Uma mulher de bem nunca cai
No último dia 31 de agosto, o golpe contra Dilma Rousseff completou dez anos.
Escrevo golpe porque foi golpe. Uma ruptura com a ordem democrática instaurada pela promulgação da Constituição Cidadã de 1988. E toda ruptura dessa natureza abre uma caixa de Pandora.
Na mitologia grega, Pandora recebeu dos deuses um recipiente que não deveria abrir. Ao fazê-lo, libertou sobre os humanos os males que estavam contidos ali. A esperança, porém, permaneceu no fundo do recipiente. A imagem me interessa porque, quando uma sociedade rompe os limites que sustentam sua democracia, libera forças que talvez seus próprios autores já não consigam controlar.
O golpe contra Dilma foi produzido por uma conspiração política que envolveu seu próprio vice-presidente, Michel Temer, e setores importantes do Congresso. Seu objetivo era implementar um programa econômico que havia sido derrotado nas urnas nas quatro eleições presidenciais anteriores. Temer assumiu e levou adiante a chamada “Ponte para o Futuro”: teto de gastos, reforma trabalhista, mudanças no ensino médio, privatizações e outras medidas de orientação neoliberal. A reforma da Previdência pretendida por seu governo não passou. No fim de seu mandato, foi também sancionada a lei que legalizou as apostas de quota fixa, as futuras bets, cuja explosão posterior ajudaria a produzir uma das novas formas de endividamento e sofrimento social no Brasil.
O golpe, contudo, teve efeitos colaterais drásticos porque “coincidiu”, digamos assim, com a ascensão internacional da extrema direita. Brexit e a primeira eleição de Donald Trump foram suas primeiras pontas mais visíveis. Steve Bannon se tornaria um dos principais articuladores dessa nova internacional da extrema direita.
O pior de todos esses efeitos colaterais foi a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.
Até a noite da votação do impeachment, Bolsonaro não passava de um ridículo parlamentar paroquiano, viúvo da Ditadura Militar da qual fizera parte. Foi exatamente sua repugnante performance naquela noite, quando dedicou seu voto ao torturador de Dilma Rousseff, o sádico coronel Brilhante Ustra, que o catapultou a outro lugar. Ali começou sua transformação em condutor nacional de ressentimentos e ódio.
Não creio que Bolsonaro tenha chegado sozinho até ali. Houve um investimento político, econômico e comunicacional da direita religiosa, de setores empresariais e de redes internacionais de direita em organizações que funcionaram como incubadoras da nova direita brasileira, entre elas o MBL e congêneres. Essas organizações encontraram nos algoritmos das mídias sociais o ambiente perfeito para a disseminação de desinformação, mentiras, notícias falsas, teorias conspiratórias e pânicos morais impulsionados em escala industrial.
O resultado nós conhecemos.
Dez anos depois, o golpe contra Dilma Rousseff é negado pela mídia oligárquica que o apoiou. Folha de S.Paulo, Estadão, O Globo e congêneres insistem em tratar a ruptura como um processo legítimo de impeachment, apesar da vasta produção de juristas, cientistas políticos, sociólogos, antropólogos, historiadores e especialistas em comunicação que reconhecem o caráter de ruptura democrática daquele processo.
Essa cantilena diabólica só pode ser descrita por aquilo que Hannah Arendt chamou de “mentira organizada”: não a mentira episódica, mas a fabricação sistemática de uma realidade alternativa capaz de apagar os fatos e corroer a própria possibilidade de uma memória comum.
A prova de que essa mídia pode escolher uma narrativa e apagar testemunhos está numa experiência que vivi recentemente.
A repórter do Estadão Melissa Duarte procurou-me para uma reportagem sobre os dez anos do impeachment. Quando me escreveu, eu respondi:
“Boa tarde! Sendo honesto como sempre sou, tenho muitas ressalvas em relação ao Estadão e sua linha editorial, principalmente quando se trata de temas e eventos envolvendo as esquerdas e seus ativistas. Tenho motivos de sobra para estar defensiva, principalmente porque o jornal basicamente apoiou o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff (aqui já ficam claríssimas nossas diferenças: Dilma, para mim, deve ser tratada como presidenta, assim no feminino, e trato o que foi feito a ela como um golpe e não como impeachment). Não é nada pessoal em relação a você. Espero que você entenda. Mas sou jornalista há quase 30 anos e conheço bem como opera a construção de uma narrativa de um jornal de Direita. Então, eu preferia que você, caso ainda tenha interesse, envie-me as perguntas e eu respondo por escrito, para me resguardar de manipulações e clickbait, essas forças diabólicas que estão destruindo o jornalismo honesto.”
Ela me respondeu que entendia e que eu poderia pesquisar seu trabalho para verificar seu compromisso ético.
Por fim, cedi:
“Ok, Melissa. Pode me ligar. O fato de você ser mulher muda quase tudo. ❤️”
Dei a longa entrevista. Rememorei fatos. Dei dados. Falei como testemunha dos acontecimentos.
Minha entrevista, porém, sequer foi mencionada no produto final do jornal.
Não que esse apagamento tenha me surpreendido.
Como jornalista, com uma carreira de quase trinta anos em jornais impressos, rádio e televisão, jamais posso passar pano para a impostura editorial. Essa mídia oligárquica que nega o golpe inclusive usou suas mulheres jornalistas para insultar Dilma Rousseff a partir de sua aparência física. Algumas chegaram a posar nas redes sociais como as “minas do impeachment”, vangloriando-se do trabalho jornalístico que ajudou a derrubar a única presidenta da República em quase dois séculos e a levantar como herói um juiz desqualificado em tantos sentidos como Sergio Moro.
Gilberto Gil já havia dito tudo isso muito melhor em “O jornal”:
“De outra feita, quando seja desejo editorial,
faça-se sujo o que é limpo;
troque-se o bem pelo mal.”
Por tudo isso, minhas flores em vida são para Dilma Rousseff.
Flores para a mulher que sofreu uma das mais violentas operações de deslegitimação política da história recente brasileira e, ainda assim, saiu do Palácio do Planalto sem renunciar à sua dignidade.
Seu discurso de saída revelou-se uma profecia.
Hoje Dilma é presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos BRICS.
A ela agradeço também uma generosa acolhida e um conselho certo, num jantar oferecido para nós dois pelo historiador James Green. Dilma aconselhou-me a deixar o país e proteger minha vida e a de minha família; que me guardasse para o tempo em que nossos algozes tivessem caído.
Eu fui embora.
E, sim, todos caíram.
Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Autor de “Falsolatria” (Editora Nós e Edições Sesc SP, 2024) e “O anonimato dos afetos escondidos” (Tusquest Editores, 2025). É candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo.




