Notícias de outras ilhas: Viviane Nogueira

Notícias de outras ilhas: Viviane Nogueira
(Foto: Divulgação)

 

Viviane Nogueira (São Paulo, 1995) é poeta, bacharela em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco. É autora da plaquete onde estão os holofotes da tragédia (publicação independente, 2018, com ilustrações de Steffano Lucchini) e do livro Uma casa se amarra pelo teto (Macondo, 2019).

Para a seção “Notícias de outras ilhas” – em que poetas, escritores e tradutores sugerem leituras para o período da quarentena –, indica poemas de June Jordan, Tatiana Nascimento e Heleine Fernandes. A curadoria é de Tarso de Melo. Leia os poemas e o comentário da poeta abaixo.

 

É, o fim do mundo (como o conhecemos) infelizmente ainda não é o agora, mas espero que ele já esteja por aqui. Escrevo minhas notícias num respiro de última hora. Um último suspiro do antes, talvez. Pergunto ao tarso ainda dá tempo? E ele me diz até hoje, no máximo amanhã, então agora estou aqui, correndo os dedos no teclado para ocupar da melhor maneira possível um espaço na página em branco.

No início meu corpo apequenava e ficava só tentando entrar em ritmo consigo mesmo, tentativa e erro tentativa e erro e erro (agora mesmo visto a camiseta com o verso meu corpo é meu lugar de fala, de Lubi Prates). Nesta ordem do tempo houve yoga, houve meditação, houve leitura e muito caos…até que o isolamento bateu no corpo também.

E da catástrofe já conhecemos: uma pandemia, o país ruindo, João Pedro foi assassinado, George Floyd foi assassinado, a cada vinte três minutos um jovem negro sendo assassinado no Brasil, e meu corpo não reagia nem ao fogo.

 Quem me trouxe de volta foi Julia Reis, com o videopoema “o mundo é uma bomba e eu apertei o botão”, disponível em seu IGTV. Finalmente um choro, e em seguida a raiva…e aí o trabalho é o agora, modificar o mundo que não nos comporta. E como nos diz Tatiana Nascimento em sua manifesta queerlombola: o continente que inventou o mundo/ inventou tb muitos jeitos de e/ star no mundo. que/ “gente é pra brilhar/ não pra morrer”/ sem nome.

Nessa toada trago comigo alguns dos nossos caminhos: um poema de June Jordan (Nova Iorque, 1936-2002) com tradução de Mariana Correia Santos (Guarujá, 1996-); um poema de Tatiana Nascimento (Brasília, 1981-), presente em seu livro 07 Notas para o apocalipse ou poemas para o fim do mundo (Garupa, 2019) e um poema de Heleine Fernandes (Rio de Janeiro, 1985-). Boa leitura!

 

É difícil manter limpa uma camisa limpa

June Jordan

Poema para Sriram Shamasunder
E para todos do Poetry for the People

É uma manhã ensolarada
com jasmins florescendo
sem esforço
e uma revoada de tordos de peito vermelho
mergulhando no monte de trepadeiras
que costumava ser
uma cerca no quintal
ou pombas colocando de lado
as folhas do vidoeiro
quando
um jovem caminha entre
as flores
até a minha porta
em que ele bate
então fica parado
brilhante numa camisa branca limpa

Ele leva o punho leve
para a porta
e bate outra vez

Ele veio para dizer isto
foi ou
não
foi?
e o que
a gente pode fazer
com o que está feito?
o que é o passado
além de uma pitada de sal
nos olhos?

O que a gente pode fazer
com o que está feito?

E o Bingo
filhote de sete meses pula
e acerta
a camisa branca limpa
com as patas cheias de lama
manchas aqui
e ali e em tudo lugar

E o que a gente pode fazer
com o que está feito?
Eu digo eu limpo a camisa
problema nenhum
bato duas vezes
no ciclo delicado
da máquina velha
a camisa torce na espuma
do sabão e torce no enxágue
e torce
e torce seca, afinal

limpa, não

ainda marcada por acidentes
pela energia de qualquer motivo sério e banal
a camisa continua suja
das patas do filhote

Eu pego aquela camisa branca bonita
vinda da Índia
as tramas macias como dedos
de bebê as tecendo
juntas
e eu lavo a camisa
entre
entre os nós das minhas
duas mãos
Esfrego e esfrego aquela camisa
para tirar
as marcas
sujas

No bolso
e em volta da costura dos ombros
e nas duas mangas
a sujeira as marcas
das patas aturdem meu sabão
minha água meu suor
capital
investido na restauração
de uma camisa branca limpa

E na décima primeira tentativa
Não vejo mais nada
nenhuma injúria
nenhuma sujeira

Eu seguro o tecido
fraco e bonito
na corrente
de água transparente
como eu queria que a lua ficasse
todo o dia

Como ficou pequena!
Aquela camisa branca limpa!
Tão delicada!
Tão leve!
Como a mão calma batendo na minha porta!
E agora eu penduro a camisa
para secar
e demorar o quanto precisar
para que o ar
faça o que faz
com tudo

Está limpa.
Uma camisa branca limpa
que ninguém queria macular
ou sujar
aquela camisa
agora muito mais limpa mas também
não mais a mesma
que aquela primeira antes da camisa
ser atingida e ser machucada
e não mais
perfeita
só bonita
uma camisa branca limpa

É difícil manter limpa uma camisa limpa.

tradução de Mariana Correia Santos

***

talhos

Tatiana Nascimento

aprender a tempestade,
soltar seu peso,
secar ao sol:

rugir trovões

derramar a tempestade,
despir de peso,
pairar no sol:

cantar trovões

suceder a tempestade,
fluir seu peso,
beijar o sol:

gozar trovões

antecipar a tempestade,
ruir seu peso,
lunar o sol:

cuír trovões

y pra que nada te desfaça,
se refaça
se re-
faca

***

refeição completa

Heleine Fernandes

você veio
e cozinhamos juntos.
esperamos o tempo
de marinar a carne
de amolecerem os grãos
e de apurarem os perfumes.
bebemos
lambemos os dedos
mergulhados no azeite
e aproveitamos o mel e o suco
que se desprenderam
dos nossos corpos nutridos.
ao fim
um café preto
para acordar
do feitiço da nudez.


> Assine a Cult. A mais longeva revista de cultura do Brasil precisa de você. 

Deixe o seu comentário

Dezembro

TV Cult