Os “identitários” aprovaram o fim da 6×1
No dia 27 de maio de 2026, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6×1 foi aprovada na Câmara dos Deputados. Isso aconteceu depois de uma série de manobras do campo da direita para descaracterizar a proposta e, em última instância, inviabilizar sua aprovação.
Diante da popularidade da medida e com as eleições a um passo de distância, diversos atores políticos disputam protagonismo para se vincular a essa aprovação. A proposta original, contudo, foi apresentada em 2025 pela deputada Erika Hilton: uma PEC que alteraria a jornada de trabalho para uma escala 4×3, na qual os trabalhadores teriam, na semana, quatro dias de trabalho e três dias de folga. Essa proposta foi construída a partir do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), liderado por Rick Azevedo, vereador do Rio de Janeiro. O movimento VAT vem promovendo um debate público sobre o fim da 6×1 desde a sua fundação, em 2023, mas foi com a PEC 8/2025, protocolada pelo mandato de Erika Hilton na Câmara, que a discussão ganhou força e dimensão nacional.
Antes tarde do que nunca, o governo federal passou a encampar a campanha, que agora segue para o Senado para votação. Não se sabe ao certo se e quanto o fim da escala 6×1 será efetivamente implementada. Mas o fato é que a questão se tornou uma das pautas mais populares da classe trabalhadora nos últimos anos, alterando um aspecto basilar de sua vida: a jornada de trabalho. Segundo Erika, a aprovação na Câmara no dia de ontem foi a maior vitória da classe trabalhadora brasileira desde a Constituição de 1988.
Em um vídeo publicado em suas redes sociais logo após a aprovação da PEC na Câmara, Erika disse:
“Esta é a força das mulheres negras, da comunidade LGBT, da classe trabalhadora, de todo mundo que acredita que um Brasil melhor pode ser construído e só será construído através da luta […]. E para quem tentou tratar o nosso mandato, a nossa pauta, como nichada, como de gueto, também vai ter que dormir com isso. Nós estamos mudando a constituição brasileira para entregar às mães, aos pais, aos filhos, aos irmãos, às famílias brasileiras dignidade e tempo de descanso. […] Fomos nós, os dos andares de baixo, fomos nós, os que foram tratados como identitários, somos nós que sentimos a dor da desigualdade, da injustiça social, das perversidades de um sistema opressor, que vamos lá e colocamos a boca no trombone e defendemos os direitos e a dignidade do povo. Porque a gente pode ser mulher, pode ser preta, pode ser travesti, pode ser viado, pode ser o que for, mas a gente nunca pensa a sociedade somente para nós. A gente pensa uma política e um mundo que seja bom para todo mundo, porque a gente sabe o quanto ele não é bom para nós. E as nossas dores e a desigualdades que atingem nosso corpo faz com que a gente tenha a capacidade de pensar fora da caixa, de pensar na dor do outro. Então hoje é uma noite de vitória da classe trabalhadora, mas é uma vitória que foi protagonizada por uma travesti preta, por uma bicha negra. Fomos nós, que fomos tratados como quem diminui o debate da esquerda, que levamos a diante uma mudança na constituição. E que não somos só nós que seremos beneficiados, são milhões de pessoas nesse Brasil inteiro.”
Essa fala de Erika tem muitas camadas interessantes e toca num ponto central: a falsa dicotomia entre os “identitários”, termo que tem sido utilizado para nomear grupos que se organizam a partir da pauta de gênero, raça e sexualidade, e a classe trabalhadora brasileira. As duas grandes faces públicas do fim da escala 6×1, Erika Hilton e Rick Azevedo, estão dentre estes “acusados” de “identitários”, como lembra Erika. Ambos são negros, ela é uma mulher travesti e ele um homem gay. Ambos são militantes das causas LGBTQIA+, antirracistas e dos direitos das mulheres, e ambos representam uma demanda política de mudança na jornada de trabalho, pauta digna dos sindicatos históricos mais tradicionais. Será isso uma impressionante contradição? Ou será que há algo mais complexo por trás do rótulo de “identitários”?
