O pai da matéria e sua família
Edição do mês
Bento Prado Neto, Paulo Arantes, Roberto Schwarz e Bento Prado Jr. França, 1971, casa de Bento (Acervo Roberto Schwarz)
Fui apresentado à matéria brasileira, que por certo ainda não atendia por esse nome e, a rigor, nem nome tinha, numa noite de inverno entre dezembro de 1969 e fevereiro de 1970. Em Paris, para variar, onde no século passado não era raro descobrir o Brasil. Vanves, para ser exato, comuna do departamento de Hauts-de-Seine, 61 Boulevard du Lycée. No segundo (ou terceiro?) andar, morava então Bento Prado Jr., cassado havia menos de um ano pela ditadura
Éramos duas moças e três rapazes, todos com um pé e um mar de histórias na Maria Antonia. A ideia era que cada um contasse um pouco do que estava fazendo. Teses, é claro, menos Bento, o mais adiantado de todos em matéria de alforria acadêmica, naquele momento padecendo les affres de l’écriture de um projeto sobre a retórica de Rousseau, destinado a arrancar uma bolsa do CNRS. Com o seu Espinosa quase pronto, Marilena Chaui foi a primeira a expor, voltando a seguir para o Brasil. Otília e eu, Baudelaire e Hegel, respectivamente, recém-chegados, apenas uma ideia na cabeça e as primeiras leituras na Biblioteca Nacional, a original, da rue Vivienne. Por fim, o protagonista deste depoimento, Roberto Schwarz, também a menos de um ano por aquelas paragens, depois de uma visita da polícia à sua casa em São Paulo, explicando à dona Käthe que seu filho comprara um canário e ainda não pagara.
Antes de prosseguir, uma necessária nota pessoal. Quando relembro aquele encontro com a supracitada “matéria”, falo por mim, do ângulo exclusivo da minha ignorância a respeito, que não é qualquer
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