Presença discreta num tempo caótico: “Crise e irresolução”, de Vanessa Moro Kukul, e outros lançamentos

Presença discreta num tempo caótico: “Crise e irresolução”, de Vanessa Moro Kukul, e outros lançamentos
(Foto: Reprodução)

No balanço das vogas literárias do século passado, a obra de alguns grandes poetas brasileiros acabou não recebendo uma boa acolhida entre os leitores das gerações seguintes, sendo injustamente esquecida ou relegada à mera curiosidade de uma determinada época. Perdidas em volumes esgotados, distantes do radar dos autores contemporâneos, tais obras – quando bem lidas – podem, no entanto, revelar uma atualidade surpreendente, capaz de reacender debates importantes e dar um novo enquadramento a questões que já pareciam amortecidas.

Um dos principais méritos do trabalho de Vanessa Moro Kukul em Crise e irresolução: a poesia de Dante Milano (Intermeios, 2019) é exatamente demonstrar a atualidade da obra de Dante Milano, explicitando o lugar específico do poeta dentro da cena literária dos anos 1930 e 1940 e revelando o quanto sua poética formaliza impasses que ainda são nossos. Por meio da leitura cerrada de alguns poemas, a autora elabora uma investigação de fôlego, trazendo uma reflexão consistente sobre os limites da razão instrumentalizada – que culminaria na catástrofe da Segunda Guerra Mundial – a partir da obra de um artista que vislumbrara, no calor da hora, as consequências nefastas de um “progresso” tecnicista, conduzido, no Brasil, pela ditadura do Estado Novo.

Em sua pesquisa, Kukul expõe a atuação cultural de um poeta discreto, cuja cuidadosa meditação estética se consolidaria no volume Poesias, originalmente publicado em 1948 e revisado pelo próprio Milano ao longo de toda a vida. Esse livro único, que sofreu acréscimos e supressões nas edições posteriores, é resultado do trabalho de um poeta já maduro, cuja singularidade foi entendida, muitas vezes, como um deliberado afastamento das questões trazidas pela rotinização do modernismo na virada entre as décadas de 1930 e 1940. Entretanto, acompanhando a participação ativa do autor nos jornais e revistas daquelas décadas, Kukul nos mostra, ao contrário, o diálogo constante que Milano estabelecera com seus pares, atestando que a independência pessoal do poeta não impediu sua inserção consciente dentro do modernismo como um “projeto conjuntural”, forjado por diferentes tendências em disputa.

Não custa lembrar, como aponta a pesquisadora, que Milano foi o organizador da pioneira Antologia de poetas modernos, em 1935, e que era figura importante do círculo de intelectuais cariocas que se reuniam em torno de Manuel Bandeira. E, embora não tenha participado dos embates mais polêmicos do modernismo, as declarações públicas do próprio poeta iluminam sua adesão tácita ao movimento, na defesa de uma poesia sem ornamentos e de uma pesquisa estética atenta às lições da linguagem popular. Como argumenta Kukul, a própria formação erudita de Dante Milano – assentada, sobretudo, na tradição italiana medieval e na modernidade poética francesa – é mobilizada a partir de um chão histórico específico, marcado pela transformação do espaço urbano do Rio de Janeiro e pelas discussões sobre a derrocada da poesia diante de um mundo em chamas.

Nesse sentido, vale realçar a análise do poema “Jardim público”, no qual a imagem aparentemente genérica das “aves pernaltas” aponta para um referente bastante concreto: trata-se do conjunto escultórico Aves Pernaltas, obra de Mestre Valentim transferida ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro em 1905. Para a pesquisadora, esse dado empírico, cifrado na composição do poema, pode ser lido como “um exercício de rememoração, na medida em que a imagem, apesar de ser ressignificada, não pode negar sua historicidade” (p. 162). Analisando tantas outras imagens, como “o mar batendo nas pedras” ou o edifício do “Praia-Hotel”, Kukul propõe, portanto, uma leitura na qual a poesia de Milano é indissociável de sua paisagem carioca.

