Cheiro de mãe

Cheiro de mãe
(Arte Revista CULT)

 

Por Sandra Modesto

Dizem que mãe tem cheiro. De macarronada, de feijoada, de galinhada, de avental sujo de ovo, e por aí vai.

Eu não sei de nada. Minha mãe não gostava de cozinhar, mas cozinhava.

Talvez um dos cheiros que tenha ficado e fincado na minha memória, tenha sido um aroma de canela. Chá de canela. Quente ou gelado. A arte culinária dominada por minha mãe.

Dai-me um Jorge Amado porque eu viro Gabriela, cravo no meu peito marcas de um buraco na parede, lembrando Rubem Fonseca.

A minha mãe comprava cadernos novos na mercearia da esquina.

Pra eu que eu não fosse para escola com cadernos rasgados.

Nesses cadernos eu sentia o aroma perfeito entre meus rabiscos. Desde remotos tempos, eu escrevia. Fazia meus diários secretos de sonetos, inventava poesias. Que barra! Agora entendo Carolina de Jesus, Clarice Lispector, Cora Coralina, Zélia Gattai.

E voltando ao cheiro, minha mãe tinha cheiro de alfazema.

Sim. Jamais vou esquecer. Um frasco grande com estampas da planta, que era só abrir.

Passar nas mãos, e dá licença, que eu passava a minha alfazema no corpo inteiro, até perto do meu ponto G.

Atualmente, há no mercado, diversos tipos de perfumes com um monte de aromas. Florais, secos, doces, “Aroma de alfazema”. Mas eu só gostaria de sentir hoje , o cheiro de alfazema que minha mãe comprava, colocava o frasco na penteadeira, toucador…

Tanta dor espalhada no meio do caminho.

E eu? Querendo minha Alfazema. Alfazema que a minha mãe sempre tinha na pele dela. Mas…

Nessa vida cheia de confusão, chega o dia das mães. O comércio de repente, não mais que de repente, terá um lucro.

Juro que eu faria um empréstimo no banco (?) pra comprar vários frascos de Alfazemas bem grandes, que é pra ver se eu tenho sorte, de resgatar tal cidadania.

Companhia de mãe é uma parceria sem fraude. Sem golpes. É poder de mulher. Direito garantido? Talvez possível. Conquista de filha usar o que quiser, cheiro de alfazema queremos.

Amor de mãe é soberano. É preciso sentir. Sempre sentir. Coexistir. Entender…

Mãe não é apenas anjo sagrado, retrato emoldurado e amarelado pelo tempo. É preciso conquistar uma mãe com desejo. (Quem sabe Sigmund Freud explica).

Desejo por perfume de alfazema. (insisto)

Foi por causa desse cheirinho gostoso, que eu jamais vou esquecer minha mãe.

Por isso eu sou tarada em perfumes.

Vão – se as mães ficam seus cheiros.

Sandra Modesto, 58, é mineira de Ituiutaba. Graduada em Letras, é professora de português aposentada. Mãe da Carla, 36, e Gabriel, 25

 

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