Políticas da exceção: entre colonialidade e desejo de tutela
Este ensaio parte de um gesto que, à primeira vista, pareceria só mais um episódio da polarização política brasileira: a celebração, por alguns setores bolsonaristas, das sanções simbólicas promovidas por Donald Trump contra figuras centrais do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes. No entanto, o que proponho é que esse gesto não se reduz à esfera do dissenso jurídico ou da fidelidade ideológica. O que está em jogo é um sistema mais profundo de afetos, imagens e fantasmas – uma economia psíquico-política regida por arquétipos de autoridade, ritos de submissão e desejos coloniais.
O bolsonarismo, longe de se reduzir a um projeto político, em certos segmentos mais simbólica e afetivamente engajados, configura-se também, ou principalmente, como forma de subjetivação coletiva, atualiza estruturas de dependência simbólica ao investir sua libido política em figuras estrangeiras que operam como pais substitutos: soberanos imaginários investidos do poder de nomear, punir e purificar. Movimento no qual a cura do “mal interno” é delegada à potência transcendente do Outro imperial.
Esta análise acompanha o movimento desse desejo: da idealização de Trump como Pai da exceção à deslegitimação das instituições nacionais; da recusa do limite jurídico à exaltação de uma verdade revelada e viril; da mimese ressentida do modelo norte-americano à rendição voluntária de soberania em nome de uma filiação imaginária. O que se configura, no fundo, é uma política da tutelagem, alimentada por uma colonialidade afetiva que converte subalternidade em vocação e dependência em destino.
As análises que se seguem concentram-se em certos núcleos discursivos e afetivos particularmente expressivos dentro do campo bolsonarista. Trata-se de um recorte interpretativo que não pretende esgotar a complexidade do fenômeno, nem ignorar sua diversidade interna, mas sim evidenciar dinâmicas simbólicas que emergem com especial intensidade em segmentos específicos e práticas discursivas.
Este ensaio se divide em duas partes que se atravessam: a primeira, Políticas da exceção: entre colonialidade e desejo de tutela, analisa como setores do bolsonarismo projetam sua economia de afetos políticos em figuras de autoridade estrangeiras – Donald Trump como arquétipo –, articulando fantasias de tutela e estruturas de obediência; o segundo, Do Pai soberano ao Pai estrangeiro: política da exceção e colonialidade afetiva, desloca essa análise para o campo mais amplo da idealização dos Estados Unidos como centro moral do mundo e da persistência de uma subjetividade nacional que se reconhece a partir de fora, cultivando como virtude a própria dependência simbólica e a vocação para o autoapagamento.
O pai da exceção: desejo autoritário e fantasmas da tutela
A exultação, por segmentos bolsonaristas, das punições impostas por Donald Trump a membros do Supremo Tribunal Federal – notadamente Alexandre de Moraes – não pode ser adequadamente compreendida nos termos habituais do debate jurídico ou da querela ideológica. O que se desenha, antes de tudo, é a manifestação de um regime de desejo e de subjetivação cujas raízes ultrapassam a superfície política: uma estrutura simbólica que revela a persistência de um pensamento marcado por ambivalência frente à figura da autoridade.
A celebração vai além do gesto punitivo de um presidente estrangeiro: configura a reinstauração imaginária de uma ordem vertical, encarnada na figura do Pai soberano – simultaneamente protetor e persecutório. Ao apoiar a intervenção de um poder alheio contra o próprio corpo jurídico nacional, esses grupos atualizam um afeto colonial profundo: o desejo de submeter-se à exterioridade para validar a própria interioridade. O que está em jogo não é uma mera adesão ideológica, mas a dramatização de uma carência: a demanda por um Outro que autorize o real, mesmo (ou sobretudo) quando o real é o próprio arbítrio. É a política na qual a suposta “cura do mal que vem de dentro” é buscada na “potência do mal que vem de fora”.
A figura do Pai autoritário – esse operador arquetípico de transcendência hierárquica – habita o inconsciente político moderno como um feitiço de ordem: uma máquina simbólica de estabilização do mundo em colapso. Como entreviram, cada um à sua maneira, Fromm e Nietzsche, essa figura espectral ressurge sempre que a liberdade excede o limiar do suportável.
