Tesão e cinzas: O fim do mundo em amarelo

Tesão e cinzas: O fim do mundo em amarelo

 

Há lugares em São Paulo onde o espírito anárquico e inquieto da cidade, seu desnorteamento e sua negligência fundamentais e irreprimíveis, encontram pontos de apoio especificamente firmes. Certas baldeações de metrô; certos canteiros de obras de onde brotam como fungos novos arranha-céus; certos cruzamentos criados por confluências ilógicas de ruas: tudo isso expressa com particular força a propensão da cidade para o provisório e sua resistência à permanência, à ordem, ao fechamento.

Contrariando essa lógica de impermanência, é em um desses espaços transitórios que se encontra há quase três décadas a instalação “Estação Sumaré”, que confere ao artista Alex Flemming o posto de artista visual mais lembrado da paisagem urbana de São Paulo.

Trata-se da série de 44 fotografias de rostos anônimos que estampam os vidros laterais da estação Sumaré do metrô de São Paulo. Sobre as imagens em preto e branco, intervenções tipográficas recompõem trechos de poemas variados, impondo um código a ser decifrado pelos passageiros, além de prestar uma homenagem à cidade e seus habitantes.

A partir do próximo dia 9 de agosto, a arte de Flemming pretende ocupar temporariamente mais um espaço na capital paulista: o Palacetes da Sé, antigo casarão em ruínas projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo para ser a sede da Sociedade de Medicina, instituição que deu origem à atual Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

A exposição individual intitulada “Alex Flemming Apocalipse”, com curadoria de Fábio Magalhães pretende marcar não só o retorno do artista ao Brasil após um período de mais de três décadas morando em Berlim, como também o início do calendário de eventos do edifício, que deve se tornar um centro cultural nos próximos anos.

A mostra reúne duas séries de pinturas: “Retratos invisíveis” e “Apocalipse”. São como Eros e Thanatos, compara o artista em entrevista à Cult. “Começo e fim; vigor e morte; tesão e cinzas”. Se “Apocalipse” retrata edifícios e ícones da arquitetura mundial em ruínas, “Retratos invisíveis” representa com uma exuberância de cores figuras humanas parcialmente invisíveis em cenas cotidianas que transitam entre a transcendência e a sensualidade.

A série “Apocalipse”, ele conta, se iniciou em 2015, após o atentado do grupo terrorista Estado Islâmico ao teatro parisiense Bataclan, que deixou 90 mortos no local após homens armados entrarem no local e abrirem fogo contra o público.

“Isso é um apocalipse – o fim do mundo. É um ataque também a mim e a todos os valores nos quais acredito”, Flemming argumenta. “Nas pinturas, eu privilegiei monumentos arquitetônicos ao redor do mundo como símbolos da civilização e os destruí como um apelo à nossa consciência de que temos que defender a democracia, a tolerância e a própria civilização. Para que um edifício seja erguido, muitos fatores se unem em prol disso, e leva muito tempo. O apocalipse e a incivilidade podem destruí-lo em um segundo. Esse é o problema.”

“E há salvação?” – eu pergunto – ao que ele replica apenas com um silêncio antes de dizer: “Digamos que eu pinto amarelo.”

O que há em comum entre as duas séries é o que a curadora e crítica Angélica de Moraes já definiu em um ensaio como a espinha dorsal do artista: a fotografia. Muito habituado à mesclagem da linguagem fotográfica a outros suportes – a exemplo de “Body builders” (2001-2002) –, desta vez ele utiliza a fotografia base de seus retratos invisíveis e edifícios em ruínas.

“Da Nikon para a Leica, para o celular”, hoje o artista vive uma mudança em sua relação com a fotografia. Ao mesmo tempo que a facilidade em produzir fotografias vem aumentando o acesso ao mundo das imagens, Flemming considera que há uma banalização do ato de fotografar. Em suas palavras, “é um dilúvio de imagens. Eu tento ser um Noé para entendê-las. Quando a pomba branca me trouxer um ramo de oliveira, talvez eu faça fotografia de uma outra maneira.”

 

Exposição: Alex Flemming Apocalipse

Local: Palacetes da Sé – Rua Roberto Simonsen, 97 – Centro, São Paulo (SP)
Período: de 9 a 30 de agosto de 2026
Horário: das 11h às 16h
Entrada gratuita

Deixe o seu comentário

TV Cult