Texto inaugural do romantismo alemão ganha 1ª tradução para o português

Texto inaugural do romantismo alemão ganha 1ª tradução para o português

São 4.700 fragmentos do crítico e filósofo Friedich Schlegel que se tornam acessíveis ao público brasileiro após um processo de tradução que levou três anos

 

Considerado um dos fundadores da moderna crítica literária e da primeira fase do romantismo alemão, Friedrich Schlegel acaba de ganhar duas novas traduções para o português, uma delas inéditas. São os livros ‘Fragmentos sobre poesia e literatura’ e ‘Conversa sobre poesia’, reunidos em uma única edição pela Editora Unesp.

A primeira obra é composta de 4700 fragmentos em que Schlegel trata dos principais temas caros à primeira fase do romantismo alemão: a fusão de todos os gêneros na poesia romântica universal progressiva, a ideia de uma sociedade que discute em conjunto os problemas artísticos e filosóficos, a vontade de popularizar a arte – o que eles chamavam de ‘romantizar o mundo’ – e o desejo de levar a erudição da academia para a população.

Produzidos no início do século 18, tais fragmentos permaneceram inéditos em baús de Schlegel até 1950, quando o austríaco Hans Eichner os publicou com o título Literary notebooks. Constantino Luz de Medeiros, tradutor e professor da UFMG, conta que levou cerca de três anos para traduzir, direto do alemão, 4.700 dos mais de 20 mil fragmentos encontrados no espólio de Schlegel. “Sua publicação agora é importante para cobrir uma lacuna em textos do primeiro romantismo alemão no Brasil”, argumenta o tradutor.

A tradução iniciou-se como desdobramento do doutorado de Medeiros, que buscava mais intimidade com os textos do filósofo romântico. “Tive que me debruçar sobre a tradução de uma forma muito comedida, porque é uma linguagem muito rebuscada e antiga, pertencente àquele século. Fiz a tradução de modo a usar o mesmo tom em que o texto foi escrito”, explica.

A segunda obra, Conversa sobre poesia, não era inédita no Brasil, mas recebeu nova tradução, mais apurada e precisa, por Medeiros e pelo professor de filosofia da USP Márcio Suzuki. No livro, Schlegel desenvolve, sob a forma de romance, as questões filosóficas e literárias abordadas nos fragmentos. “A obra é um romance dialógico, em que Schlegel emula um diálogo platônico, só que com diversos personagens. Ele achava que com essa forma dialógica poderia contemplar uma questão sob diversos pontos de vista.”

Friedrich Schlegel, um contemporâneo

O fragmento, explica Medeiros, apesar de muitas vezes ser mal compreendido como incompletude, foi a maneira encontrada por Schlegel de transmitir, à forma literária, a dialogia que debatia no conteúdo. “O fragmento romântico é um jogo de perguntas e respostas. É como se o fragmento escrito esperasse uma completude dialógica por outra parte. Schlegel esperava, na forma literária escolhida, dar as condições desse dialogismo.”

O professor, que ainda pretende publicar outra tradução de Schlegel, Lucinde (1801), inédito no Brasil, e um estudo sobre o primeiro romantismo alemão, acredita que o pensador é fundamental atualmente pois é base da crítica literária moderna. “Em Conversa sobre poesia temos um dos primeiros exemplos de uma literatura que está refletindo sobre ela mesmo. Schlegel denomina isso como ‘ironia romântica’, um conceito que, a grosso modo, é uma forma de observação da própria literatura, da arte dentro da arte. E isso é completamente inovador. Teremos isso depois em James Joyce, Virginia Woolf.”

Segundo Medeiros, Schlegel rompeu com a crítica dogmática que vinha sendo feita até sua época ao abandonar valores subjetivos ou biográficos e buscar a essência da obra e sua relação com o contexto histórico. “Ele tinha muitos insights que somente seriam retomados por críticos como Erich Auerbach, e aqui no Brasil por críticos como Antonio Candido”. Escrevendo em 1797, Schlegel chegou à ideia de unir teoria crítica e história da literatura, uma unificação, na opinião de Medeiros, inovadora e discutida até hoje.

“Sua grande importância encontra-se no caráter filósofo de suas concepções literárias, na crença de que seria possível, por meio da arte, formar o homem em sua razão sentimental, aproximando todos os âmbitos das artes e das ciências em uma forma dialógica de entendimento do mundo. O gênero literário ou sentimento poético que possibilita essa aproximação seria, para os românticos, a poesia romântica, universal progressiva, uma espécie de sentimento universal e cosmopolita da humanidade e das artes.”

Fragmentos sobre poesia e literatura – Conversa sobre poesia
Friedrich Schlegel
Tradução Constantino Luz de Medeiros e Márcio Suzuki
Editora Unesp
R$: 84 – 600 págs.

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