Subterrâneos da criação de Fiódor Dostoiévski

Subterrâneos da criação de Fiódor Dostoiévski
Retrato de Fiódor Dostoiévski, de 1872 (Pintura de Vassili Perov)

 

Impressos lado a lado, título e autor mantêm na capa de todo romance um convívio muito familiar. Ao longo da narrativa, porém, a tranqüilidade dessa vizinhança pode se perder caso o leitor procure o lugar em que letra e vida se tocam – ou se afastam -, enredando-se no famigerado binômio “vida e obra”.

É o nó desse emaranhado que Joseph Frank desata na biografia de Dostoiévski que vem publicando desde 1977, cujo quarto e penúltimo volume acaba de ser lançado nos EUA. No Brasil, a Edusp acaba de comprar os direitos de edição da obra, que começará a ser publicada a partir de 1998, com tradução de Vera Pereira. Eis um breve índice dos volumes a sair:

Dostoevsky – The seeds of revolt, 1821-1849, percorre os anos de infância, formação romântica do escritor, estréia no mundo literário, encontros e desencontros com Bielínski (o crítico de maior influência na Rússia de então), participação nos grupos revolucionários e, entre outros textos, Pobre gente, O duplo e O sr. Prokhartchin. O segundo volume, Dostoevsky -The years of the ordeal, 1850-1859, trata dos anos de prisão na Sibéria, o primeiro casamento e, entre outros, Recordação da casa dos mortos e O sonho do tio.

No terceiro, Dostoevsky – The stir of liberation, 1860-1865, acompanham-se o retorno a São Petersburgo, a intensa atividade jornalística e textos como Memórias do subsolo e Notas de inverno sobre observações de verão. No quarto, Dostoevsky – The miraculous years, 1865-1871, são analisados, em meio aos anos do segundo casamento e do exílio para escapar aos credores, Crime e castigo, O jogador, O idiota e Os demônios. Para o quinto, último e esperadíssimo volume, ficaram os romances O adolescente e Os irmãos Karamázov.

Sem estardalhaço metodológico, na introdução ao primeiro volume o autor explica que não pretende bisbilhotar a vida do romancista em busca do anedotário; seu objetivo é traçar um painel da vida cultural russa do século 19 a fim de trilhar “um dos caminhos” para se compreender Dostoiévski, certamente o melhor: “situá-lo a partir de sua habilidade em fundir seus dilemas particulares aos dilemas que afligem a sociedade de que faz parte”.

Para acompanhar essa miraculosa fusão de vida e obra, Frank lança mão de inúmeros textos (cartas, diários, artigos de jornal e poemas; contos, novelas e romances de Dostoiévski e de inúmeras pessoas e escritores que de uma forma ou de outra se relacionaram com ele), traçando um painel das questões que se discutiam na Rússia de então que, face à tradicional ignorância em que o ocidente se mantém em relação ao oriente, por si só já justificaria o interesse dos quatro volumes publicados até agora. A maior façanha, porém, está no uso das informações que traz à luz.

Tecendo pouquíssimas considerações metodológicas (as poucas linhas, aliás, em que se dedica a apontá-las ficam sempre aquém do que faz), ao analisar a fusão entre os “dilemas particulares” de Dostoiévski e os “que afligem a sociedade” russa de seu tempo, Frank nunca se dedica à “botânica literária”, fazendo a obra brotar da vida como um fruto maduro. Sem deduzir uma da outra a partir dessa equação orgânica – e muito mecânica -, como se o texto refletisse seu contexto ou fosse um mero efeito das circunstâncias em que foi produzido, Frank analisa os romances de Dostoiévski a partir do diálogo que estabelecem com tal contexto e do efeito que eles próprios intentam produzir, produzindo assim a diferença capital entre quem vê a obra como efeito do contexto, fazendo dela o espelho de uma época, e quem a vê como a produção de um efeito, fazendo dela a criação de um texto.

