Mudando a fotografia do poder: Marielle e o novo imaginário político sobre as mulheres negras

Mudando a fotografia do poder: Marielle e o novo imaginário político sobre as mulheres negras

“Se podemos imaginar o ideal, significa que é possível”

Koyo Kouoh, curadora-chefe da Bienal de Veneza 2026

A socióloga e ativista Vilma Reis, da Bahia, com frequência denuncia o quão urgente é a necessidade de mudança na “fotografia do poder”. Com esta metáfora, Reis sintetiza a homogeneidade racial e de gênero que segue compondo os principais espaços de tomada de decisão na política, na economia e no campo jurídico – esferas fundamentais para a vida social. Em um país de maioria feminina e negra, a diversidade segue sendo a exceção e não a regra.

É evidente que passos importantes foram dados e, atualmente, temos um grupo qualificado de pessoas negras, periféricas, LGBT+ e indígenas, em especial mulheres negras, ocupando cargos políticos Brasil afora. Essas atuações espelham o longo histórico da participação política de mulheres negras que, à revelia das imposições institucionais racistas e misóginas que tornam esse acúmulo menos povoado que gostaríamos, marcaram a política progressista com a sua radical imaginação política – aqui, me refiro à figuras como Almerinda Farias Gama, Antonieta de Barros, Benedita da Silva, dentre outras.

Contudo, o cenário ainda é marcado pela sub-representação. Esse desequilíbrio não se deve a uma suposta característica apolítica da população negra, como algumas narrativas nos induziram a pensar. Se a fotografia do poder segue não refletindo a real composição do povo brasileiro, isso é responsabilidade também da infraestrutura eleitoral e dos partidos políticos que pouco ou nada abrem margem para as mulheres negras ou até mesmo criam condições para elas se integrarem à disputa e lograrem êxito. Ou pior: burlam as ações afirmativas elaboradas para enfrentar a desigualdade histórica tão pungente na política.

Também por isso a eleição de Marielle Franco foi e segue sendo marcante. Em 2 de outubro de 2016, uma mulher negra, socialista, cria da favela e que mantinha de maneira livre e transparente uma relação homoafetiva chegou à Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Era a sua primeira candidatura e 46.502 cariocas confiaram seu voto nela. No ano seguinte, o único que pôde desempenhar o seu mandato, Marielle teve uma atuação determinante para a defesa das populações minorizadas da cidade, enfrentando personalidades influentes que se valiam de táticas escusas para conquistar cada vez mais poder. Não aquele poder praticado por Marielle, onde as periferias ganharam destaque e voz na formulação de políticas públicas.

Ao falar da presença de Marielle na Câmara, é impossível deixar de lado uma consideração sobre o impacto do seu visual naquele espaço. De black power, turbante, unhas e batons coloridos, camisetas com mensagens políticas e vestidos esvoaçantes, ela foi na contramão do que é esperado das mulheres que assumem posições de liderança e, por vezes, terminam por usar do vestuário como uma forma de se camuflar no grupo hegemônico (os homens) na busca por confiança e credibilidade.

A parte de indumentária do Acervo Marielle Franco, gerido pelo Instituto Marielle Franco a partir da sua área de Memória e Cultura, revela uma parlamentar extremamente comprometida com a sua missão institucional e que não abria mão da própria identidade. Não é coincidência o fato de Marielle ser especialmente lembrada pelo cabelo, roupas e apetrechos. Na fotografia do poder, ela, com sua estética, alcançou um lugar até então inédito para as mulheres negras.

A presença de Marielle no poder representa um novo paradigma ao comprovar ser possível uma construção política baseada no respeito incondicional à coletividade e aos direitos humanos. Sabemos que ela pagou com a própria vida por seu engajamento extremamente conectado aos mais vulneráveis. Contudo, apesar do episódio dramático de 14 de março de 2018, muitas outras mulheres negras mantiveram as suas candidaturas para o pleito daquele ano e, até mesmo, decidiram concorrer às eleições inspiradas no exemplo de Marielle.

Depois das campanhas de 2018 e 2020, a ciência política cunhou o conceito “efeito Marielle” para explicar o impacto da vereadora no imaginário político-social. Marielle passou a ser sinônimo da atuação progressista das mulheres negras e da premência pela produção de meios de fortalecimento desse tipo de participação política, além de apontar a sua imprescindibilidade para a democracia brasileira.

O Instituto Marielle Franco, que tem como principal vocação a perpetuação do legado da vereadora, vem desenvolvendo em todos os ciclos eleitorais desde 2020 a Agenda Marielle Franco, um conjunto de propostas e diretrizes baseadas no repertório de Marielle para pessoas candidatas levarem adiante esse fazer político tão característico. Com rigor, os efeitos da eleição de Marielle Franco há uma década e do feminicídio político que ceifou a sua vida em 2018 ainda estão sendo identificados e debatidos. Fato é que os significados da atuação de uma liderança como Marielle na institucionalidade inaugurou um novo imaginário político-social sobre as mulheres negras.

Gabrielle Abreu é Historiadora e Gerente de Memória e Cultura do Instituto Marielle Franco. Em sua pesquisa de Doutorado no CPDOC/FGV, investiga as recentes estratégias de valorização da memória de ativistas negras no Brasil.

Deixe o seu comentário

Setembro

TV Cult