Noites de outrora

Noites de outrora

 

Lugar de Fala é o espaço dos leitores no site da Cult. Todo mês, artigos enviados por eles são publicados de acordo com um tema. O de julho de 2021 é “memória”


Posso ouvir o som dos nossos passos
naquelas ladeiras estreitas e cheias de curvas
que tanto acolhia a nossa juventude.
Íamos ouvir harpa
Lembra?
Bebíamos, quase sempre, um drink
transparente como água ou como cachaça.
Saboroso.
Parecia leve, no entanto, já nos primeiros goles,
ríamos como crianças.
Sem motivo.
Sem porquê.
As bordas das taças vinham salpicadas
de açúcar, misturada a uma essência
de laranja e que a todo momento
eu passava a ponta da língua no doce
daquele torrão.
Ela ardia como se um pequeno  corte
se projetasse nela.
Pequeno, mas potente.
Como a harpa que se aproximava
cada vez mais de nós.
O músico, de olhar doce e barba volumosa,
penetrava os seus olhos nos nossos
com a convicção de que o que tocava
era uma escolha nossa.
Brindávamos a mim, a você, ao amor.
Ao nosso amor!
Tropeçávamos nas calçadas tortuosas
e tentávamos ficar abraçados,
segurando um ao outro.
Só que os passos não possuíam
o mesmo ritmo.
Ríamos cada vez mais alto
e um enjoo sempre queria estragar aqueles
momentos, e eu o driblava me segurando
firme em sua mão
suada
afável
de dedos longos
que dava o sinal para o último ônibus da noite.

Marly Magalhães, 62, mora em Osasco, SP.
É aposentada e apaixonada pelas palavras.

 

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