“Se não postar, não cresce”: entre o espelho e a tela, outros narcisos

“Se não postar, não cresce”: entre o espelho e a tela, outros narcisos

 

 

Em tempos de um mundo agitado e acelerado — em que quase não se notam mais as palavras escritas de gentileza nos muros, como dizia a canção, mas se sofre a constante pressão por ser visto ao preço de permanecer vivo ou não no ciberespaço —, propomos algumas observações sobre o narcisismo e suas novas manifestações.

Parece-nos indispensável abordar aquilo que, na prática, interroga a nossa teoria. É que o cotidiano — e não apenas o silêncio de um consultório psicanalítico — nos defronta com a irrecusável necessidade de refletir sobre a naturalização acrítica do virtual. Para não sermos engolidos por essa névoa, somos forçados a recorrer, mais uma vez, ao bom e velho Freud e às suas infindáveis trilhas sobre o narcisismo. A ideia legada por ele parte da compreensão de que a formação do humano depende de uma experiência de passagem: o trânsito do estado animal à condição propriamente humana. Este trânsito se dá na complexa relação entre indivíduo e mundo, na qual a relação especular com a imagem tem centralidade para a constituição subjetiva.

Ao resgatar o mito de Narciso — o jovem que se afoga ao tentar capturar o próprio reflexo —, Freud demonstra como a fascinação pela imagem segue moldando a cultura. Essa energia psíquica dirigida a si mesmo é indispensável para erguer a representação do Eu a partir do próprio corpo, oferecendo o suporte necessário para a existência. Longe de ser uma patologia, esse narcisismo primordial é uma condição estrutural: o investimento na imagem corporal é o passo constitutivo do Eu.

A partir dessa premissa, Freud marca uma virada teórica em que o Eu — enquanto instância psíquica que precisava administrar os estímulos do mundo externo e manter seu próprio funcionamento — passa a tomar a imagem de si como um objeto do qual extrai prazer. Isso funda a divisão nuclear entre a libido do Eu e a libido do objeto: na primeira, o próprio Eu, por meio de seu corpo e de sua imagem, funciona como fonte de satisfação; na segunda, a satisfação é alcançada pela via de um objeto externo.

Assim, Freud mostrou que a satisfação com a imagem funciona como uma chave não apenas para conferir ao Eu uma representação — isto é, a identificação da qual o corpo será o representante por excelência —, mas também para organizar o psiquismo. Entretanto, a fabricação dessa imagem de si passa, imprescindivelmente, pelo olhar do Outro e pelo modo como cada sujeito interpreta esse olhar. Por essa razão, nossa relação com a própria imagem apoia-se em dois pilares fundamentais: o primeiro é a forma como nos enxergamos a partir de nossas vivências (o modo como eu me vejo); o segundo é a maneira como supomos que o mundo nos vê, ou melhor, a imagem que imaginamos que ele gostaria que fôssemos.

Vendo o quanto tudo isso está empregado em nosso dia a dia — gerando quase sempre aquele mal-estar incômodo —, o peso do olhar e da imagem ganhou um espaço enorme na psicanálise. Afinal, não precisamos cavar a história da humanidade para perceber o quanto a nossa relação com a própria imagem é espinhosa. Seja pelas experiências infantis com o olhar dos pais, seja pela constatação simples de quão móvel e passageira ela é. Basta cada um de nós se encarar no espelho logo cedo, ao acordar, e dar uma nova olhada no fim do dia para ter a prova viva de que a imagem é um terreno altamente volátil.

Como se não bastasse, vivemos hoje não apenas diante do espelho, mas em frente às telas. Tal como o espelho de Alice — longe, contudo, de qualquer país das maravilhas —, a virtualidade nos lança a uma dimensão perturbadora, na qual a realidade perde contornos enquanto filtros e edições hipertrofiam o Ideal, sustentando uma perfeição exclusiva das vitrines digitais. Cumpre notar uma diferença radical: enquanto o espelho tradicional reflete o corpo no presente, a tela algorítmica devolve uma imagem editada, antecipada, filtrada e quantificada por métricas e likes. A tela, portanto, não se limita a refletir; ela atua ativamente como uma instância de validação.

Esse universo tem de tudo um pouco, e seus efeitos transbordam a clínica psicanalítica: vão desde as descargas dopaminérgicas em alta velocidade até o uso recorrente de ansiolíticos de emergência para apagar o fogo da angústia.

