O ódio tem gênero e cor: Misoginia racializada nas redes sociais digitais

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O ódio tem gênero e cor: Misoginia racializada nas redes sociais digitais
Sessão solene na Câmara dos Deputados em homenagem à Marcha das Mulheres Negras, em 2025, presidida pela deputada Benedita da Silva (Lula Marques/Agência Brasil)
  No cotidiano de sociedades estruturalmente racistas como a brasileira, não faltam exemplos de como o ódio às mulheres – a misoginia – se expressa de forma indissociável do racismo. Longe de constituírem violência paralela, essas formas de opressão se combinam, se reforçam e se atualizam mutuamente, sobretudo nos ambientes digitais. O episódio recente de um desfile sobre ancestralidade africana realizado por mulheres negras dentro de um shopping center em Goiânia foi suficiente para acionar essa engrenagem histórica: insultos racistas, ameaças de morte e campanhas de ódio nas redes sociais. A violência não se dirigia apenas àquelas mulheres específicas. Mirava algo maior e mais profundo: a ousadia de existir publicamente, com dignidade, ancestralidade e afirmação em um espaço organizado para a exclusão dessas pessoas. Desde a reação violenta ao desfile, até os ataques sistemáticos dirigidos à parlamentar Benedita da Silva – deputada federal desde 1987, e primeira mulher negra eleita ao Senado Federal –, passando por agressões cotidianas a jornalistas, intelectuais, ativistas e mulheres negras anônimas, o que emerge é uma constatação que atravessa minha experiência e a de tantas outras: a misoginia não é apenas ódio ao feminino, ela também faz parte de um projeto de controle racial. Esse ódio tem cor, classe e território preferenciais, e se manifesta como punição à presença, à voz e à autonomia de mulheres negras e de outras mulheres racializadas no espaço público, seja ele físico, seja digital. O femini

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