No remorso da História, reimaginar o Brasil
Um exemplar de Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, repousava na estante do professor de filosofia da UnB Alex Calheiros, então candidato a ocupar o cargo de diretor do imponente Museu da Inconfidência, em Ouro Preto (MG). A poucos minutos da entrevista de seleção, ele tomou o livro, folheou-o e se deteve em um verso que estaria no centro das suas preocupações futuras como gestor da instituição: “Toda história é remorso”.
Desde 2023 à frente de um dos mais importantes museus do país, Alex Calheiros – doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) – conduziria uma espécie de reforma de perspectiva na coleção e na atuação pública do museu que conta e guarda a história de Tiradentes e dos demais conjurados de 1789. Seu nome, ele conta, chegou a ser vetado pela Casa Civil e pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, ainda sob o governo de Jair Bolsonaro. Em seu horizonte, ela já imaginava que histórias sufocadas seriam revolvidas, histórias até então escondidas sob os retratos imponentes dos heróis míticos da República.
O casarão no centro de Ouro Preto – cujo início da construção remonta ao fim do século 18 – foi inicialmente projetado para abrigar a Casa de Câmara e Cadeia de Vila Rica e chegou a funcionar como prisão estadual. O prédio é um dos exemplares mais significativos da arquitetura do Brasil colonial. Transformado em museu em 1944, o lugar de memória se embebeu do viés nacionalista da Era Vargas. Foi projetado na encruzilhada algo contraditória entre o modernismo e o resgate do passado colonial. Um memorial de inspiração moderna aos conjurados mineiros e aos mitos que a Primeira República já elevara à condição de heróis.
É o que Alex Calheiros chama de pecado original do museu: um espaço de reafirmação colonial erguido sob os auspícios do pensamento moderno, por definição contestador do domínio lusitano. Um dos passos fundamentais na problematização do museu foi a mostra Refundação, que marcou os 80 anos da instituição, em 2024. Com aproximadamente 100 artistas, a mostra pôs, entre as peças clássicas de celebração memorialista, obras contemporâneas que desafiam uma narrativa confortável do Brasil colonial.
Refundar é fazer a autocrítica. Trata-se de rever os marcos de fundação da memória e problematizá-los a partir dos dilemas do tempo presente. Como no poema de Drummond, a história do museu tem a consciência dolorosa da dívida e do esquecimento. Em uma leitura psicanalítica, o remorso derivaria, em perspectiva nacional, do trauma histórico e coletivo. Além da poesia de Drummond, o pensamento de Lacan também orientaria, aliás, a nova gestão da casa. Pôr o Brasil no divã e enfrentar seus fantasmas. Escavar em seus subterrâneos.
“Aqui existem basicamente símbolos da cultura material da implementação da civilização portuguesa”, avalia o diretor. O museu – que em 2024 recebeu quase 350 mil visitantes, um recorde histórico – guarda ainda mapas de sesmarias, varas de juiz da coroa portuguesa, quadros e bustos de figurões da colônia e do império.
Na contraposição entre a celebração dos revoltosos antimonárquicos e o memorialismo colonial, o Museu da Inconfidência foi erguido sobre a narrativa ideológica do mito de um Brasil pacificado. “Eu brinco que o museu é mais mineiro do que inconfidente, porque todo conflito é removido”, diz Calheiros. “Algumas passagens do museu têm a tentativa, a todo momento, de apaziguar os conflitos. É uma operação gilbertofreyriana. É como dizer que aqui somos cordiais e que reina a tolerância.”
O que a direção pôs em perspectiva, ele afirma, foi pensar o museu pela via do conflito, ampliando as contradições de um espaço pensado como firmador da história oficial. “Pensando em Ouro Preto, no período do ciclo do ouro e até hoje, é uma das cidades mais negras do país. Quando você anda nas ruas, vê que as pessoas trabalhando nos restaurantes, nos cafés, nas casas são negras, e o museu não fala sobre elas.”
Em gesto inédito, no ano passado o museu recebeu a doação de centenas de peças afro-brasileiras, relativas a elementos de religiosidade, festas e cosmogonias que remontam ao século 18. Catalogadas e discutidas em debates com a comunidade – o que incluiu, por exemplo, representantes do congado em Ouro Preto –, as obras serão finalmente exibidas ao público em julho deste ano.
