Escrito na infância, primeiro ‘conto’ de Hemingway é descoberto na Flórida

Escrito na infância, primeiro ‘conto’ de Hemingway é descoberto na Flórida Caderno usado por Hemingway para escrever seu primeiro texto de ficção, aos 10 anos (Sandra Spanier/Reprodução)

 

Um caderno antigo, com a capa já muito gasta, guarda um segredo precioso: 14 páginas da caligrafia infantil de Ernest Hemingway (1899 – 1961), nas quais o jovem, então com 10 anos de idade, narra detalhadamente uma viagem pela Irlanda e pela Escócia. O único porém: na infância ou na idade adulta, Hemingway jamais fez este passeio.

O caderno guarda o que parece ser a primeira tentativa do autor na ficção. “É a primeira vez que vemos Hemingway escrever uma narrativa imaginativa e que se sustenta sozinha”, afirmou, ao New York Times, a professora e editora do Hemingway Letters Project, Sandra Spanier, uma das responsáveis pela descoberta junto com o historiador Brewster Chamberlin. Especializado na trajetória de Hemingway e autor do livro The Hemingway log: a chronology of his life and times, Chamberlin sabia que o escritor jamais tinha pisado na Irlanda ou na Escócia.

De qualquer forma, a criatividade do garoto já se destacava: sem título, o “relato” foi escrito em setembro de 1909, no formato de cartas endereçadas aos pais, em que Hemingway narra suas “viagens” com a certeza de quem, de fato, esteve lá. Ele conta, por exemplo, a lenda de O’Donahue, o “fantasma das ruínas de Ross Castle”: “Quando a luz do dia cai sobre as ruínas, O’Donahue retorna à sua tumba”.

Ele relata também um passeio no Castelo Blarney, na Irlanda, e fala a pobreza no país, descrevendo casas “simples feitas de pedra” com telhados de palha. “É muito escuro dentro destas casas”, escreveu. Ele também inventou uma anedota sobre um porco que “corre sob as mesas” e que era chamado pelos habitantes locais de “pequeno companheiro que paga o aluguel”. Tudo isso, afirmam os pesquisadores, foi criado por Hemingway aos 10 anos de idade.

Segundo os especialistas, o próprio escritor deve ter mantido o caderno em seu arquivo pessoal, no qual guardava documentos como notas fiscais, raios-x, cartas, manuscritos e fotografias. Já que viajou muito, Hemingway acabou espalhando muitas dessas preciosidades pelos lugares onde passava, como Flórida, Illinois, Cuba e Idaho.

A história do diário de viagens de Hemingway foi escrita com cartas feitas para seus pais e o que parecem ser trechos de seu diário (Foto Sandra Spanier / Reprodução)
O relato ficcional foi escrito no formato de cartas endereçadas aos pais (Sandra Spanier/Reprodução)

O “conto” pioneiro, por sua vez, estava preservado na casa da família Bruce, amigos de longa data dos Hemingway, em Key West, na Flórida – junto com fotografias raras do autor, uma mecha de cabelo e algumas quinquilharias. Ainda segundo os pesquisadores, o patriarca dos Bruce, Telly Otto “Toby”, era dono do bar favorito do escritor na região, o Sloppy Joe’s, e ao longo dos anos se tornou confidente, segurança e até motorista do escritor.

Na verdade, o arquivo da família Bruce foi descoberto bem antes da dupla de historiadores, pela quarta esposa de Hemingway, Mary Welsh, nos anos 1960 – logo após a morte do autor. Na época, porém, Mary estava em busca de manuscritos, como o de Paris é uma festa (publicado postumamente em 1964), e não chegou a dar atenção ao resto dos achados, deixando-os aos cuidados da família. Apenas nos últimos 15 anos é que o material do arquivo começou a ser catalogado – justamente por Chamberlin e Spanier.

Do caderno, pouco restou a não ser as páginas escritas e um pedaço da capa, na qual Hemingway desenhou um mapa dos Estados Unidos – faz sentido que Mary pensasse não ser algo importante. Há, também, tentativas de poemas e algumas anotações sobre regras gramaticais, como de pontuação.

Sem anotações de professores ou notas, não fica claro se o “conto” foi escrito por livre e espontânea vontade ou se era algum tipo de trabalho escolar – ou mesmo se ele pretendia publicá-lo na revista infantil St. Nicholas Magazine, que organizava um concurso literário mensal, do qual sua irmã, Marceline, chegou a participar. “Talvez ele tenha se inspirado a escrever sua narrativa ficcional com a perspectiva de se tornar um autor publicado aos 10 anos de idade”, disse Spanier ao New York Times.

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