Política da Escuta – Voz, protagonismo e disputa política

Política da Escuta – Voz, protagonismo e disputa política

Aos intelectuais homens e brancos, inclusive aos amigos queridos

Desde que se trata de democracia a disputa pelo poder sempre foi disputa pelo discurso. Todo regime de poder usa a linguagem conforme suas necessidades de automanutenção. Fácil reconhecer o autoritário que impõe ideias – e regras – por meio de discursos. Fácil associar democracia e diálogo.

Mas a democracia formal pode servir de máscara para autoritarismo. Na disputa pelo discurso, a palavra democracia pega bem sempre. A palavra diálogo a ela associada também. Foi o que fez o governador do Estado de São Paulo, dias atrás. Quando percebeu que os cassetetes e as bombas de gás, bem como os corpos brutalizados dos policiais imitando capitães do mato, não podiam com o corpo político dos estudantes que ocupam pacífica e organizadamente as escolas, cheios de um desejo de democracia concreta (a única que pode mudar as nossas vidas), o governador cedeu e pronunciou a palavra mágica “diálogo”. Os estudantes prometem não ceder enquanto suas escolas não forem protegidas das intervenções autoritárias do Estado que vende, a partir do discurso publicitário que usa, no desespero, palavras como “diálogo, a ideia de que fechar escolas é o melhor para a educação de seus jovens cidadãos.

O poder faz o que quer com as palavras.

Voz

A construção do espaço político sempre dependeu da voz. Sabemos que a voz é materialidade política, não apenas metáfora. Sabemos que palavras são atos e que pagaremos pelo que dizemos.

Sabemos também que a voz se une a outras vozes e pode tanto administrar silêncios, docilizar línguas que facilmente se calam ou passam a repetir o que convém, mas pode também produzir mudanças contra o poder.

O poder por sua vez, na forma como o produzimos e somos produzidos por ele, depende de “personas” pela qual soam as vozes. Não há igreja sem sacerdote, não há teatro sem ator. Aquilo que chamamos de “elite” tem seu sacerdote/ator. Toda persona é máscara e no contexto das lutas, o fingimento está na raiz das regras do jogo. Honesto seria quem fosse capaz de assumir a sua máscara, o que se está a representar.

Ainda que a honestidade não valha nada em termos de política real, podemos utilizá-la para salvar o espírito da democracia concreta com os mais próximos, com os outros em geral. Quem sabe isso possa invadir a política institucional. Digamos que a honestidade possa ser uma base ética a partir da qual construir a política.

Não me refiro aqui à honestidade no sentido moralista, como uma qualidade subjetiva no sentido essencial ou substancial. Vamos sair as substâncias Gostaria de pensar a honestidade como “auto-reconhecimento” prático do lugar próprio de fala e do que se “pode” com ele.

Quero dizer com isso: aquele que pode falar, pode falar para quem? E o que significa esse poder falar?

Hegemonia da fala x hegemonia da escuta: quem pode falar na luta contra os preconceitos?

Luta-se pela hegemonia da fala e pela hegemonia da escuta no campo do poder. Problematizando a escuta, vê-se perturbada a hegemonia da fala.

Em nossa época, grupos de ativistas parecem ter percebido a questão da hegemonia da escuta. No fato de não quererem escutar docilmente os que falam, eles propõem muitas questões políticas.

Acontece que, em um contexto democrático pressupõe-se que todos podem falar. De fato, isso não é verdade, pois os caminhos da fala, bem como os da produção de discursos e os meios de comunicação, pertencem às elites econômicas que vivem no contexto dos privilégios de raça, gênero, sexualidade e classe social. Fora do sistema dos privilégios a expressão é contida, digamos que econômica e politicamente administrada.

O espaço da voz é hegemonicamente do homem branco situado no topo do sistema social de privilégios. Ele representa o capital sexual (heterossexualidade), o capital financeiro, o capital social e intelectual, por fim, o capital comunicacional. Usemos, a propósito, essa categoria “homem branco” como metáfora política para podermos avançar nessa reflexão.

Os que se revoltam com a voz – que pode ser elegante e generosa – do homem branco falante se revoltam não contra sua pessoa – anatomopolítica, que assim foi forjada pelo poder – em particular, mas contra a ordem do discurso que ele representa. Por meio dessa ordem se afirma que o homem branco pode falar sobre todos os assuntos. Afinal ele é o histórico sujeito da fala (e da fala falogocêntrica para quem quiser se entender com essa expressão).

O homem branco perplexo

Quem ousa contestar isso pode parecer, ao contrário, autoritário, sobretudo se o homem branco estiver do lado dos ativistas. O homem branco – quando está do lado dos ativistas – fica perplexo em ter sido mal recebido em suas falas. Mas ele precisa entender de certas questões políticas para superar sua ofensa. Essa ofensa, precisa ser transmutada no cuidado que o homem branco do lado dos ativistas, ou ele mesmo sendo ativista, precisa ter com o que diz e como diz por representar o que representa em sua cor, roupas e posições. Assumir esse lugar e tomar cuidado em desconstrui-lo tem muito valor para a sua participação na luta contra os privilégios.