Tal insistência no caráter particular dessa poética não reduz o alcance de sua reflexão, associada à linhagem moderna da negatividade crítica. Não à toa, Vanessa Moro Kukul encontra nas formulações de Dialética do esclarecimento – publicado, aliás, naqueles mesmos anos 1940 por Adorno e Horkheimer –, o arcabouço teórico para interpelar a obra de Dante Milano. Segundo Kukul, a lírica seca e meditativa de Milano se constrói em oposição a um “tempo caótico”, no qual os conflitos mundiais reverberam numa experiência subjetiva danificada, fazendo com que cada indivíduo seja um “corpo mapa-múndi”, fraturado pela guerra. Protestando contra essa situação limítrofe, a dicção do autor assume, muitas vezes, certo tom nostálgico, na tentativa de reconstruir uma ordenação para sempre perdida. Por outro lado, mesmo nos sonetos aparentemente mais equilibrados, o sujeito milaniano enuncia sua própria irresolução, explicitando sua inevitável participação na desordem de um mundo que, no entanto, ele recusa.

Mesmo a paisagem natural, na qual esse sujeito projeta seu sofrimento individual, é atravessada por uma violência reativa, que responde à ação predatória dos homens (“A terra transformada num monturo”). As imagens de uma natureza incontrolável, que aterroriza o sujeito (“A montanha que ameaça desabar,/ O mar que avança para mim,/ O abismo que me puxa pelos pés/…”), são permeadas pela tensão social, coadunando-se numa visão desencantada quanto ao futuro (“Quando virá o fim do mundo?/ …/ Quando virá o fim dos homens?”). E, nesse universo degradado, o próprio fazer poético encontra-se sob ameaça, aparecendo como as “migalhas” de um desejo de retorno a um tempo de “inocência” (“Sinto que a arte me cansa/ E só me resta a esperança/ De me esquecer do que sou/ E voltar a ser criança”).

Se o desencanto do poeta flerta, por vezes, com a autodestruição (“Os que me virem caído/ Pensarão que estou ferido./ Alguém dirá: ‘Foi suicídio!’/ ‘É um bêbedo!’, outros dirão”), isso não significa que sua obra se encerra numa atitude de absoluto niilismo. Na apurada interpretação do poema “O náufrago”, Kukul demonstra que a ação desesperada do sujeito, que luta contra o mar, deve ser entendida como um signo de resistência. Afinal, apesar de realçar a inutilidade dos seus gestos, esse sujeito fraturado é, no fim das contas, “mais inteiro” do que aqueles que simplesmente se entregaram à lógica da vida reificada. Nessa chave, o trabalho intenso de Milano com seu único livro – trabalho este destrinchado pela pesquisadora, no cotejo entre diferentes versões dos poemas – já é, em si mesmo, uma aposta na criação artística contra o esvaziamento do mundo. É por meio desse paradoxo que Dante Milano elabora seus melhores poemas, legando-nos, no lugar da certeza assertiva, uma hesitação meditativa, cuja “luz cegante” dá a ver pontos obscuros de nossa própria experiência.

Renan Nuernberger é mestre e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo.


[não ficção]

por Redação

Estudo do antropólogo francês Bruno Latour sobre as sociedades ocidentais e suas ciências, em um movimento que aponta para a investigação das sociedades ocidentais sobre si mesmas. Para isso, Latour relaciona a ideia de fetiche das religiões africanas à ideia de fato das ciências modernas. Assim como os fetiches são objetos de culto, feitos por humanos e agindo sobre eles, os fatos científicos não seriam meramente dados, mas também autores imprevisíveis, constantemente interrogados pelo pesquisador em uma articulação de redes e interações. Completa o volume o texto “Iconoclash”, que complementa a análise de Latour sobre os fatos e fetiches.