A resposta a essa questão também está contida na fala de Erika, que evoca a tradição do feminismo negro revolucionário, expresso em textos históricos como o Manifesto do Coletivo Combahee River, e nas obras de autoras como bell hooks e Lélia Gonzalez. Essa tradição de pensamento não cai na armadilha ideóligica que separa “identitários” de classe trabalhadora, mas, ao contrário, entende que a classe trabalhadora é generificada, diferentemente racializada, tem diferentes formas de sexualidade, vem de diferentes geografias. Nos últimos anos, a vertente marxista do feminismo da reprodução social tem produzido importantes reflexões no mesmo sentido. Retormar o acúmulo histórico do pensamento radical negro e do feminismo marxista antirracista é um passo na direção da superação dessa armadilha em que temos caído de forma cíclica.
Captura da identidade x Política de identidade
Intelectuais negros como Stuart Hall e Kabengele Munanga têm refletido sobre a mobilização política da identidade, em particular a racial, pelo grupos subalternizados contra as múltiplas formas de opressão de que são vítimas. Pensando a partir da discussão sobre raça e os perigos do essencialismo, Stuart Hall propõe que a identidade deve ser tratada em termos da “utilização dos recursos da história, da linguagem e da cultura para a produção não daquilo que nós somos, mas daquilo no qual nos tornamos”, tendo a ver muito mais com “‘como nós temos sido representados’ e ‘como essa representação afeta a forma como nós podemos representar a nós próprios’”.[1]
Representação aqui não indica apenas a imagem que se faz de alguém ou de determinado grupo, mas também evoca a noção de luta política. Munanga, em sentido semelhante, defende que a raça não é uma realidade biológica, mas social, podendo ser mobilizada enquanto ferramenta de organização política contra o racismo.[2]
Mobilizar politicamente a noção de identidade não é novidade, assim como não são novos os discursos que procuram deslegitimar essa estratégia. As acusações contra a política de identidade têm vindo tanto do campo da direita, que abertamente defende a supremacia do homem branco heterossexual, quanto do campo da esquerda, quando se aponta para o “identitarismo” como a causa da divisão da unidade da luta da classe trabalhadora em nome de pautas específicas e, portanto, segregadoras. Embora esses movimentos não sejam novos, nos últimos anos os ataques a determinados grupos sociais minorizados, com destaque para pessoas trans, têm aliado uma determinada “esquerda” à extrema direita, num quadro desolador para aqueles que enxergam na política de solidariedade e coalizão o caminho para a superação das desigualdades sociais.
Defender a mobilização das identidades como estratégia política não significa, contudo, fechar os olhos para a existência real daquilo que Olúfẹ́mi O. Táíwò chama de “captura pelas elites da política de identidade”. [3] Uma das expressões dessa captura pode ser vista na representatividade vazia do multiculturalismo neoliberal, no qual múltiplas experiências podem coexistir sem que se considerem as hierarquias e antagonismos estruturais que as configuram. Segundo a intelectual marxista Himani Bannerji, essa perspectiva equaliza atuação política e liberdade cultural/de expressão, “o que frequentemente […] significa que, contanto que uma mulher branca (de classe média) não fale por mim, mas me dê um tempo igual de fala (já que ela controla o espaço antes da minha chegada) tudo está bem”.[4]
Para combater a captura neoliberal das questões ditas “identitárias”, é fundamental recuperar o sentido radical da política de identidade. Para tanto, é preciso que nos afastemos da compreensão de “identidade” como um conjunto de características descritivas, aproximando-nos das relações sociais que constituem essas “identidades”, os sujeitos sociais e a própria realidade em que vivemos.
O conceito de “política de identidade”, em sua origem, pretendia justamente fazer essa operação: compreender racismo, sexismo, heterossexismo como sistemas interligados que produziam opressões cuja síntese cria as condições em que vivemos. Essa proposta foi desenvolvida pelo Coletivo Combahee River, um coletivo de feministas negras lésbicas dos Estados Unidos que publicaram um manifesto em 1977, caracterizado frequentemente como um marco do pensamento interseccional – muito antes da própria formulação do conceito por Kimberlé Crenshaw. Política de identidade, na tradição do feminismo negro, nada tem a ver com dividir a luta da classe trabalhadora em nome de pautas específicas. Pelo contrário, mobiliza solidariedade e coalizão:
“Percebemos que a libertação de todos os povos oprimidos exige a destruição dos sistemas político-econômicos capitalistas e imperialistas, bem como do patriarcado. Somos socialistas por acreditarmos que o trabalho deve ser organizado para o benefício coletivo daqueles que trabalham e criam os produtos, e não para o lucro dos patrões. Os recursos materiais devem ser igualmente distribuídos entre aqueles que os criam. Não estamos convencidas, contudo, de que uma revolução socialista que também não seja uma revolução feminista e antirracista garantirá nossa libertação”. [5]
O manifesto do Coletivo Combahee River defende uma concepção da realidade social como uma totalidade contraditória, composta por relações capitalistas, imperialistas, racistas e heterossexistas. Isso significa, portanto, compreender que a classe trabalhadora é atravessada por essas relações e extremamente diversa, devendo, portanto, a luta revolucionária dessa classe necessariamente ser uma luta contra todos os tipos de opressão e exploração. Colocar “classe trabalhadora” de um lado e “identidades” ou “identitários” de outro significa não apenas apagar a diversidade da classe, mas deixar vencer uma concepção de classe trabalhadora formada exclusivamente por homens, brancos e heterossexuais – uma concepção idealista e irreal.
