A potência da crueldade: A origem inexplorada

A potência da crueldade: A origem inexplorada
Cena do filme Salò ou os 120 dias de Sodoma (1975), de Pier Paolo Pasolini
  O debate sobre a crueldade não emerge diretamente da psicanálise, tampouco figurava entre as preocupações inaugurais de Sigmund Freud. No entanto, é inegável que, após o advento da psicanálise, essa noção jamais voltou a ocupar o mesmo lugar no pensamento ocidental. Por sua relevância no cenário atual – marcado pelo dilaceramento do humano, por guerras, pela ânsia desenfreada de poder e pela devastação dos recursos vitais do mundo –, propomos retomar a reflexão freudiana sobre a crueldade, na tentativa de dela extrair alguma lição. Longe de reconstituirmos toda a trajetória psicanalítica da crueldade, vamos nos concentrar em uma de suas faces menos exploradas – e talvez ainda pouco reconhecidas: a da crueldade em sua forma não sexual. Uma dimensão que não se confunde com a pulsão de morte e que remete à esquecida pulsão de apoderamento, verdadeiro ponto cego da teoria e da clínica. Relembremos que Freud emprega, a princípio, o termo Grausamkeit (crueldade) em A interpretação dos sonhos, obra inaugural, para descrever a tendência humana a infligir dor presente em determinados conteúdos oníricos. Na mesma obra, Freud menciona a crueldade no mito da Titanomaquia, que narra o combate de Zeus contra Cronos, seu pai, em uma luta pela sobrevivência. Para não ser extinto, Zeus precisa destroná-lo. Esse episódio mítico já carrega um indício daquilo que Freud, mais tarde, reconheceria como uma crueldade independente da sexualidade originária, já que participa diretamente das origens da formação da subjetividade e

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