Mas estamos em uma época em que os que estão em outros lugares, às vezes, os mais distantes dos privilégios e dos direitos, descobriram o jogo do poder pela fala. Pessoas marcadas por atos de fala hegemônicos como dominadas ou subalternas – todos as excluídas – em relação ao sistema dos privilégios descobriram que podem falar por si mesmas. Tornaram-se ativistas por meio dessa expressão de si. Descobriram a forma da protagonização pela ação discursiva que parte de seu próprio lugar. A mesma que o “homem branco” sempre usou. Agora, tanto podem ocupar o lugar do homem branco, quanto podem prescindir dele.

Verdade que o homem branco que fala em nome de outros ativistas, esse homem branco que é solidário e que está perplexo, tem todo o direito de ser solidário e de estar perplexo. E é melhor que ele seja solidário e que fique perplexo. Sua solidariedade é respeitável. Sua perplexidade é que soa engraçada. Sua solidariedade é boa, é estratégica, ninguém há de negar. Mas o que o homem branco não sabe quando se ofende com o estranhamento e o rechaço da sua conversa em favor dos outros ativistas é que ele mesmo continua querendo falar para quem não está precisando mais de sua fala. Então, ele tem que tomar cuidado com sua fala tendo em vista que o que ele fala vem de um “lugar de fala”. Ele agora também tem que assumir que foi marcado.

Mas notem que estou falando de lutas e de ativismos. Há uma quantidade imensa de pessoas fora das lutas e dos , pessoas que vem sendo massacradas. E nessa hora os homens brancos que falam contra as matanças são parte importante na luta contra as injustiças e por direitos concretos.

O homem branco a ser superado

Isso tudo porque há uma mudança política em curso: as pessoas descobriram o “meio de produção de protagonismo”. A luta pelo discurso é luta por protagonismo. E todos se revoltam contra o antigo uso dos meios na mão do que estamos chamando aqui de homem branco. Se o homem branco, neste momento perplexo por ter sido criticado na sua expressão sempre pronta a ajudar, não descobrir isso ele pode se tornar também ridículo.

O que fazer, então, com essa figura do homem branco? Ele pode ser útil na luta mesmo enquanto continua sendo sujeito de privilégios. Ele sempre pode ajudar a desmontar os privilégios. De um lado, ele pode começar a falar com os seus pares homens brancos convencendo-os, didaticamente, de que um outro mundo é melhor (o que não vai ser fácil e toda a luta socialista tem a ver com isso). Ele não precisa falar pelos homens negros, nem pelas mulheres, nem pelas mulheres negras, nem pelos indígenas ou quilombolas, porque essas pessoas descobriram por meio da luta que elas podem falar por si mesmas.

As pessoas que tentam mudar isso não estão interrompendo o diálogo, elas apenas estão protagonizando a si mesmas a partir de seus jogos discursivos.

Jake e Dinos Chapman, pintura da série Um dia você não vai mais ser amado. 2008

Escutar

O homem branco que sabe escrever e que – sendo também sujeito do privilégio estético por ser portador do ideal eurocêntrico e opressor da beleza, esses que “chegam chegando” por serem bonitinhos e simpáticos, não sabem na pele o que é a opressão por gênero, raça e classe social.

Nessa hora, escutar é preciso. Mas a escuta do homem branco é até uma inversão, um “desvio” de conduta. Pois ele não foi feito para isso. Ele não sabe se colocar no seu lugar porque não havia uma “lugar” para ele já que todos os lugares eram, em um regime feito para ele, de antemão, seus. (O feminismo das brancas também precisa aprender isso, mas isso é tema para outro artigo.)

Talvez isso mude tudo e possa produzir um novo elemento prático no processo político.

Na ordem do discurso, sabemos que não se trata apenas de “quem pode falar?”, mas do fato de que quem fala, fala para alguém. E que alguém não é obrigado a escutar desde que percebeu que a hegemonia da escuta é um campo de forças dentro do qual se pode romper com o poder.

O homem branco pode ser o dono da verdade, ele foi mimado pelo poder que inclui a verdade-bondade-beleza-heterosexualidade compulsória. Ainda que o microfone seja seu e ele possa assinar os mais espertos artigos em grandes jornais, ele precisa aprender a política da escuta que não se ensina em universidade alguma.

Aprendendo essa política ele pode até começar seu processo para deixar de ser um estereótipo do homem branco.

O homem branco intelectual de esquerda pode realmente fazer um favor. O favor didático, desde o lugar que ocupa, de ajudar a produzir uma política da escuta.

Para que essa política seja possível, ele pode escutar.

O poder não gosta de escutar. O desafio está posto.

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