Sobre o impronunciável livro de Verônica Stigger

Sobre o impronunciável livro de Verônica Stigger

A essa altura todo mundo deve saber o que é o impronunciável “Opisanie Swiata” (falta um acento no S de Swiata, mas meu computador não dá conta) publicado pela COSAC em 2013. Digo impronunciável porque polonês não é uma língua tão comum entre nós. Eu que não costumo ler nada sobre livros (resenhas, releases, orelhas) nem antes de ler os livros nem depois de lê-los, preferi ficar com o mistério da pronúncia e do sentido de “Opisanie Swiata” porque dele depende o meu prazer como leitora (já que não escrevo resenhas porque não converso bem com a fórmula para resenhas, mas apenas memórias de leitura e cronocríticas). Confesso que li o livro todo esperando saber o que significava a expressão “Opisanie Swiata”. Demorou e, quando a revelação aconteceu, eu, enquanto leitora, fui feliz.

Como contei ao Manuel Ricardo de Lima que eu estava lendo o livro da Verônica, ele me contou que tinha feito uma resenha e, contrariando meus princípios, fui ler a resenha – a qual recomendo porque é bem melhor do que isto que chamarei minha resenha-cachimbo (ora, porque é óbvio que, no caso do que escrevo aqui, “isto não é uma resenha”) sob muitos pontos de vista – lá no site do jornal: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2013/10/05/resenha-de-opisanie-swiata-de-veronica-stigger-511205.asp

Aí, já que eu tinha caído na vida lendo uma resenha (aliás, recomendável porque muito elucidativa e muito poética), acabei lendo a orelha da Flora Sussekind. Achei legal também. Tanto o texto do Manuel, quanto o da Flora eram ótimos e lindos e corretos e perfeitos (etc.) e tudo aquilo que se exige das resenhas e orelhas. Mas a orelha eu não recomendo porque ela conta o que significa Opisanie Swiata antes de abrirmos o livro, coisa que a autora, salvo desatenção ou erro meu, só conta no finzinho do livro. Verdade que dá vontade de contar, mas seria uma pena uma antecipação desse tipo no caso específico desse livro. Por sorte eu li Opisanie Swiata antes.

Bom, nessas de ficar lendo o que os outros escreveram, eu achei que ainda podia escrever sobre o livro já que, afinal, pensei ter visto alguma coisa a mais ou diferente quando estava lendo. Penso que vi o método da construção literária da Verônica Stigger. Verdade que eu me ligo no método porque método é o meu habitat natural. Além disso, adoro livros com navios como lugares poéticos e o Opisanie Swiata tem um navio; a história passa quase toda em um navio. Como leitora, eu sempre sou feliz com um navio (seja nas histórias de Ulisses ou de Melville, mas me serve também o barquinho do pai em A terceira Margem do Rio, de Rosa). O navio é sempre uma metáfora do mundo: a vida como viagem terminável-interminável. Então, cronocriticamente falando, neste momento que é o “momento do leitor”, o livro falou comigo. Mas isso é particular demais e só comento para que cada leitor se sinta no direito de buscar no livro o que lhe dá prazer porque o prazer é o único sentido da leitura real.

O método que é o que mais interessa é, por incrível que pareça, também um prazer.

O método tem, em primeiro lugar, a ver com o que Benjamin no seu texto sobre Proust falou sobre a imagem: ela é “uma realidade frágil e preciosa”. Enquanto lia “Opisanie Swiata” eu meditava sobre o uso das imagens na narrativa que, de modo algum, pareciam ilustrações. Logo vi que para ler o livro eu teria que entrar no jogo sutil das imagens que também não faziam o papel das imagens tais como aparecem em histórias em quadrinhos, por exemplo, quando elas podem falar sozinhas. O método de Verônica Stigger tem mesmo a ver com o que o Valêncio Xavier fazia em seus contos, primos desse romance Opisanie Swiata (ou novela? Mas de que importam essas classificações?) e de outros contos da escritora. Em segundo lugar, quem já se deparou com o que fez Aby Warburg no começo do século 20 em seu Atlas Mnemosyne no qual palavras e imagens andam juntas, no qual, sobretudo Warburg contou a história das imagens – mais do que uma história ilustrada por ou com imagens – entenderá que, na direção inversa da narrativa, Opisanie Swiata é um pequeno rio de imagens que corre em paralelo ao rio da história contada. Quem ler Opisanie Swiata sem prestar muita atenção a esse procedimento sutilissimamente elaborado perderá parte fundamental do livro tão bem armado sobre uma ação que devora a atenção do leitor.

Uma coisa que é mesmo muito difícil para mim ao falar desse livro é ter que escrever sem poder contar o que significa Opisanie Swiata (sic). Essa é uma parte muito interessante que costura o todo do livro. Quem, tendo pressa, ou preguiça de aventurar-se à leitura, e quiser descobrir, que vá ao reino do Desmancha-Prazeres-da-Curiosidade do Google ou coisa parecida. Quem, gostando de ser leitor, que se dê o prazer da surpresa, irmã gêmea da felicidade da leitura tão bem, e sutilmente, construído na viagem que é Opisanie Swiata.

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Setembro

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