O ódio conectado: Corpos, algoritmos e as guerras digitais contra as mulheres
Edição do mês
Ato nacional pelo fim da violência contra as mulheres, organizado pelo Levante Mulheres Vivas, na avenida Paulista, em São Paulo, em dezembro de 2025 (Rovena Rosa/Agência Brasil)
A misoginia não é um fenômeno novo. Ela atravessa a História como um dos pilares simbólicos e materiais da organização social, sustentando hierarquias de gênero, regimes de controle dos corpos femininos e dispositivos de silenciamento. O que se transforma, ao longo do tempo, não é a existência da violência contra mulheres e meninas, mas as formas através das quais ela se atualiza, se legitima e se operacionaliza.
Na contemporaneidade, marcada pela centralidade das tecnologias da informação e da comunicação, a misoginia encontra no ambiente digital um campo privilegiado de atuação. Plataformas, redes sociais, aplicativos de mensagens e sistemas algorítmicos não apenas tornam essa violência mais visível, como também produzem a sensação de sua intensificação. Essa percepção, no entanto, não se resolve no questionamento simplificador sobre se a violência teria aumentado ou se vem sendo mais denunciada. A questão central é outra: as mulheres continuam sendo violentadas de múltiplas formas, e a internet se tornou uma ferramenta crucial para a reprodução, a amplificação e a sofisticação da violência.
O espaço digital não cria a misoginia, mas a reconfigura. O que antes se dava no âmbito doméstico, comunitário ou institucional passa a circular em escala massiva, com velocidade, anonimato relativo e permanência. Vazamentos de imagens íntimas, campanhas de difamação, ameaças, organização de ataques, perseguições, discursos de ódio e linchamentos virtuais operam como novas modalidades de um mesmo antigo projeto: discipli
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