No primeiro caso, analisar um romance de Dostoiévski seria antes de mais nada estudar o incipiente desenvolvimento do capitalismo na Rússia, tudo o que sobeja da organização feudal, a organização e o funcionamento das classes burocráticas etc., acompanhando como tudo isso se expressa no texto. Uma tal abordagem não leva em conta, porém, que toda obra supõe ela mesma a produção de um efeito, tendo uma eficácia como produtora de conceitos e não como mero receptáculo de influências. É a partir desse pressuposto que Frank acompanha o diálogo de Dostoiévski com a tradição literária e com os escritores e jornalistas de sua época, mostrando como cada texto participa das polêmicas que se travavam então.

Nos meandros desse diálogo são desfeitos vários equívocos da fortuna crítica de Dostoiévski. E o curioso é que no mesmo movimento se desfazem também equívocos sobre sua vida, cometidos por biógrafos que deduziram a vida da obra. Analisando cartas, diários da família e textos do autor, Frank mostra, por exemplo, que o tom sombrio com que geralmente se pinta a infância de Dostoiévski foi emprestado de vários trechos de seus romances, muitos dos quais o escritor tomou emprestado, por sua vez, de… Dickens.

Outro bom exemplo da mesma confusão é o famoso artigo sobre o romancista escrito por Freud, em que o autor se vale de uma pequena e obscura nota de rodapé extraída de uma biografia pouco confiável – e de muito malabarismo – para colocar uma epilepsia que ainda não se manifestara e um desentendimento entre pai e filho que não houve a serviço de sua teoria sobre a castração.

Mais importante que os muitos reparos sobre a vida, porém, é a análise que se faz da obra: é com ela que Frank realiza uma verdadeira proeza na tradição crítica sobre o autor. Com raríssimas exceções (é o caso do excelente e breve Dostoiévski Artista, de Leonid Grossman), seus comentadores costumam oscilar entre dois opostos: ou a obra é inserida na tradição do romance realista do século 19, mas analisada a partir das dissonâncias em relação aos escritores franceses, lidas quase sempre como defeito (é o caso de M. de Vogüé, responsável pela introdução de Dostoiévski no ocidente e pela alcunha de escritor tosco, inábil e excessivamente repetitivo que se difundiu junto às primeiras traduções para o francês*); ou a obra é analisada a partir de suas próprias peculiaridades, o que não é pouco, mas inteiramente banida de seu tempo, o que traz problemas. É o caso de Bakhtin, que formula em Os problemas da poética de Dostoiévski sua teoria do romance polifônico, desvinculando os romances de Dostoiévski de seu diálogo com os textos do século passado para vinculá-los à remota tradição da sátira menipeia.

De acordo com Bakhtin, os narradores e personagens de Dostoiévski, embora “criados” por ele, não são um “objeto do autor” mas “agentes autênticos do discurso”, que estão sempre em posição de “igualdade dialógica” uns em relação aos outros e à voz do próprio escritor. Embora parta do melhor princípio – buscar a complexidade peculiar à narrativa de Dostoiévski -, ao afirmar a equidade absoluta entre as vozes de todos os personagens e narradores, e estabelecer a ausência de intenção do autor de impor qualquer ideia ou efeito que não seja a “igualdade dialógica” entre todos, Bakhtin formula uma teoria muito “democrática”, mas perde de vista que a complexidade narrativa de Dostoiévski, embora nunca unívoca, como ele bem assinala, está longe de ser tão imparcial

Em sua maioria, os críticos lêem os romances de Dostoiévski ancorados nessa impossibilidade de discernir seu efeito, como se o autor nunca tivesse a intenção de decidir entre as inúmeras contradições que expõe. É o que acontece, por exemplo, na análise de Crime e castigo; balizados ou não por Bakhtin, todos concordam com a impossibilidade de julgar entre os inúmeros motivos que levam Raskolnikov a cometer seu crime. Apesar de simpática, essa perplexidade resulta da complexidade do romance e não da irresolução do criminoso, ou de seu autor. A solução desse mistério é um bom exemplo do caminho que Joseph Frank trilha nas análises que faz dos textos de Dostoiévski.

