Três mulheres em uma operária

Três mulheres em uma operária A atriz Magali Biff em cena do filme 'Pela janela', de Caroline Leone (Dezenove e som/Divulgação)

 

Quando o cinema mudo já havia perdido a batalha para o cinema falado, Norma Desmond (Gloria Swanson), a protagonista de Billy Wilder que simbolizava a decadência dos filmes mudos, disse a Joe Gillis (William Holden), que as atrizes já não sabiam atuar. Para ela, a geração dos filmes falados, ao contrário da sua, não era capaz de se expressar com o rosto. “Talvez uma: Garbo.” Se estivesse viva, a atriz-personagem de Billy Wilder em Sunset Boulevard (1950), poderia acrescentar outra atriz em sua lista: Magali Biff, uma brasileira que fez sua carreira ao longo de 30 anos no teatro experimental de São Paulo e estreou como protagonista nos cinemas em 2018 no filme Pela janela.

Aos 65 anos, Magali aparenta menos idade. Tem os cabelos curtos, lisos e castanhos, queixo proeminente, boca fina e olhos grandes – que lembram os de Bette Davis, que concorreu com Swanson pelo Oscar de melhor atriz em 1951. De camisa rosa e calça jeans, sentada à mesa do café do Cine Sala Sabesp, Magali exultou diante da comparação – feita com receio por parte deste repórter. “Elas eram maravilhosas!” Como é, também, sua atuação no longa-metragem dirigido por Carolina Leone.

Enquanto no antigo cinema mudo as atrizes elevavam a expressão dramática ao limite, Magali vale-se de uma suave discrição para compor a jornada de sua heroína, Rosália, uma operária de 65 anos que, ao ser demitida, vê-se sem rumo. Preocupado com o estado emocional da irmã, Zé (Cacá Amaral), motorista, a leva consigo para uma curta viagem de carro para Buenos Aires. Nela, o despertar para o mundo da operária e dona de casa é construído em gestos e expressões simples, quase triviais, que permitem ao público conhecer o estado emocional e as transformações pelas quais passa a personagem. Como no poema da polonesa Wislawa Szymborska: “A verdade surge no fundo e o suave vem à tona.”

A composição de Rosália é a integração da realidade e da arte na jornada de Magali. Nascida em uma família classe média – “média mesmo”, frisa – no bairro da Mooca, em São Paulo, Magali encontrou em sua mãe, dona de casa, algumas das referências para a criação de sua personagem.

A atriz Magali Biff em cena do filme Pela janela, com direção de Caroline Leone (Foto Dezenove e som / Divulgação)
Magali Biff em cena do filme ‘Pela janela’, de Caroline Leone (Dezenove e som/Divulgação)

Como Rosália, a mãe de Magali levava uma vida resumida ao pequeno mundo que é (pode ser) uma casa de família para uma mulher que se dedica apenas a ela. Discreta, conformada, sua mãe ouvia rádio e lavava as roupas na mão, esfregando sabão em pedra sobre o tanque. “Eu tenho muito da Rosália também”, diz a atriz, de supetão, interrompendo a si mesma.

E o que poderia haver em comum entre uma operária e uma atriz formada pela Escola de Arte Dramática da USP no início dos anos 1980, que trabalhou com diretores como José Celso Martinez Correa, Gerald Thomas e Filipe Hirsch?

Como Rosália, Magali nunca foi casada. Não teve filhos. Não deixará “a ninguém o legado de nossa miséria.” Não bebe, não fuma. Só celebra com os amigos do palco na estreia e no encerramento de cada espetáculo. Vive para seu trabalho. É quieta, discreta e introspectiva. Passa a maior parte do tempo em casa, onde escuta música, navega pela internet e lê. “Gosto muito da Alice Munro”, conta.

A escritora canadense – também ela uma dona de casa dedicada à família – ganhou o prêmio Nobel em 2013 por sua contribuição a uma arte na qual poucos autores atingiram a genialidade: o conto. Nos livros que publicou, mulheres comuns, de universo restrito, têm a vida pacata transformada por um revés – trágico e preciso – que as marcará para sempre. Na obra de Munro não há esperança – quando muito resignação: a ordem da vida, depois da tragédia, jamais se recompõe no patamar de antes.

“Rosália poderia ser uma personagem da Munro”, digo a Magali, pelo fato de sua operária ser uma vida mulher comum que sofre um revés do destino. A atriz reflete. E concorda – mas coloca um porém: a classe social de sua personagem. As heroínas de Munro, lembra, costumam ser de classe média.

A atriz Magali Biff em cena do filme Pela janela, com direção de Caroline Leone (Foto Dezenove e som / Divulgação)
Magali Biff em cena do filme ‘Pela janela’, com direção de Caroline Leone (Dezenove e som/Divulgação)

As comparações entre Magali e Rosália – e entre Rosália e o universo de Munro – param por aí. Ao contrário da personagem, a atriz é pouco afeita à banalidade da vida. Quando está sem criar é como se estivesse sem viver – ou sem uma razão para viver. Como Clarice Lispector confessou, nesses hiatos da criação “a vida fica insuportável”.

Para compor a personagem, a atriz uniu a experiência material com a imaginação, em conversas e ensaios junto da diretora do filme. Trabalhou como operária em uma pequena fábrica em São Paulo, exercendo as mesmas funções de sua personagem, e criou a partir de referências e dados da diretora – não presentes (de maneira visível) na tela.

Instigada por Carolina a compor a primeira vez da personagem, Magali teve uma surpresa. Para ela, a operária que viveu a vida toda com a mãe e cuidou dela até a morte, era virgem. Mas não. Magali descobriu que não. Rosália teve uma única experiência sexual, com o único homem com quem se envolveu. “Um homem que a levou para conhecer a mãe.” Pergunto qual o destino desse amor que partiu, lembrando-me novamente das rupturas do universo de Munro. “Esse homem mudou. Nasceu em outro estado. Foi uma única vez.” Assim como a viagem de Rosália.


Danilo Thomaz é jornalista

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