O estandarte do sanatório geral está a passar

O estandarte do sanatório geral está a passar
(Reprodução)

 

O período da folia momesca, como se dizia antigamente, costuma ser uma pausa bem-vinda para quem acompanha ou pratica a política, principalmente para os que o fazem por dever de ofício. Este ano, não. Não me lembro de outro Carnaval em que a folia das ruas tenha rivalizado tanto com a folia política como este que acabou de acabar. Politizaram o carnaval ao mesmo tempo em que carnavalizaram a política. O bolsonarismo é, realmente, uma festa.

Para que não pensem que exagero ou caricaturo, eis, então, o enredo:

Na segunda-feira, dia 4, a folia incendiava o país. Mas como, segundo diziam os jesuítas, “mente vazia é oficina do diabo”, Bolsonaro resolveu publicar no Twitter as suas intenções de fazer uma devassa na educação brasileira. “Há algo de muito errado acontecendo”, disse ele, para estupor geral. No ato seguinte, promete solenemente começar uma “Lava Jato” na Educação. Raios! Eu nem sabia que operações como a Lava Jato poderiam ser iniciadas pelo Executivo, quanto mais que a Educação brasileira estava a carecer logo disto. “O que estará acontecendo”, nos indagamos todos? E o nosso presidente digital não se fez de rogado e explanou: “Dados iniciais revelam indícios muito fortes que a máquina está sendo usada para manutenção de algo que não interessa ao Brasil”, disse. Caramba! O que há de ser tal coisa? O presidente, então, elucida o mistério: “A agenda globalista mira a divisão de classes. Pessoas divididas e sem valores são facilmente manipuladas. Mudar as diretrizes ‘educacionais’ implementadas ao longo de décadas é uma de nossas metas para impedir o avanço da fábrica de militantes políticos para formarmos cidadãos”. Ah, tá! Bolsonaro não está preocupado por que as escolas públicas são ruins, professores são mal remunerados, a infraestrutura é insuficiente, os currículos podem estar defasados e coisas deste nível. Está preocupado por que, segundo ele, as escolas não estão doutrinando as pessoas em conformidade com a ideologia dele, Bolsonaro, alinhada com os valores dele, em afinidade com o ponto de vista dele sobre o mundo. E, é claro, ele precisa ameaçar os educadores, que com Bolsonaro não há ideia sem ameaça. E logo com uma caça às bruxas. Os professores sentirão o peso do braço do Estado, jurou o moço.

Já no dia 1º março, sexta, na velha cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, inaugurou-se o corinho que foi a marca de trios elétricos, escolas de sambas, blocos e bloquinhos deste carnaval, em que os foliões mandavam o presidente tomar naquele lugar. Feio, sim, mas eis que a “manifestação” caiu no gosto da folia, os vídeos documentando a travessura foram se multiplicando online, gerando mais repetições e mais viralizações.

No dia seguinte, para completar o drama, ainda teve Daniela Mercury na avenida cantando “Tá proibido o carnaval nesse país tropical”, enquanto arrastava a massa. O que parece ter magoado sobremaneira o nosso tão suscetível presidente, e quando o presidente se magoa ele precisa atacar. E foi assim que os artistas se juntaram aos professores no Paredão Carnavalesco de Bolsonaro, acusados do imperdoável e incompreensível crime de serem “sustentados pela Lei Rouanet”.

O que isso significa em linguagem adulta é meio difícil de dizer, mas é mais ou menos como quando as crianças pequenas chamam o coleguinha de “feio, chato e bobo”. O importante é que ofende, mesmo que seja com um palavrão assustador como, sei lá, o infantilíssimo “cara de cueca”. Só que quando o bolsonarismo chama os artistas de “Lei Rouanet”, não quer apenas ofender, mas fazer uma ameaça implícita. Bolsonaro sustenta a esquisita premissa de que todos os artistas brasileiros vivem exclusivamente da Fazenda Pública e que como, a partir de agora, a Fazenda Pública não é mais pública, mas dele, Bolsonaro, os artistas não alinhados hão de morrer à míngua ou terão, por força, que mudar para o lado Bolsonaro da força. Isso se Lobão estiver aceitando conversões. Pronto. E lá se foi o presidente ofender e agredir artistas no Twitter, como toda a noite, vez que, afinal, é a partir do Twitter que se governa essa bagaça.