Em O medo à liberdade, Fromm já delineava com precisão esse vetor regressivo da subjetividade moderna: a pulsão por tutela, pela abdicação voluntária de autonomia, em nome de uma segurança que é tanto imaginária quanto coercitiva. Mas o ponto crucial, e talvez mais perturbador, é que o autoritarismo seduz menos pelo que interdita do que pelo que promete: a suspensão provisória do abismo existencial que a liberdade abre sob nossos pés. A obediência, nesse sentido, não é renúncia: é rito. Um pacto simbiótico com a figura daquele que nomeia, ordena e enquadra, ainda que à custa da própria diferença. O Pai, nesse regime simbólico, vai além da repressão: reconcilia o sujeito com a perda da potência, oferecendo, em troca, o alívio da incerteza. É aquele que cura não pela dispersão do ego, mas pela sua captura. A autoridade é o espelho invertido da autonomia; e a liberdade, paradoxalmente, só se torna suportável quando alienada a um Outro que a governe.
Donald Trump, nesse teatro simbólico, opera como figura totêmica de um Pai idealizado: não o pai da lei, mas o pai da exceção cuja autoridade não emana da norma, mas do carisma da transgressão. Para certos setores do bolsonarismo, ele encarna a promessa de uma violência autorizada, uma proteção viril e imune à burocracia do direito – o guardião de um ethos que se ancora não no contrato, mas na exclusão como princípio organizador da ordem.
Ao mirar figuras como Alexandre de Moraes, Trump assume mais do que a posição de um agente político externo: encarna o “Outro absoluto”, aquele que intervém como juiz mítico, realizando um gesto punitivo que não se ancora na legalidade institucional, mas em uma justiça supostamente superior – visceral, moralista.
A acolhida entusiástica dessas sanções por parte de certo campo bolsonarista pode ser lida como um gesto de identificação transnacional e afetiva, no qual o líder estrangeiro é convocado a performar a vingança simbólica contra o Pai doméstico, percebido como traidor, castrador, agente da repressão tecnocrática. Trump aparece, também, como o Pai fora do lugar – o estrangeiro que valida ressentimentos locais, o demiurgo que autoriza a inversão da autoridade interna em nome de uma fidelidade superior: não à lei, mas à vontade de potência travestida de povo.
É uma mitopolítica do ressentimento, em que o desejo de submissão se inverte em desejo de revanche, e onde a legitimidade se desloca do institucional para o espectral, do nacional para o imperial.
Investido da autoridade do Supremo Tribunal Federal, Moraes torna-se a epítome da norma estatal: a encarnação do Estado de Direito em sua versão menos palatável – lenta, abstrata, processual, desprovida do apelo erótico da ação direta. Seu poder se exerce pela contenção, não pela exibição; pela codificação, não pela performance. O afeto que se dirige a ele – e que transborda em forma de ódio – não se reduz a decisões políticas pontuais; expressa, em nível mais profundo, uma estrutura afetiva moldada pela recusa do limite. Em um campo subjetivo no qual a autoridade só é legítima se for confundida com potência imediata, Moraes figura como aquele que retém, que nega o gozo de punir, que impede o curto-circuito entre desejo e execução. Nesse jogo de espelhos mitopolíticos, ele representa o Anti-Trump: o sacerdote do legalismo frente ao guerreiro da exceção. E é justamente por isso que se torna alvo da fantasia punitiva: porque se recusa a participar dela. Ele devolve o desejo de domínio à sua origem recalcada – como quem diz: não será hoje, nem será assim.
Filosoficamente, o fenômeno se deixa iluminar (ou talvez incendiar) pela crítica nietzschiana à obediência como forma superior de ressentimento: uma fraqueza que se disfarça de fidelidade, uma covardia sublimada em virtude moral. Em Além do bem e do mal, Nietzsche rasga o véu da moral de rebanho ao revelar o mecanismo psíquico por trás da delegação do pensamento: o desejo de ser absolvido da angústia da escolha, da vertigem da liberdade, do risco de errar por conta própria.