Rastreando os intrincados vai-e-vem da narrativa, Frank acompanha os caminhos e descaminhos de Raskolnikov, mostrando como cada um dos personagens se relaciona com o protagonista como “duplos” ou “semiduplos” que “reverberam” o andamento de suas idéias. Nessa trilha musical em que cada personagem é um acorde da composição mental do criminoso, as oscilações de Raskolnikov dão voz à acirrada batalha que o jovem trava para deixar de ser um homem “comum” e se encaixar na categoria dos homens “extraordinários”, aos quais tudo é permitido (segundo a teoria do herói que tanto agradou, e ensinou, Nietzsche).

Ao cruzar o diálogo entre o criminoso e os demais personagens do romance com o diálogo entre Dostoiévski e os jornalistas e escritores de inspiração utilitarista, Frank resolve o mistério desse magnífico romance policial, resolvendo na mesma tacada o mistério da intenção do autor: tentando agir segundo sua nova teoria e reagir a seus antigos preceitos morais, Raskolnikov embaralha entre as inúmeras razões, emaranhadas a esse nó principal, as pistas que revelam a crença do autor na perniciosa influência do “racionalismo” europeu que – além de nada ensinar a um país cujo povo traz “no coração” a sabedoria das “emoções”, o socialismo “natural” das obshinas e a moral do “verdadeiro” cristianismo (o ortodoxo) – leva os jovens russos fascinados pelas novas idéias a cometer excessos como os de Raskolnikov.

Traduzindo a crença de Dostoiévski nas virtudes do “coração russo” numa versão deslocada no tempo e no espaço, é como se defendêssemos as qualidades “cordiais” do brasileiro como possibilidade de um desenvolvimento melhor que o dos países desenvolvidos, propondo o deslocamento em relação ao ideário estrangeiro não como inadequação, mas como diferença a ser ponderada no balanço de nossos vícios e virtudes.

Voltando à Rússia e a Crime e castigo, Frank o lê como se fora “um poema tirado de uma notícia de jornal”, fundindo polêmica jornalística e criação literária para desvendar o mistério do crime e a “miraculosa” habilidade do autor em fundir seus dilemas particulares aos dilemas de sua época. Nessa transformação de notícia em poesia, Dostoiévski se opõe duplamente à geração “utilitarista” dos anos 60: como “eslavófilo” que é, critica a misturada de Bentham, Max Stirner e Fourier com que a porção utilitarista dos “ocidentalistas” funda o “egoísmo radical”, segundo o qual todo homem é necessariamente bom, destituído de livre-arbítrio e destinado à felicidade, bastando para alcançá-la seguir os ditames da razão e os princípios da utilidade.

E, como autêntico “romântico” da geração de 40 que nunca deixou de ser, critica os mesmos utilitaristas que se valem da literatura para difundir seus ideais políticos, mas que se “esquecem” de transformá-los em poesia tornando-os menos “úteis” que o mais “inútil” dos românticos. São esses os dois pontos principais da polêmica que Dostoiévski trava com a intelligentsia ao regressar a São Petersburgo dos anos de prisão na Sibéria (onde se dá o que ele chama de “regeneração das minhas convicções”) e se defrontar com o sucesso de O que fazer? Relatos da nova gente, o livro de maior repercussão na Rússia do século passado e certamente um dos piores da literatura de todos os tempos.