Mas o drama continua e eis que, no já mencionado e fatídico dia 4 de março, segunda-feira, as escolas de samba Paraíso do Tuiuti e Mangueira apresentaram o ataque mais pesado ao bolsonarismo já visto até aqui, tendo como palco o Sambódromo da igualmente vetusta São Sebastião do Rio de Janeiro. Sambódromo quer dizer Rede Globo mostrando ao vivo e reproduzindo em seus telejornais e o jornal O Globo premiando, justamente as duas escolas mencionadas. Bolsonaro devia estar dormindo neste momento, cansado de ameaçar os pobres docentes, e não reagiu. Mas na noite seguinte, dia 5, terça-feira, reagiu espumando bem ao seu estilo, grosso, bruto e tosco. O ego frágil do presidente não suportou o peso da crítica no Carnaval e do Carnaval e, farto de atacar, debalde, professores em um dia e cantores no outro, resolveu causar de vez. Se o Carnaval não gosta de Bolsonaro, Bolsonaro parte para cima do Carnaval, que Bolsonaro não pode levar desaforo para casa.

Resolveu, então, o supremo mandatário da Nação, “denunciar” o próprio carnaval, as suas inversões e transgressões. A quem? Indagareis vós, é feita a denúncia se é ele, o denunciante, que ocupa o cargo mais importante da República? Não importa. O que interessa é que ele reproduziu no próprio perfil de presidente da República no Twitter um desses vídeos escatológicos que só tarados e malucos repassam para outros tarados e malucos. Violando, inclusive, aquela regra básica que vale pra mídias sociais e para o cachorro da gente: pode até andar por aí, mas nunca leve para dentro de casa as porcarias que você acha na rua. Vale para gatos e cachorros, mas não para presidentes, ao que parece.

E foi assim, que na terça-feira de carnaval de 2019, três milhões e meio de pessoas do mundo todo que seguem o perfil do presidente da República no Twitter foram expostos a um vídeo pornô grotesco entregue pelo chefe de Estado e de Governo do Brasil. Um vídeo que, segundo Sua Excelência, espelha o desregramento e a degeneração do Carnaval. Eis, a razão, enfim, argumenta implicitamente o principal mandatário da Nação, o Carnaval não gosta dos seus belos olhos – é um desregrado. O carnaval, enfim, como os professores, os jornalistas, os artistas e toda a enorme classe de inimigos do presidente, é um degenerado. Aguardem, então, para breve, medidas punitivas para endireitar o carnaval. Rá! Quem sabe, uma Lava-jato da folia, a transformação de golden shower em crime hediondo.

Como vocês irão perceber, se prestarem atenção, o bolsonarismo precisa de inimigos para manter as suas tropas digitais perenemente mobilizadas e a eletricidade política em alta. Quando as pessoas começam a cansar de odiar uma classe desses inimigos (Lula, por exemplo, não é um bom alvo para a militância de ódio depois da morte do seu netinho), é preciso que outro alvo seja apresentado à matilha digital. Professores, jornalistas e artistas são, neste momento, os inimigos convenientes que o bolsonarismo elegeu e contra os quais atiça os cães de ataque. E agora, também, o Carnaval. Tempos complicados, meus amigos. Desculpe, Chico Buarque, mas o estandarte do sanatório geral não vai passar. Está passando bem agora. E o presidente desta bagaça, imagine só, é a esfuziante porta-bandeira.


Leia a coluna de Wilson Gomes toda sexta no site da CULT

(4) Comentários

  1. O Professor Wilson, como sempre, escreve brilhantemente e expõe ao ridículo, quem deveria ter um mínimo de sobriedade, visto ser o mandatário maior dessa bagaça aqui. Show!

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