Sandro Veronesi: “Encontro as regras para a minha literatura nos assuntos que estudei: arquitetura e xadrez”

Sandro Veronesi: “Encontro as regras para a minha literatura nos assuntos que estudei: arquitetura e xadrez”

 

Depois de conquistar o público brasileiro com o best-seller O colibri, o escritor italiano Sandro Veronesi esteve novamente no Brasil para a Feira do Livro do Pacaembu. Dentre as novidades que traz, estão seu livro Setembro negro e a reedição de Caos calmo, que chegam às livrarias com tradução de Karina Jannini pela Autêntica Contemporânea.

Arquiteto de formação e admirador dos grandes mestres do xadrez, como Bobby Fischer, Veronesi frequentemente prefere falar em literatura em termos arquitetônicos ou enxadrísticos: “Encontro as regras para a minha literatura nos assuntos que estudei: arquitetura e xadrez”, explica.

Para ele, a inspiração literária passa sobretudo pela ideia de construir espaços comuns de habitação: “a relação entre os encontros possíveis entre os frequentadores do espaço e aquilo que podemos organizar ao redor deles”. Já a estrutura do romance remete à movimentação de peças de xadrez em um tabuleiro: o jogo tem regras rígidas, ao mesmo tempo que possibilita combinações quase infinitas.

A predileção pelo romance e para a narração das grandes histórias, no entanto, chegou ao autor do outro lado do Atlântico – da América Latina, sobretudo. Em um momento em que a Itália e grande parte da Europa continental julgavam a narração como algo a ser superado, Veronesi encontrou em Borges, Vargas Llosa, Galeano e Guimarães Rosa a confiança e a coragem suficientes para enfrentar o que julgava ser um pensamento “eurocêntrico demais”.

Em entrevista à Cult, Veronesi discute a psicanálise e o tema do passado em sua obra, suas influências na América Latina, a importância do tédio e sua paixão pelo xadrez.

A psicanálise está presente de várias formas em sua obra, mas, especialmente em Setembro negro, um homem decide que narrar uma história de infância é o único jeito de finalmente entendê-la. Você vê sua literatura como um gesto psicanalítico?

Creio que praticar a psicanálise e escrever sobre pessoas — estejam elas em análise ou não — são questões totalmente diferentes. Sigo meu percurso psicanalítico há 25 anos por mim mesmo; não pelo escritor que sou. Meu primeiro analista – já falecido – mal lia o que eu escrevia. Para ele, eu era um paciente, não um escritor. Ele não queria espiar pelo buraco da fechadura, mas sim trabalhar a partir do que era levado ao consultório.

Minha analista atual, por outro lado, lê meus livros. Por ser lacaniana, o foco se desloca inteiramente para a linguagem. Mas, ainda assim, a relação acontece no sentido oposto ao que as pessoas costumam imaginar. Pela análise — pelas conversas sobre mim mesmo, minha família, minha mãe — às vezes tomo consciência de determinadas palavras ou conceitos, e alguns deles acabam migrando para meus livros. O movimento vai da análise para a literatura, e não da literatura para a análise.

Há esse tipo de influência pessoal da psicanálise em minha literatura, mas há também a influência que vem daquilo que leio de Freud, Lacan, Jung, Wilfred Bion, entre outros. Freud, por exemplo, é um bom escritor – um bom narrador, melhor dizendo.

Em suma, psicanálise, tal como chega a nós pelos livros, pode certamente contribuir para a criação de uma personagem, porque oferece conceitos e formas de compreender as pessoas, tanto por dentro quanto por fora.

Mas eu nunca pensei que a escrita fosse, ou pudesse ser, parte de um processo psicanalítico. De forma alguma. Mesmo que minha analista leia meus livros, não acredito que ela encontre neles algo que devamos discutir. O que importa é aquilo que eu levo pessoalmente para a análise. Se meus livros a ajudam ou não a me compreender, isso é secundário. Na verdade, eu preferiria nem saber o que ela pensa deles.

Quando você percebeu que a vida comum podia ser matéria prima da sua literatura?

Creio que os homens e mulheres comuns já são heróis – eu não inventei nada disso. O século 20 foi o século deles, tal como proclamou W. H. Auden em “The Common Life”, ou “The Age of Anxiety”, que foi como um manifesto.

Em minha formação eu lia os livros clássicos, cujos protagonistas eram princesas e duques, mas me atrai especialmente pelos autores americanos e latinoamericanos, cujos personagens eram quase sempre comuns, assim como acontece na literatura russa tardia, com Tchekhov e Bulgákov.

Mesmo a literatura clássica italiana tem alguns exemplos desse tipo de posição, como Il gattopardo [O leopardo], de Giuseppe Tomasi di Lampedusa ou I promessi sposi [Os noivos], de Alessandro Manzoni, de 1827, cujos protagonistas eram dois camponeses – algo revolucionário para o século 19.

