Quinina e cloroquina: histórias e trajetórias

Quinina e cloroquina: histórias e trajetórias
Mikhail Bulgakov iniciou experimentos que permitiram chegar à cloroquina, remédio utilizado atualmente (Foto: Reprodução)

 

Mikhail Bulgákov (1891-1940), antes de ser reconhecido no século 20 como um dos maiores escritores russos, formou-se em medicina aos 24 anos, em 1916, e logo foi nomeado como médico rural na pequena vila de Nikólskoie, bem distante dos ares da capital aos quais se acostumara. Em meio às tradições e crenças de um povo majoritariamente analfabeto e com a ajuda de duas parteiras e um enfermeiro, o jovem médico aprendeu não apenas seu próprio ofício, mas também registrou acontecimentos e impressões em contos que viriam a compor as Anotações de um jovem médico. Entre as experiências relatadas pelo Dr. Bomgard, alter ego de Bulgákov, destaco a chegada de um moleiro que reclamava de cansaço nas pernas e de febres que chegavam sempre à noite. Além de demonstrar saberes que os moradores do vilarejo nem de perto imaginavam, era alfabetizado. O médico identificou a malária como causa das febres intermitentes, e sugeriu que se internasse no pequeno hospital, seria tratado com pós e injeções.  E chamando sua auxiliar, disse:

 

Pelagueia Ivánovna! Interne na enfermaria n. 2. Ele tem malária. Quinina em pó, uma dose, conforme receitado, quatro horas antes do ataque, isto é, à meia-noite. Aqui vai uma exceção para você! Um moleiro intelectual!

 

De madrugada, o médico foi acordado às pressas, o moleiro parecia estar morrendo. Enquanto vestia-se rápido para chegar ao hospital, imaginava se havia errado no diagnóstico de malária. Quando chegou encontrou o moleiro sentado, com olhos escuros e enormes, balançando como bêbado e respirando com dificuldade. Pelagueia Ivánovna explicou:

 

– Doutor! – ela exclamou, com uma voz enrouquecida. – Eu juro, não tenho culpa. Quem poderia esperar? O senhor mesmo escreveu que era um intelectual….

– Qual é o problema?

Pelagueia Ivánovna sacudiu as mãos para o alto e disse:

– Imagine só, doutor! Ele tomou as dez doses de quinina em pó de uma vez! À meia-noite.

(…) – para que você fez isso?! – gritei no ouvido dele, mais alto ainda.

E a voz de baixo disse, sombria e hostil:

– Bem, pensei, pra que perder tempo com vocês tomando um a um? Tomei todos de uma vez, pra encerrar a história.

 

A história narrada por Bulgákov se passou em torno de 1916 ou 1917, época em que se buscavam compostos sintéticos que pudessem substituir o pó de quinina, e que se discutia, como ainda se faz hoje, sobre dosagens certas, dados os efeitos colaterais notados. A história do pó já tinha quase três séculos, desde quando os jesuítas das missões espanholas souberam pelos Incas que uma poção chamada de “quina-quina” era eficaz contra febres. O “pó dos jesuítas”, como era conhecido na Europa, era extraído pelos Incas de uma árvore chamada de Kina, a Cinchona ledgeriana. Se as histórias contadas a partir das ações dos jesuítas carecem de instrumentos de prova robustos, os resultados do uso daquele pó para o tratamento de febres e da malária se mostraram bem efetivos.

Em 1820, Pelletier e Caventou conseguiram isolar o seu princípio ativo e o nomearam de quinina. Desde então, foi possível manufaturar o medicamento e distribuir em maior quantidade, e muitos estudos foram feitos até que se chegasse a compostos sintéticos independente das árvores originais, isso já no início do século 20. Assim, trata-se de uma história de circularidades de saberes, pessoas, plantas e remédios em que a medicina ocidental se movimenta a partir de saberes tradicionais, substituindo os produtos originais por compostos industrializados resultantes de pesquisas em química e em microbiologia.

