O ‘corpo folião’ é movimento por dentro e por fora

O ‘corpo folião’ é movimento por dentro e por fora
Joana Lira, fotografada por José de Holanda

 

A artista visual pernambucana Joana Lira é conhecida pelas obras que misturam elementos religioso-sincréticos e cultura popular. Seus suportes vão desde os objetos domésticos, que elabora para a sua linha da Tok&Stok há 15 anos, até grafites em empenas de prédios em São Paulo.

Essa pluralidade constitui, segundo Joana, uma das propostas de sua atuação: fazer uma arte que transite desde o ambiente íntimo até o espaço público. “A ideia de criar experiências é o que mais me interessa. O ambiente público é interessante porque você toca mais gente, mas não quer dizer que eu não possa ir para o privado”, diz.

Na tarde do último dia 21 de fevereiro, Joana Lira, radicada há 26 anos em São Paulo, recebeu a Cult em seu ateliê para falar sobre a sua relação com o carnaval, seu percurso artístico e o trabalho mais recente que vem desenvolvendo, em parceria com os estúdios de design Alles Blau e Ligatura: a renovação da identidade visual do Paço do Frevo, instituição cultural de salvaguarda, difusão e pesquisa do frevo, localizado na região do porto de Recife.

Após ter trabalhado à frente da identidade visual e cenografia do carnaval de rua de Recife por dez anos (de 2001 a 2011), sua arte, assim como ela própria, mantém uma  relação especial com a maior festa popular do mundo.

A artista explica que a nova identidade do Paço é apenas um dos pilares da renovação da instituição, situada na região do porto e que completou dez anos de existência no ano passado. “Eles estão renovando toda a expografia, o conteúdo e principalmente o ângulo de olhar para o frevo, baseando-se no conceito do ‘frevo vivo’. A ideia é trazer as comunidades que fazem o frevo para mais perto”.

Enquanto folheia seus cadernos repletos de desenhos e estudos para a elaboração da identidade, Joana explica que o ponto de partida para a elaboração dessa identidade foram as perguntas “quem faz o frevo todo o dia?” e “o que o frevo faz sentir?”.

Para respondê-las, Joana recorre à sua própria experiência pessoal como foliã. “Minha memória afetiva com o carnaval é desde criança, quando minha mãe morava nas ladeiras de Olinda. Na semana de pré-carnaval, eu chegava a ter febre. Quando começavam as fantasias e os ensaios, eu ficava muito ansiosa; e a quarta-feira de cinzas era uma depressão que me arrasava”, diz.

Hugo Muniz/Paço do Frevo
Hugo Muniz/Paço do Frevo

Joana enfatiza que o que mais lhe chamou a atenção no carnaval, e o mais importante para compor a identidade visual do Paço, foram os corpos em movimento dos foliões: “O ‘corpo folião’ se espreme, se alarga, contrai, expande, toma espaço. Ele é movimento por dentro e por fora. O frevo é multiforme, é ponta, é curva, é balanço, é ‘gueri-gueri’. Não é uma coreografia, é balanço, é ‘diz que vai, mas não vai’, é quebra, improviso, swing. Enfim, o frevo derrama”, diz.

Segundo ela, a ideia foi tentar fugir do caminho mais clichê da visualidade da tradicional sombrinha de frevo utilizada pelos passistas no carnaval recifense. Para isso, a colaboração com os estúdios de design foi fundamental: “Foi interessante construir camadas de relação com esse objeto a partir da composição de um grupo criador, com esses olhares que se atravessam e provocam um ao outro. No meu caso, com o desenho, a iconografia e a relação com o carnaval; o Alles Blau com o olhar mais afastado, de São Paulo; e o Ligatura, esse pessoal um pouco mais jovem, que está vivendo essa efervescência”.

Para ela, esse trabalho também marca uma nova fase em seu percurso artístico. “Eu tenho tomado um caminho diferente artisticamente, começado as coisas através da escrita para acessar um lugar mais íntimo, o que tem sido muito novo para mim. Como não tenho muita expectativa na escrita, creio que tenho me soltado mais através dela. Estou quase fugindo dos meus cadernos de desenho, porque sei que, se desenho, acabo caindo novamente na definição, no traço, e acho que preciso aprender a me borrar mais”, conclui Joana.

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