O que está adoecendo você realmente é o capitalismo

O que está adoecendo você realmente é o capitalismo

 

Estamos em uma sociedade que, no horizonte da história humana, talvez seja a mais obcecada pela saúde. A ideia de bem-estar domina o discurso contemporâneo: orientações políticas, pedagógicas e preventivas são reiteradas diariamente nas mídias e redes sociais. Não por acaso, uma indústria multibilionária se alimenta dos anseios — e da ansiedade — por uma vida mais saudável, transformando o cuidado em mercadoria e enxergando nele apenas cifras que elevam seu faturamento.

Com a saúde convertida em obsessão, fiscalizamos nossos cardápios, investimos em procedimentos estéticos para aparentar juventude, nos submetemos a rotinas de atividade física e, inevitavelmente, transformamos a fuga da doença em uma fórmula competitiva. Estar doente já não significa apenas enfrentar uma disfunção orgânica, mas carrega o estigma de não ter se cuidado o suficiente. Adoecer, nessa lógica, é ser um loser.

Esse quadro se reveste de múltiplas formas de “terapeutização” cotidiana: suplementos, iogas, dietas revolucionárias, terapia cognitiva e comportamental, testes genéticos e estratégias para evitar o câncer são difundidos incessantemente. Enquanto isso, o ataque ao SUS (Sistema Único de Saúde) segue implacável.

E, no entanto, apesar da hegemonia do discurso saudável, a saúde piora em escala global. Aproximadamente 120 milhões de adultos nos EUA (48,1%) têm hipertensão; destes, 92,9 milhões (77,4%) não a controlam. A Organização Pan-Americana da Saúde aponta que os casos de diabetes quadruplicaram nas últimas décadas no mundo.

O Brasil, por exemplo, ocupa o 6º lugar mundial em número de casos de diabetes, com 111 mil mortes registradas em 2024, e quase 30% da população adulta sofre de hipertensão. Além disso, pesquisas mostram uma grave crise de saúde mental, que atinge diretamente milhares de trabalhadores. Segundo dados do Ministério da Previdência, em 2024 houve quase meio milhão de afastamentos por transtornos psíquicos — o maior número em pelo menos dez anos.

Esses números revelam que o discurso da saúde — propagado de maneira incessante — numa sociedade submetida a ritmos extenuantes de trabalho (a famosa escala 6×1), acaba por ocultar a impossibilidade real do cuidado de si. No fundo, funciona como máscara de uma realidade que, cada vez mais, se mostra estruturalmente patológica.

Então, talvez seja o momento de nos perguntarmos como uma sociedade tão obcecada pela saúde pode ser, ao mesmo tempo, uma das que mais sofrem com depressão e ansiedade. Entre janeiro e outubro de 2024, o SUS registrou 671.305 atendimentos ambulatoriais relacionados à ansiedade — um aumento de 14,3% em relação a todo o ano de 2023. O dado coloca o Brasil em posição de destaque na atual epidemia global de ansiedade.

Talvez nossa tarefa seja tentar olhar para esse quadro de forma mais sensível. E isso provavelmente implique questionar o próprio discurso clínico, fragmentário e individualizante. Se estamos diante de epidemias crônicas — tanto psíquicas quanto físicas-orgânicas —, mais do que um mero acidente de percurso individual, elas parecem enraizadas na própria maneira como nossa sociedade organiza as relações cotidianas.

Não é difícil perceber, tampouco afirmar, que algo na estrutura social impõe um sofrimento cada vez mais profundo a milhares de pessoas. O problema talvez resida no fato de que o discurso médico, de modo hegemônico, persiste em tratar esses males como disfunções isoladas, quando seria fundamental considerá-los sob outra perspectiva: tais doenças não são enigmas nem surgem do nada, mas se configuram como consequências diretas do modo de vida dominante.

Atualmente, embora seja fundamental defender a ciência, é igualmente necessário separá-la do cientificismo — uma forma de crença cega que, ao sustentar um saber padronizado, acaba por tornar-se dogmática e transformar o conhecimento científico em ideologia. O paradigma médico hegemônico, financiado por empresas multibilionárias do setor farmacêutico, reduz de maneira dramática sintomas complexos à sua mera organicidade e reforça a separação entre psique e corpo.

