunho lírico A rosa do povo, publicado pelo poeta Carlos Drummond de Andrade no ano de 1945, um verso performativo se descola das páginas do livro e provoca o leitor incauto do poema “A flor e a náusea”: “Melancolias, mercadorias espreitam-me”. À espreita e, todavia, testemunhas do mal-estar resultante do conflito bélico mundial que dizimara milhões de seres humanos, as imagens poéticas nauseabundas do poema drummondiano se contorcem ao vislumbrar o testamento que a modernidade legara à sensibilidade do século 20: o padecimento melancólico do sujeito-coisa entediado, compulsoriamente acossado pela condição mercadológica. E Drummond não se furta ao diagnóstico: “As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase”. Essa constatação psicopatológica demolidora pela negatividade sofre, ao longo das décadas seguintes, uma decantação narcísica que matizará a personagem inquieta entre a hiperatividade performática e a exaustão que se exibe, compulsivamente, às redes de comunicabilidade da atualidade digital. Alheias à sociedade disciplinar e culpada esquadrinhada por Michel Foucault, as imagens da vida cotidiana se organizam numa gramática de afetos que enunciam, para o sujeito-mercadoria performático, sofrimentos como insônia, pressão por desempenho, despertares precoces ao ritmo de baladas taquicárdicas, inibição e fadiga. E um esmorecimento vital num contexto, contraditoriamente, entediante. Como sugere o sociólogo francês Alain Ehrenberg no ensaio La Fatigue d’être soi , a culpabilidade de agora é uma c

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