Antes de chegar aos compostos sintéticos, o mercado de produção de quinina fora extremamente lucrativo e implicou uma disputa imperialista entre europeus, nomeadamente holandeses e ingleses, para conseguir as sementes e plantar a Cinchona ledgeriana em suas áreas coloniais, em Java ou na Índia, de modo a não depender da Amazônia peruana ou boliviana. Os Incas, desnecessário dizer, nunca participaram do comércio resultante dos seus saberes sobre a Kina, ou sobre quaisquer outras plantas que faziam parte de seus sistemas de tratamentos e curas.

Mário de Andrade (1893-1945), em seu Namoros com a medicina (1937), a partir de suas viagens pelos Brasis, também destacou as articulações entre os saberes tradicionais e os usos científicos no que chamou de medicina excretícia, apontando a relevância de se observar o uso dos excrementos nos processos de adubação. Também se referiu aos tratamentos com ervas e chás e suas presenças na construção erudita dos saberes em sua época. Mesmo que se afirme, e é importante que se faça, a temporalidade na qual se inscreve o livro de Mário e o “estado da arte” dos saberes médicos na época, é de se destacar o papel dado às articulações com os saberes tradicionais que fazem parte da medicina ocidental, e que tem sido obliterado pelos resultados obtidos com compostos sintéticos.

No século 20, segundo o historiador André Felipe Candido da Silva, problemas como as epidemias de malária durante a Primeira Guerra Mundial e em regiões tropicais de interesse econômico, fortaleceram empresas como a alemã Bayer, que se dedicava a pesquisas para o desenvolvimento do composto sintético de quinina. A cloroquina e a hidroxicloroquina são compostos sintéticos, resultantes desses estudos para substituir a quinina original, articulados tanto com as disputas imperialistas quanto com aquelas que marcaram a Segunda Guerra Mundial, quando os americanos desenvolveram pesquisas próprias para não depender da alemã Bayer.

Em 1946, a cloroquina foi disponibilizada para a população civil, além de se ter ampliado os seus usos para outras doenças, como a artrite reumatoide e o lúpus eritematoso, mas nunca sem que se discutissem dosagens ideais e efeitos colaterais indesejáveis e altamente perigosos para os pacientes. A pesquisa científica, desta forma, sugere tempos de observação, de levantamento e organização de dados empíricos, de testes para apontamento de eficácia e de efeitos colaterais, que, muitas vezes, desafiam às urgências da vida real. Nos quase quatro séculos de estudos do pó retirado da Cinchona ledgeriana, passando pela separação de seu princípio ativo até a elaboração de compostos sintéticos a partir da definição da fórmula de sua molécula, ainda não se chegou a um medicamento perfeito, a uma dosagem exata para todos os pacientes e doenças que podem ser tratadas e, tampouco, chegou-se a um controle dos efeitos colaterais. Os tempos da ciência exigem paciência e, por isso, podem trazer contestações sobre a noção de “verdade”, que, no senso comum, é algo absoluto, uma vez descoberta, não se modifica mais. No entanto, é exatamente isso o que a pesquisa científica regularmente coloca à prova com suas novas descobertas. Dados empíricos e instrumentos de prova mostram-se, muitas vezes, como transitórios, podendo se modificar frente a novas pesquisas e testes laboratoriais. É fácil substituir dificuldades com resultados e demoras para tratamentos e vacinas por “opiniões”, crenças infundadas e religiosidades sobre o como agir diante de doenças, epidemias ou pandemias.

Enfim, resumimos aqui uma longa história que começou no século 17, uma história que, na experiência do médico/escritor Mikhail Bulgákov, permite observar os riscos de decisões ancoradas em percepções leigas, e que, na pena de Mário de Andrade, sugere não esquecer as articulações entre saberes tradicionais e medicina ocidental, e chegamos aos dias de hoje, com enormes avanços científicos, mas nos quais se acredita poder ministrar cloroquina sem os devidos cuidados sugeridos pela comunidade científica, numa confusão em que a “opinião” substitui dados empíricos e ensaios clínicos…   Mas no caso dessa última discussão, como dizia Macunaíma, Ai que preguiça!

Ana Nemi é professora de História Contemporânea da Unifesp.


 

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