Embora extenso, vale a pena citar o trecho em que Frank fala dessa “pérola” em sua única obra traduzida no Brasil: “Se tivéssemos de perguntar pelo título do romance russo do século 19 que teve maior influência na sociedade russa, é provável que um não-russo escolhesse entre os livros do poderoso triunvirato – Turguêniev, Tolstói ou Dostoiévski. Pais e filhos? Guerra e paz? Crime e castigo? Estas, sem dúvida, estariam entre as respostas sugeridas, mas elas só dariam testemunho da ignorância endêmica sobre a cultura russa que a popularidade mundial de sua literatura ainda não conseguiu superar. Não, o romance que poderia reivindicar essa honra com mais justiça é o de Nicolai Tchernichévski, O que fazer?, um livro de que poucos leitores ocidentais ouviram falar e que pouquíssimos leram. Todavia, nenhuma obra literária moderna, com a possível exceção de A cabana do pai Tomás, pode competir com O que fazer? em seu efeito sobre vidas humanas e em seu poder de fazer história. (…) O romance de Tchernichévski, muito mais do que O capital de Marx, forneceu a dinâmica emocional que posteriormente veio a produzir a Revolução Russa” (Pelo prisma russo).

Contra as ideias políticas e estéticas de Tchernichévski, Dostoiévski redige praticamente todos os seus artigos de jornal e escreve Memórias do subterrâneo, novela em que elabora a técnica da “ironia invertida” que servirá de base às contradições de seus grandes romances e ao fabuloso “homem do subterrâneo”, personagem que definirá mais um tipo na galeria de personagens a partir da qual a crítica da época opõe todo texto, numa tipologia que reproduz a cisão entre a geração romântica dos anos 40 e a utilitarista dos 60: “homens supérfluos” ou “nihilistas”, românticos ou egoístas, fracos ou fortes, hamlets ou quixotes etc.

Como a formação desse ideário é esmiuçadaem The stir of liberation, cabe fazer uma ressalva ao leitor que pretenda começar a ler The miraculous years: embora aí estejam as análises dos grandes romances, é indispensável ler o volume anterior para acompanhá-las, pois nelas Frank se vale dessa polêmica que começa com a oposição das Memórias do subterrâneo ao O que fazer?

Feita a ressalva, aproveito seu tom prescritivo para voltar ao início da história e perguntar se é preciso ler qualquer um dos volumes dessa magnífica biografia para entender Dostoiévski: afinal, deve o leitor perturbar a familiaridade com que autor e título convivem na capa, enredandose no famigerado binômio vida e obra para entender um romance? Certamente não.

Por que então ler uma biografia? Certamente porque – se é boa – tão bom quanto ler um romance é acompanhar os meandros de sua criação, acompanhando no mesmo percurso as peripécias da vida do autor como numa boa ficção em que se sofre junto ao herói, torcendo para que entregue o manuscrito no prazo, para que receba alguns rublos com que sossegue os credores ou arrisque mais um número na roleta, ou para que, Deus o ajude, conquiste a mulher por quem se apaixonou…

Por fim, resta anotar dois poréns à excelência com que Frank desata o nó “vida e obra” de Dostoiévski. O primeiro diz respeito às convicções religiosas do russo: apesar de dedicar as páginas mais informativas sobre o assunto, Frank não se preocupa em desvendar como essas convicções afetam a construção narrativa dos romances. O segundo e último porém é que não há, nas mais de duas mil páginas publicadas até agora, uma única linha que busque a poesia de Dostoiévski na vizinhança de palavra a palavra, falta que o leitor do excelente Dostoiévski – Prosa Poesia não deixará de lamentar, principalmente quando compara a análise miúda que Boris Schnaiderman faz do Sr. Prokhartchin à tradição que lhe impinge a alcunha de escritor tosco.

Frank uma obra incompleta. Ainda bem, exclamará todo leitor de Dostoiévski; afinal, melhor que esgotá-lo é lê-lo e relê-lo, sempre, fazendo nova cada leitura.


LUCIANA ARTACHO PENNA é mestre em literatura brasileira e doutora em filosofia na USP

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