De todo modo, a relação com o mundo virtual é um jogo de mão dupla: traz satisfações evidentes, mas carrega uma trama psíquica profunda. É o que revela a provocação que extraímos da clínica e da vida comum: ‘Se não posta, não cresce’, ‘Se postar, me marca’ ou ‘Se não postar, eu nem fui’. Ao projetar novamente a própria imagem para o olhar do mundo, essa dinâmica reativa marcas da primeira infância e desafia a nossa tolerância frente às inevitáveis descontinuidades do Eu.

Tendo em mente a lição freudiana de que o Eu ganha corpo e representação na imagem, a relação com aquilo que expomos — do espelho às telas — nada mais é do que um constante reencontro consigo mesmo.

Lançamos, assim, um conjunto de interrogações: o que o excesso de tela e a urgência do ‘dar-se a ver’ denunciam sobre as economias narcísicas contemporâneas? Trata-se de uma exacerbação do amor por si mesmo ou, inversamente, de uma fragilidade estrutural que exige sustentação contínua no olhar alheio? O que ocorre ao Eu quando a fronteira entre a intimidade e a cena pública se dissolve na imagem?

A amplitude do tema exige compreender a pluralidade dos narcisismos, pois Freud já indicara dois tempos essenciais dessa dinâmica: o narcisismo primário, em que o investimento na própria imagem assegura o prazer primeiro; e o narcisismo secundário, no qual o investimento nos objetos do mundo funciona como um modo de obter o olhar e a validação do Outro. Sem a pretensão de esgotar essas questões, tomamo-las como ponto de partida para iluminar outras inquietações.

Nosso exame explora, portanto, duas modalidades nas quais Narciso reaparece na cena virtual. Ambas têm como princípio o reencontro do sujeito com a sua própria imagem e o investimento contínuo na preservação do Eu.

A primeira revela um Narciso que brinca de re-criar edições de si mesmo. O foco do sujeito, assim como sua satisfação, está no manuseio da própria imagem; o olhar do público, embora bem-vindo, surge apenas como um ganho secundário. Na prática, trata-se daquele gesto cotidiano de rever o próprio story várias vezes, demorar-se admirando uma foto tratada e habitar esse reflexo idealizado. Ainda assim, trata-se de um jogo arriscado. Afinal, como nos ensinou Freud, o oposto do brincar não é a seriedade, mas a realidade — e o perigo reside justamente em tentar fazer o Ideal caber no real. Dá-se uma maquiada na autoimagem, é verdade, mas o truque cobra seu preço: o esbarrão clássico entre aquilo que vemos na tela e o que supúnhamos que o outro veria. A “torta de climão” daí decorrente incomoda, mas dificilmente abala a estrutura do Eu.

Quem de nós nunca se pegou relendo a própria postagem só pelo prazer de contemplar a versão que acabou de publicar? Quem nunca buscou no filtro um refúgio passageiro para as imperfeições do cotidiano?

Em outra lógica, a satisfação não decorre propriamente de reconfigurar ou reparar a imagem de si. A brincadeira fica mais séria. Indo além da metáfora do espelho de Alice, o ponto principal passa a ser a busca do Outro como uma condição existencial necessária. Trata-se de um movimento que exige retorno e validação contínuos, assombrado pelo fantasma constante do apagamento. Na prática, este Narciso tenta capturar o olhar alheio traduzido em métricas: números, curtidas e visualizações. Todo esse barulho nas redes não serve apenas para “dar as caras”, mas para extrair do mundo um atestado de existência — sob a lei implacável de que só nos sentimos vivos quando o olhar do Outro nos ilumina. Resta saber: o que sobra do sujeito quando as notificações silenciam e a tela se apaga? Quantas curtidas são necessárias para acalmar a incerteza de existir quando a multidão segue em frente?

Evidentemente, estes são apenas dois recortes entre os múltiplos modos com que o universo cibernético escancara a nossa economia psíquica. A urgência de pensar esses efeitos é ainda maior diante da aceleração tecnológica. As redes e o ambiente virtual expandem-se continuamente, afetando tanto as relações humanas quanto os modos de consumo. Tudo isso intensifica a sedução de pseudossoluções para os impasses do sujeito, a começar pelas complexas exigências da vida afetiva.