Na política de identidade do feminismo negro, identidade não tem a ver com representatividade ou lugar de fala, mas sim com experiência e ação política. A ideia de experiência aqui vem no sentido de que as opressões interligadas vividas pelas mulheres negras podem ser mobilizadas para sua organização política. É o que bell hooks explica a seguir:
“As mulheres negras, sem um “outro” institucionalizado a quem discriminar, explorar ou oprimir, passaram, muitas vezes, por experiências que desafiam diretamente a estrutura social classista, sexista e racista predominante e a sua ideologia concomitante. Esta experiência pode moldar de tal forma a nossa consciência que a visão que temos do mundo difere da daqueles que tiveram algum tipo de privilégio (por mais relativo que possa ser dentro do sistema existente). É essencial para a contínua luta feminista que as mulheres negras reconheçam a posição estratégica especial que a nossa marginalidade nos oferece e utilizem esta perspectiva para criticar a hegemonia racista, classista e sexista dominante, bem como para idealizar e criar uma hegemonia opositora”.[6]
A fala de Erika Hilton após a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara ecoa a política de identidade no sentido mais radical formulado pelo feminismo negro. Mulheres negras, homens negros gays, travestis não são sujeitos identitários externos da classe trabalhadora. Pelo contrário, se a classe trabalhadora tivesse um rosto, a chance de se parecer com o de Rick ou de Erika é muito grande.
A tradição do feminismo negro nos mostra que identidade não tem a ver com sectarismo ou divisão. Ao contrário, a política de identidade aqui é uma perspectiva de transformação social que se pauta pela experiência vivida como meio de construção de consciência e ação políticas. A política de identidade, assim, tem pretensões radicais e transformadoras – e, nesse sentido, aqueles que se beneficiam do capitalismo racista, heterossexista e imperialista em que vivemos têm, de fato, bons motivos para se opor a ela. A classe trabalhadora – nós – não.
Bárbara Araújo Machado é professora do CAp-UERJ e do PPGHS-UERJ e doutora em História pela UFF. Feminista antirracista e anticapitalista, pesquisa feminismo negro, teoria social e ensino de história. É autora de Política de Identidade: Gênero, raça, classe, sexualidade e a formação do movimento de mulheres negras no Brasil (Dandara Editora, 2024).
* Algumas das reflexões presentes nesse texto estão desenvolvidas no texto “Política de identidade e a luta pelo Bem Viver no movimento de mulheres negras”, parte do livro Luta antirracista e perspectiva democrática no ensino de história, organizado por Géssica Guimarães, Daniel Pinha e Francisco Oliveira, no prelo.
[1] HALL, Stuart, Quem precisa de identidade?, in: SILVA, Tomaz Tadeu (Org.), Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais, Petrópolis: Vozes, 2009, p. 109.
[2] MUNANGA, Kabengele, Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia, Cadernos PENESB, n. 5, p. 15–34, 2000.
[3] TÁÍWÒ, Olúfémi O., Captura: Como a elite sequestrou as políticas de identidade, Rio de Janeiro: Zahar, 2025.
[4] BANNERJI, Himani, Thinking through: essays on feminism, Marxism and anti-racism, Toronto: Women’s Press, 1995, p. 71.
[5] COLETIVO COMBAHEE RIVER, Manifesto do Coletivo Combahee River, PLURAL – Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, v. 26, n. 1, p. 197–207, 2019, p. 201.
[6] HOOKS, bell, Teoria feminista: Da margem ao centro, São Paulo: Perspectiva, 2019.





