O valor da vida

Edição do mês
O valor da vida
Lou Andreas -Salomé com os filósofos Paul Rée e Friedrich Nietzsche em foto de estúdio de 1882. Jules Bonnet/wikimedia commons
    A interpretação da história intelectual da virada do século 19 para o 20 costuma reservar a Lou Andreas-Salomé um lugar secundário: musa, amante ou interlocutora de grandes homens como Nietzsche, Rilke e Freud. Muito se diz sobre o quanto Lou os teria inspirado: sem ela, Nietzsche não teria desenvolvido o seu Zaratustra, Rilke não assinaria como Rainer, e Freud não teria feito do mesmo modo suas elaborações mais tardias sobre a sexualidade feminina. Essa narrativa obscurece a originalidade da produção teórica de Andreas-Salomé, além de capturar somente uma das várias perspectivas. Ainda que Lou tenha sido uma inspiração para tais pensadores, o fato é que ela também mergulhou ativamente nas obras de Nietzsche, Rilke e Freud. De seu mergulho, extraiu um salto ainda mais alto. Bem antes de ser figura periférica, Salomé foi uma pensadora que ocupou uma posição singular na passagem entre filosofia e psicanálise, elaborando uma reflexão original sobre subjetividade, criação, desejo e sofrimento. Para se evitar o erro dogmático que achata as perspectivas, proponho situar Lou Andreas-Salomé em dois registros complementares e simultâneos: de um lado, como importante intérprete da filosofia de Nietzsche; de outro, como a primeira mulher a desenvolver uma contribuição capaz de articular questões filosóficas e psicanalíticas em um mesmo horizonte teórico e clínico, tendo a vida como valor maior. A relação entre Salomé e Nietzsche extrapola em larga medida os episódios biográficos que frequentemente dominam as narrat

Assine a Revista Cult e
tenha acesso a conteúdos exclusivos
Assinar »

Novembro

TV Cult