Embora ainda não conheçamos a fundo o alcance desses impactos — testemunho que talvez pertença às próximas gerações —, algo já é certo: há um caráter potencialmente nocivo nessa dinâmica. Isso impõe a necessidade de limites no tempo de tela e de medidas preventivas, seja para evitar uma fixação empobrecedora, seja para conter a ilusão de relacionar-se com a realidade mediada apenas pelo Ideal.

(1) Comentário

  1. Chegamos à idade que praticamente “não somos mais” uma pessoa, ou alguém com valores, características, particularidades que nos definem enquanto seres sociais e pensantes. Que mesmo dentro de uma massa, acredito eu, um método necessário para abarcar determinada homgeniedade de um ativo tão grande e diverso, mas que se conecta por similaridades/semelhanças.

    Ao visitar minha família das últimas três vezes, incluindo 3 semanas atrás, na qual foi o meu aniversário, há algo de interessante, sofisticado, sensível, subjetivo e extremamente… poderia utilizar: CHIC.! Que a expressão que uso em vários contextos. Ser uma pessoa alienada ao mito de Narciso. Alienada, pois ainda há pessoas que vivem sem essa influência de tudo que nos é outorgado apenas por estarmos inseridos na dita idade moderna no tempo contemporâneo dito como o hoje/presente. Meus pais e boa parte da família, que reside no interior, incluindo uma irmã, sobrinho (ele nem tanto), tias e meu cunhado; alguns são em nada e outros pouco tocados por essas questões. Justamente por estarem away das questões digitais e informacionais criadas pelo Sistema com um fim muito claro e poucamente suscitado.

    Embora a minha formação e também coação pelas – pois hoje somos coagidas à, praticamente – questões de imagem, comunicação, informação (infelizmente na maioria dos casos! é um infortúnio dizer: se tornou necessário!) para questões de trabalho… vejo, por usar utilizar de ferramentas e meios digitais ainda em um perfil bem abaixo do usual atualmente, que a nossa melhor referência, descrição e ferramenta para codificar o mundo e também não nos perdermos seria o nosso “reflexo na água, ou no espelho”.

    Pois uma coisa, particularmente, tenho como um fato, certeza e também vivência. Somos a nossa maior fonte de entendimento, decodificação e relação com o mundo ao qual estamos inseridos. É a oportunidade, inclusive de expansão da totatilidade do ser. Pois entre ser, viver e ter referências que podem ser válidas, mas não vividas de fato; conseguimos criar novas consciências, observações, reações, entendimentos, sentimentos.

    Feito inclusive, que acredito ser extremamente sofisticado, mais puro e orginal, criativo, entende?! Quando olhamos mais para nós e menos para as coisas que cooptam nossa atenção nos dias de hoje, voltamos aos nossos primeiros anos não nos perdendo de nossas reminiscências vivemos e atravessamos o período da massificação das mentes, idéias, sentidos de uma forma mais pura e original. Claro, no que for possível, pois todos os dias a contemporaneidade nos assola com vários ditâmes.

    E não incorrer completamente neles, nos dá invisivelmente a alcunha de dissidentes, diferentes, incompreendidos, contestador, difícil, solitário… e por aí vai, simplesmente por não se encaixar no stabelishment moderno.

    Nos leva a um paradoxo atrelado a um paradigma. A originalidade, a criação, a unicidade do ser, ao mesmo tempo que pleiteada e anseada, aos poucos se torna massificada. E o que deveria ser visto com a candidez e admiração das diferenças e sua consequente agregação de valor, se torna algo a ser estirpado e tolido.

    E nisto, temos de aprender a transitar, sermos camaleões vivendo em e na sociedade para não nos frustrarmos. Sermos flexíveis, compreende?!

    Esta frase não é do meu pai, mas desde préadolescente, sempre me o indicia, ouvia: É tão bom ser meio burro, ignorante, não saber e não se importar com os trem. É uma bênção! rs

    A gente cresce e entende e por vezes desejamos viver na pele, um estado de alienação onde as coisas são demais… É um recurso também de proteger a mente, né?!

    Enfim, é isso amigo. O texto me despertou estas falas. Claro, tentei me conter com parcimônia, porque senão eu falo, falo, falo… Mas no ao vivo também. Estar preso e em diàlogos virtuais me irritam, mas fazer o quê, né?! Agora é isso.

    Um abraço, querido! Boas energias e uma semana solar pra ti!

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