O desafio de “estar com” nossos filhos

O desafio de “estar com” nossos filhos
(Arte Revista CULT)

 

Por Francielle Limberger Lenz

Na formação consciente de uma família, a pergunta “quem cuidará das crianças” precisa estar na pauta social, no diálogo e no sentir de cada família em construção. Essa não é uma pergunta qualquer. O que significa na prática?

Diante de tantos saberes disponíveis, perguntar-se sobre como vamos cuidar de nossos filhos é resistir à lógica de que quem sabe sobre eles são os outros; é empoderar-se enquanto pais, conscientizando-se que o mais importante à saúde da criança é estar com seus pais, é a presença relacional de seus cuidadores. Presença que se torna suficientemente boa para o desenvolvimento se houver no ambiente adultos que desejam esse novo ser – tanto o filho, como a si mesmo como pai e mãe, incorporando essa nova função, dialogando sobre essa vida que geraram; desejando algo para seu futuro – antecipando um projeto de vida. Nesse sentido, relacionar-se criticamente com o universo disponível como suporte para cuidar é preciso: encarar como uma base para estar com, que amplia nosso repertório, nos informa e ajuda a entrar em contato com nossos sentimentos e valores diante do desafio de estar com nossos filhos, de criá-los. Isso é um convite a assumirmos a autoria nesse percurso de nos formarmos um novo ser, ser família.

Desse modo, aumentamos as condições de escolha e de nos relacionarmos com os filhos cientes de suas necessidades e de nossos limites; sabendo de nossa implicação, podermos transmitir referências de como se construir sujeitos posicionados no mundo; de como construir uma vida interessante de ser vivida. Isso requer sentir e decidir a partir do conhecimento sobre nós mesmos e sobre nossos filhos; um conhecimento que é construído na convivência e na conexão com o que essa relação gera. Assim, caminhamos no sentido de desconstruir o famoso “sentimento de culpa materna” ou “dívida paterna”, através de um exercício de responsividade, em que corajosamente assumimos o cuidado e os efeitos de nossas escolhas.

Para tanto, precisamos construir redes de apoio que não queiram para si o protagonismo do cuidado, que tenham humildade de se colocar a serviço, para ajudar a tomarmos nós as decisões; que sejam para nós “suportes não prescritivos”. Ou seja, que deem subsídios para aprendermos a ser pai e mãe, para construirmos nosso jeito de ser e de nos ocuparmos de nossas novas funções, sem necessariamente nos dizer como, sem prescrever o modo de estarmos com os nossos. Porque aí está a graça: que cada família seja capaz de fazer sua síntese e criar um modo singular de existir. Logo, um horizonte para todos nós é, num mundo de ausências e/ou presenças virtuais, estar com nossos filhos, atentos a essa relação, fazendo as mediações necessárias e descobrindo o prazer possível nessa convivência, que requer desejo, presença e criatividade. Falar sobre isso é atentar para o trabalho de criar um ser e implica também criar socialmente condições de infraestrutura para esse cuidado, que ocupa tempo e espaço na vida.

Francielle Limberger Lenz, 34, Porto Alegre. É psicóloga clínica, psicanalista, mestre em Psicologia Social e Institucional (UFRGS), mulher-mãe de uma menina que nos últimos três anos vem recolocando questões e prioridades no meu cotidiano

 

 

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