Você mencionou autores latino-americanos. Quais seriam eles?

Mario Vargas Llosa foi o autor que mais me influenciou. Li grande parte de sua obra, sobretudo na juventude, e considero seus primeiros romances verdadeiras obras-primas. Mas sua importância para mim vai além dos próprios livros: foi ele quem me abriu as portas para a literatura latino-americana. A partir de Vargas Llosa, cheguei a Borges, Onetti, Galeano, Guimarães Rosa, Jorge Amado e tantos outros autores cubanos, uruguaios, argentinos e brasileiros.

Naquele tempo, na Europa – especialmente na Itália – havia uma ideia muito contrária ao romance, propagada pelas melhores mentes de nossa literatura, que diziam que o gênero estava superado, e precisávamos, portanto, inventar algo novo. Eu via essa ideia como algo eurocêntrico demais.

Até mesmo Italo Calvino, depois da sua primeira trilogia, passou a escrever livros de linguagem extremamente sofisticados — não narrativas, não histórias, mas outra coisa.

Você via algo revolucionário na forma do romance?

Sim. Por isso fiquei fascinado pelos autores latino-americanos, que não estavam a par dessa concepção e continuavam a escrever romances belíssimos.

Do meu lado do Atlântico, a tradição italiana do romance havia sido interrompida por uma década, talvez uma década e meia. Por isso, aqueles que escreviam como eu estavam separados de mim por uma geração inteira em meu país. Acabei encontrando meus contemporâneos na Argentina, no Peru, no Brasil e, por que não?, nos Estados Unidos, naturalmente, e também no Reino Unido, onde a situação era diferente.

Isso me deu a confiança e a coragem suficientes para enfrentar o pensamento dominante na Itália.

Entrevistei recentemente Georgi Gospodinov, que você já elogiou publicamente, e ele também mencionou que encontrou na literatura latino-americana uma inspiração. Você vê a influência da literatura latino-americana como parte de uma espécie de renovação da narrativa na literatura europeia?

Creio que algo de similar se passe com Gospodinov, na Bulgária, mas por motivos politicamente diferentes: assim como na Itália, a narração na literatura estava enfraquecida na Europa Oriental, mas por causa do regime soviético, que propunha uma mudança revolucionária na linguagem literária.

A narração, na verdade, era uma ferramenta muito poderosa. Mas acabei lendo muitos autores que não acreditavam nisso, e eles eram muito difíceis, então precisei trabalhar muito a minha escrita para fazer uma literatura que não fosse apenas entretenimento e dar a minha pequena contribuição à tradição literária.

Ao mesmo tempo, o realismo mágico latino americano – não creio que seja o mais correto dos termos, mas serve para identificar – era algo tremendo que eu achava que não podia ser ignorado.

Você encontrava autores absolutamente merecedores do Prêmio Nobel, como Juan Carlos Onetti, que conseguiu unir linguagem e narrativa de uma forma que inspirou alguns dos maiores escritores do mundo.

Todos eles ajudaram a criar um polo cultural e literário não europeu enquanto nós, europeus, estávamos presos a nossos próprios temas, guerras e preocupações eurocêntricas. Então, essa luz distante, vinda de Buenos Aires, do Brasil ou de Lima, parecia um sopro de ar fresco para a nossa geração, à qual Gospodinov, provavelmente, assim como eu, pertencemos.

Em Setembro negro, chama atenção do leitor a seção de agradecimentos, em que determinados elementos da história aparecem associados a nomes de pessoas. Isso me fez pensar na relação entre realidade e ficção em sua obra. Até que ponto a sua própria vida e a vida das pessoas ao seu redor servem de matéria-prima para a sua literatura?

Não apenas a minha vida. Eu preciso da ajuda de muitas pessoas. É normal para um autor não reconhecer o crédito de suas inspirações, mas eu quis agradecer as pessoas que me deram algo, mesmo que não tivessem a intenção, para mostrar que a escrita não é uma atividade solitária para mim.

Eu preciso das outras pessoas – preciso vê-las, ouvi-las, saber de seus destinos – não apenas para me inspirar, mas simplesmente para viver, para criar o meu espaço de existência. E isso vem, creio, não da filosofia ou da política, mas da minha formação em arquitetura. A arquitetura não é o seu ou o meu espaço; é o nosso espaço comum. É a relação dos encontros possíveis entre os frequentadores do espaço e aquilo que podemos organizar ao redor deles.

É importante que haja vidas alheias na minha paisagem: eu jamais viveria sozinho como jamais escreveria sozinho. As outras pessoas não me incomodam. Elas me tomam tempo, é verdade, mas me dão algo em troca. Eu me beneficio daquilo que elas fizeram e, por isso, no fim, sinto que devo agradecê-las. Quero mostrar que todas as observações vêm de vários pares de olhos, de várias vidas. Não sou eu. Somos nós.