Recuperar histórias das pessoas negras é o caminho previsível de uma instituição que, em outubro do ano passado, foi listada entre os 22 primeiros locais a integrarem a rede de lugares de história e memória relacionados à escravidão e ao comércio de escravos, no âmbito da Rota dos Povos Escravizados, da Unesco. São espaços de memória sensível da escravidão. “Cadê o conflito dos emboabas? Cadê a história de Felipe dos Santos? Cadê as revoltas que antecedem e vêm depois da Inconfidência?”, pergunta Calheiros. “A Inconfidência é um amadurecimento de todas essas lutas.”
Entre insígnias da coroa portuguesa e retratos da gente graúda do Império, peças de intervenção da Refundação perturbaram e contestaram a história contada: cachimbos de jurema, do artista Cláudio Cretti, marcam a presença indígena no museu símbolo de um estado que testemunhou massacres de povos originários; bandeiras da Ocupação 9 de Julho, movimento popular por direito à moradia; um retrato de Carmen Silva, líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST); na sala da mineração, os rejeitos da tragédia ambiental de Mariana; sobre o mobiliário colonial, fotografias do coletivo mineiro Retratistas do Morro, que capturam o cotidiano das favelas.
Repensar um museu que se converteu em ícone do estado de Minas Gerais e da história nacional é uma operação delicada. “Imagina a dificuldade de você pegar esse bastião da ideologia brasileira e começar a mostrar que ele tem problemas”, afirma Calheiros. No processo de refundação, ele conta que a proposta recebeu ataques diversos, ao que ele atribui a uma “fantasia colonial”. Além dos ataques nas redes, segundo Calheiros, houve 89 denúncias ao Ministério Público por supostos danos ao patrimônio público a partir das intervenções no museu. “As pessoas ainda estão muito mergulhadas nessas construções do imaginário de Ouro Preto.”
“Não existe um museu do passado”, diz Calheiros. “É sempre um museu contemporâneo. Ele não é de arte contemporânea, mas é um museu contemporâneo e, claro, hoje nosso olhar está se modificando em relação a esse passado. Temos uma atualização historiográfica e lutas antirracistas. No nosso olhar estava tão amortecido que a gente não era capaz de perceber as ausências aqui.”
Para reimaginar o museu, Calheiros tem ouvido coletivos de artistas e de representantes da sociedade civil, em um processo de abertura e diálogo com a comunidade. Em outra frente, o museu se ampara em grupos de pesquisa e se articula com universidades, parlamentares, outras instituições museológicas e movimentos sociais para redefinir seu lugar como espaço de memória. A ideia, segundo ele, é criar um conselho consultivo – já em formação – para a instituição, com o fim de ampliar a participação popular.
Agora o museu planeja, por exemplo, uma inédita ocupação indígena, em projeto articulado com a deputada federal Célia Xakriabá. A ideia é projetar histórias e narrativas de quatro povos originários do território de Minas Gerais. Um seminário deve acontecer ainda este ano e a ocupação está prevista para 2026.
A instituição também questiona sua constituição como espaço hegemonicamente masculino. Em abril de 2024, os restos mortais da poeta e heroína da Inconfidência Mineira Bárbara Heliodora foram levados ao panteão do museu, onde repousam os restos de homens como o poeta Tomás António Gonzaga. Ainda no ano passado, a artista plástica mineira Niura Bellavinha tornou-se a primeira mulher a realizar uma exposição individual no museu, com trabalhos feitos a partir de pigmentos de rejeitos de mineração.
“Eu acho que é um gesto forte de mostrar que o museu também está se repensando. Do ponto de vista do museu masculino, do branco masculino que representa a vida das elites”, diz Calheiros.
Noutro trecho do poema “Museu da Inconfidência”, de Drummond, os versos falam de um museu que governa o tempo ingovernável. Como uma história que atropela as tentativas de governar o tempo, movimentada pelas demandas de populações subalternizadas, o Museu da Inconfidência questiona a si próprio e tenta reimaginar o Brasil pelas lentes de um tempo que recusa a unicidade da narrativa.