Quando, porém, nos afastamos do cientificismo, conseguimos perceber que essa cisão, além de improdutiva, torna-se incapaz de perceber que a unidade corpo e psique é radicalmente influenciada pelo ambiente. É só recompondo a unidade que podemos concluir que as doenças atuais, sobretudo, na área da saúde mental, não são nem misteriosas tampouco surgem do nada.

“Especialistas” afirmam que a instabilidade econômica — marcada por empregos informais e exaustivos —, somada à insegurança e a uma vida interconectada 24 horas por dia, sete dias por semana, constitui uma das principais causas da ansiedade. Em outras palavras, nossa sociedade tornou-se uma produtora de doenças e sintomas, pois suas estruturas, valores e crenças estão atravessados por uma visão de mundo extremamente competitiva, acelerada e fragmentada.

A saúde, em nossa sociedade contemporânea, não é compreendida como um fenômeno socialmente organizado, mas sim reduzida à esfera individual. Os discursos sobre bem-estar, sob a lógica do capitalismo tardio, deslocam a responsabilidade do cuidado para o sujeito, ao mesmo tempo em que a lógica mercantilizada impõe um regime de produtividade ininterrupta, no qual a pausa ou o descanso se tornam inviáveis diante da ameaça constante de perda do trabalho.

Então, como não adoecer numa sociedade global marcada pela insegurança como traço fundamental? Para se ter uma ideia, em 2024 os transtornos mentais atingiram níveis incapacitantes nunca antes registrados, representando um aumento de 68%. Um dos principais motivos desse aprofundamento epidêmico está justamente na insegurança do mercado de trabalho e na ausência de perspectivas de melhoria de vida. Trata-se de um mercado que, cada vez mais, esgota e explora o trabalhador com jornadas estafantes e cobranças inumanas.

Diante desse quadro, é inevitável admitir: nossa organização social e econômica tem produzido fatores de estresse crônico. Portanto, se quisermos discutir seriamente a saúde, precisamos reconhecer que o modo como estruturamos a vida social nos últimos cinquenta anos tornou-se o principal influenciador de nossas doenças. O problema é que nos acostumamos a tratar como “normal” um processo de adoecimento coletivo sem precedentes na história humana — um verdadeiro adoecimento global.

No mundo inteiro, os diagnósticos de distúrbios mentais cresceram radicalmente. Milhares de crianças e adolescentes passaram a ser medicados com antidepressivos e estimulantes em uma fase sensível de formação, cujos impactos dificilmente podem ser revertidos. O quadro é, portanto, tenebroso — e, ainda assim, naturalizado. De 2014 a 2024, atendimento a crianças de 10 a 14 anos com quadro de ansiedade subiu quase 2.500% no SUS!

Diante desse quadro, torna-se imprescindível recordar antigas lições — como aquelas que a psicanálise, há mais de cem anos, já nos ensinava: não existe separação entre psique e corpo. Reconstituindo a unidade que nos constitui enquanto humanos, talvez possamos reafirmar que a doença e a saúde não são meros dados contingenciais, mas expressões de uma vida em sua totalidade — algo que não pode ser compreendido de forma isolada, mas que decorre de múltiplos fatores vinculados à experiência social do indivíduo.

É inegável que alguns psicanalistas, presos a uma prática clínica obtusa e confortável, buscaram engessar as provocações freudianas no “um a um”, desconsiderando a experiência do sujeito — enquanto efeito de discurso — em seu contexto social. Contudo, é igualmente inegável que, coletivamente, passamos a naturalizar a patologia que se constituiu como nosso modo de vida, sob a lógica de um capitalismo ultra-tardio. Assim, acabamos por nos submeter a um paradigma hegemônico que reduz sintomas complexos à mera biologia, ignorando a interação entre psíquico e corpóreo. É mais fácil e rentável.

É certo que devemos reconhecer as conquistas inegáveis da medicina. Mas é igualmente necessário delinear seus limites, pois o mesmo paradigma – que divide psique e corpo – restringe o alcance e a profundidade da compreensão da patologização da vida social. É justamente nessa profundidade que se revela o caráter epidêmico e generalizado dos males crônicos de nossa época — males que emergem das próprias formas de reprodução da sociedade.

Você já deve ter ouvido dizer que o que está adoecendo você é o capitalismo. Talvez tenha sorrido diante dessa afirmação, mas talvez seja o momento de levá-la a sério.

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