A figura do líder autoritário – sobretudo quando investido de uma aura extranacional, como no caso de Trump – funciona como avatar desse desejo de absolvição: é o outro que pensa por mim, que decide por mim, que pune em meu nome e, assim, me livra da fadiga da responsabilidade. Opera-se aí um dispositivo de transferência libidinal: a autoridade do estrangeiro é erotizada como compensação à orfandade subjetiva produzida pela renúncia à autodeterminação.
Nessa acepção, o entusiasmo com que alguns setores bolsonaristas acolhem gestos autoritários externos não é simples provincianismo ideológico – é uma expressão sofisticada de um afeto, um investimento libidinal em figuras que se apresentam como portadoras de uma verdade que não precisa ser discutida, apenas repetida.
O que se revela, em última instância, é uma lógica de compensação simbólica, ou, talvez, de transfiguração da autoridade. Diante da ausência, ou do colapso simbólico, de uma figura paterna nacional suficientemente forte – não por insuficiência política concreta, mas por não corresponder ao arquétipo imaginado de autoridade soberana e punitiva que esses afetos demandam – os afetos coletivos migram em direção ao exterior, em busca de um modelo que possa restituir a imagem perdida do Pai potente, aquele que nomeia, separa e pune com a segurança de um mito fundador.
Esse deslocamento, que é ao mesmo tempo estratégico e inconsciente, opera como gesto restaurador: ao investir libidinalmente em um líder estrangeiro, reafirma-se um ideal de autoridade previamente internalizado, mas frustrado em sua realização local. A alteridade externa é, então, convocada para preencher a falha interna – como se fosse preciso um estrangeiro para legitimar o que já se crê, mas não se consegue fazer valer por conta própria. Com isso, consolida-se a fantasia de pertença a uma comunidade moral superior: um “nós” redentor, virtuoso e essencializado, em perpétua guerra contra um “eles” degradado, corrupto e profanador. O que se institui é uma política dicotômica, na qual o mundo se reparte entre os ungidos pela verdade e os corrompidos pela queda – uma guerra endêmica cujo fim não é a paz, mas a eliminação do impuro. Nesse espelho deformante, o Pai externo já não corrige, mas usurpa o lugar do Pai interno. E o que se apresenta como política revela-se, em sua raiz mais funda, como teodiceia secularizada: uma busca por sentido por meio da destruição do outro.
O fenômeno que se desenha, então, pode ser lido como expressão localizada de um movimento mais amplo: uma regressão autoritária que atravessa o corpo social como retorno do recalcado – o desejo de ordem absoluta diante da vertigem democrática. A democracia, com sua indecidibilidade constitutiva, sua exigência de negociação interminável, seu pacto com a incerteza, passa a figurar não como conquista civilizatória, mas como fardo insuportável.
É nesse cenário que o Pai autoritário retorna, não como anacronismo, mas como necessidade: uma solução psíquica e cultural para a ansiedade coletiva diante da multiplicidade. Ele encarna a promessa de simplificação do mundo – um corte ontológico que separa o certo do errado, o amigo do inimigo, a verdade do erro – sem mediação, sem processo, sem dúvida.
A celebração da punição do “inimigo interno” por um “Pai externo” é, nesse contexto, mais que uma performance política: é um exorcismo simbólico. Mas esse exorcismo não é expressão de força, é confissão de fragilidade. Ele revela a dificuldade crônica de uma parte da sociedade em sustentar a tensão radical entre liberdade e segurança, entre autonomia e obediência, entre o desejo de ser e o medo de decidir.
A festa, assim, não é só por aquilo que se ganha, mas por aquilo de que se é aliviado: o peso da responsabilidade. E a política transforma-se, mais uma vez, em encenação – não do futuro, mas da restauração impossível de um passado que nunca existiu senão como fantasia compensatória.
Mas essa cena não se esgota na economia do desejo por autoridade: ela precisa ser situada dentro de uma topologia afetiva mais ampla, onde o lugar do Pai é ocupado não apenas pelo soberano, mas pelo estrangeiro – e é nessa inversão que emerge o traço mais agudo da colonialidade afetiva que atravessa o fenômeno. Assim, em um segundo momento, veremos como esse desejo de tutela se desloca para a figura de um Pai estrangeiro, condensando a lógica da colonialidade afetiva.
Pedro Paulo Gomes Pereira é professor titular de Antropologia da Universidade Federal de São Paulo