Historiografia comentada da intelectualidade francesa da segunda metade do século 20, indo do pós-guerra a 1989. O historiador francês, conhecido por suas biografias de intelectuais e sua história do estruturalismo, focaliza esse período para compreender como “passamos do período dominado pela prova da história, da influência comunista e de suas desilusões a um período aguçado pela crise do futuro e pela preeminência das ciências humanas”. Afinal,  é nessa época que surgem grandes pensadores fundamentais para a contemporaneidade, abordados em profundidade na obra, tais como Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Michel Foucault, Jacques Lacan, Roland Barthes e Jacques Derrida.

Conjunto de ensaios do filósofo marxista brasileiro, originalmente escritos em francês, que traçam as relações entre a “melancólica revolta romântica e a aventura surrealista em busca do ouro filosófico do tempo”. Seguindo seus estudos que relacionam marxismo, surrealismo e literatura, o autor procura estabelecer essas conexões e entender a passagem do romantismo ao surrealismo através das mais diversas áreas de estudo e do conhecimento: magia, cabala, a cultura revolucionária, as artes selvagens e o erotismo.


[ficção]

Reunião com quinze contos russos que abordam o universo infantil e juvenil. Entre os doze autores, selecionados pela organizadora Daniela Mountian, há nomes bem conhecidos dos leitores brasileiros – como Ivan Turguêniev, Lev Tolstói, Nikolai Leskóv e Аnton Tchékhov -, mas também alguns poucas vezes traduzidos e trabalhados por aqui: a imperatriz Catarina II, que abre a coletânea, Lídia Avílova, Sacha Tchórny e Lídia Tchárskaia, “a favorita das russinhas do início do século 20, que, por anos, tudo o que publicava virava best-seller”, como escreve Daniela Mountian na introdução do volume. De Catarina II a Daniil Kharms – que fecha a coletânea com uma viagem fantástica ao Brasil -, o livro percorre praticamente 150 anos de literatura russa para as crianças. Todos os contos são ilustrados com desenhos de Fido Nesti.

Poemas representativos de um característico estilo poético do Japão feudal: o renga. Além de ser uma poesia encadeada – como as sequências de trovadores e repentistas -, o renga caracteriza-se pela codificação de regras para o jogo criativo que o aproxima do esporte. Antes visto como um passatempo, o renga ganhou prestígio durante a regência de Nijô Yoshimoto (1320–1388), que organizou a primeira coletânea de poemas encadeados “sérios” em 1356. A presente coletânea data de 1488, e corresponde ao segundo momento de evolução do renga, quando o estilo já estava bem estabelecido e passara a ser considerado uma arte nobre. Sôgi, Shôhaku e Sôchô, que compõem essa coletânea, tornaram-se os maiores representantes do estilo, sendo estudados em escolas e formando o cânone literário japonês.

Uma das mais inventivas escritoras portuguesas do século 20, Maria Gabriela Llansol compôs esse livro no início dos anos 1970 com crianças da Escola da Rua de Namur, na Bélgica. Originalmente escrito em francês, a obra permaneceu inédita até 2019, quando foi publicada em Portugal. A edição brasileira conta com tradução do poeta Marcos Siscar, traz a versão original dos poemas em francês, alguns desenhos das crianças com as quais Llansol trabalhou e um posfácio de Augusto Joaquim, colaborador da escola e marido da escritora. São poemas lúdicos que, com a reinvenção textual que caracterizou a produção de Llansol, abordam o universo das crianças e sua interação com o texto, a palavra e o desenho.

Romance sobre Aurora, uma senhora septuagenária perdida à beira da estrada, sem lembranças e procurando uma certa Camila. Em seu fluxo de memórias fragmentadas, revisita cenas de sua infância (o título do romance, inclusive, faz referência a uma dessas cenas, quando Aurora, em sua infância, rezava “agora é a hora da nossa morte amém”) e sua mocidade, procurando por Camila nos fios da memória. Ao mesmo tempo que ela parece ser uma amiga de infância, pode também ser uma filha morta, que ela, em verdade, nem tem certeza de ter tido. Como escreve Tati Bernardi, “aqui a morte é temida, repetida, imaginada, exagerada, esmiuçada e listada de tantas formas que é quase possível rir dela ou – eu acredito que Mariana tenha conseguido esse feito – vencê-la”.


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