Seus livros muitas vezes transitam entre o passado e o presente, e Setembro negro dá um protagonismo mais evidente à memória como recurso narrativo. O que te incita a revisitar o passado em sua literatura em um mundo onde parecemos cada vez mais obcecados pela nostalgia como valor de consumo?

Você tem razão, a nostalgia se tornou um produto. Mas não há nostalgia em Setembro negro, por exemplo. A decisão de ambientar a história no passado partiu da insatisfação com a qual vejo o presente.

O colibri foi o último romance que escrevi que poderia ser ambientado no presente. Após isso, algo aconteceu. Pandemia, guerras… Algo no mundo mudou. Não sei exatamente o que ou por que e não quero desperdiçar uma página falando sobre isso. Mover-me em direção ao passado foi uma escolha técnica; não nostalgia. Ao mesmo tempo, eu tive de ser sincero ao retratar os anos 1970 e mostrar o quão ricos eram esses tempos em termos de arte, música, liberdade e futuro – muito mais que agora.

Eu não prefiro o passado. Apenas quis evitar o tempo presente, pois não tenho as armas necessárias para combatê-lo ainda – não quero vivê-lo novamente enquanto escrevo. Assim como fiz com o passado, poderia ter me deslocado para o futuro se fosse um escritor de ficção científica, mas decidi visitar o passado; um passado familiar – minhas histórias não se passam no século 19 ou 18.

Ao retratar os anos 1970 como um período mais livre, você buscou atribuir às crianças de seu livro um papel muito ativo: elas fazem escolhas, tomam decisões e influenciam os rumos da narrativa. Como pai de cinco filhos, como você enxerga a infância de hoje e o futuro das crianças contemporâneas?

Há cerca de 20 anos, as crianças em nossa civilização tinham um inimigo em comum: o tédio. Era terrível. Ele estava em toda parte e nos acompanhava ao longo do dia todo. Mesmo as formas de escapar dele nos demandavam algo: ler é uma atividade ativa; o ato de jogar ou brincar envolvia um esforço físico – não havia software.

Não havia conteúdo on demand e plataformas de assinatura. Ou seja, você tinha que correr atrás daquilo que queria consumir e pagar – filmes, discos. Assim, você construía seus próprios gostos.

Quando você finalmente se liberta dessa infância cheia de horas vazias contra as quais você tinha que lutar, você se sentia pronto para fazer algo. Meus filhos, por outro lado, dispõem de todas as horas do dia organizadas por outras pessoas; de acordo com os interesses e lucros dessas pessoas. Elas nunca sentem tédio; não o sentem como um inimigo em comum.

Em diferentes ocasiões, você falou da literatura em termos arquitetônicos e também recorreu ao xadrez para explicar a construção de um romance. Entendo a influência da arquitetura, já que essa é a sua formação, mas gostaria de saber: qual é a importância do xadrez na sua vida?

Xadrez foi a paixão da minha adolescência desde que assisti à memorável partida de 1972 entre Bobby Fischer e Boris Spassky. Foi como se Fischer se tornasse um herói para todos de repente. Então comecei a jogar e a estudar xadrez, mas logo parei pois, nos torneios, acabei descobrindo que meus adversários eram muito mais habilidosos que eu, pois a inteligência para o xadrez é um tipo de inteligência muito específica. E foi uma humilhação tremenda para mim [risos].

Eu lembro de ver nos torneios internacionais os grão-mestres russos, que eram muito habilidosos, mas muito pobres, levarem suas câmeras Zenit para vendê-las por debaixo das mesas e tentar ganhar algum dinheiro.

Eu parei de jogar, mas continuei estudando como um interesse pessoal, pois é fascinante como o xadrez tem regras rígidas ao mesmo tempo que possibilita combinações quase infinitas. É como a vida, ou a literatura, que tenta recriar a vida real, mesmo que de um jeito mágico, como a literatura latino-americana dos anos 1970 e 1980.

No começo de um romance, por exemplo, é importante “liberar as peças”, como em uma jogada de abertura de jogo: mantê-las prontas para a ação – não é especialmente importante a combinação dos lances, mas sim colocar o jogo em movimento, como em Caos calmo, que apenas apresenta a real combinação das peças no final. É uma questão de tempo e de não ignorar as peças.

Há histórias que erram e apresentam o personagem muito tarde: o personagem é ignorado e de repente emerge como protagonista. Não. O protagonista precisa ser apresentado na abertura. Mas também há casos em que o oposto acontece: o protagonista recebe toda a atenção no começo, enquanto que as outras peças são ignoradas. É como em Anna Kariênina: cria-se a promessa de que sua vida é o centro da história. Se não o é, você cometeu um erro. É como mover a sua rainha muito cedo, sem a proteção das outras peças.

Eu não estudei literatura. Eu estudei arquitetura e xadrez. Encontro as regras para a minha literatura nos assuntos que estudei: arquitetura e xadrez.

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