Meu amigo conservador de direita

Meu amigo conservador de direita
O fenômeno Bolsonaro não se explica em sua maior parte por uma lógica estritamente política (Arte Andreia Freire)

 

Conversei, nestes dias, com um sujeito que se autodefine por coisas que ele detesta na política. Abomina o PT, por ser corrupto e por causa dos programas de “bolsa esmola”; tem horror à esquerda, vez que é comunista, defensora da vagabundagem que pratica o crime e apoia “essas coisas” de feministas e homossexuais. Não que ele seja machista nem homofóbico, claro que não, até tem um amigo gay discreto. Autodefinições à parte, quando simplesmente saímos do que ele não gosta, o que se depreende é que o meu amigo é um conservador. De direita.

Está feliz e animado com a candidatura de Bolsonaro, não acredita em Temer, que considera corrupto, e admite tranquilamente que toda aquela mobilização de 2015 e 2016 pelo impeachment não teve qualquer coisa a ver com crime de responsabilidade fiscal ou qualquer alegação do gênero. Acha que a candidatura de Bolsonaro está crescendo e que isso está deixando a elite, inclusive a elite midiática, furiosa. O que, segundo ele, é muito bom e um sinal de que “o mito” está no caminho certo. Acha que assim que a candidatura de Lula for definitivamente impedida, não haverá outra força política a conter o seu candidato. As últimas pesquisas, de fato, demonstraram que o capitão se mantém eleitoralmente consistente, apesar dos ataques incessantes.

Ataques que, inclusive, têm vindo de onde menos se esperava: da Veja, que inventou essa história de que os seguidores de Bolsonaro são robôs, onde já se viu? E da CIA, que vazou documentos secretos sobre o Governo Militar autorizar a execução de subversivos, de maneira muito suspeita, bem agora que Bolsonaro lidera as pesquisas. Estão todos contra Bolsonaro, o que é ótimo porque a sociedade brasileira está contra todos os que estão contra Bolsonaro, acredita o meu amigo. Nem os poderosos nem essa mídia comunista – e ele tem profundas mágoas da Folha e da Globo – vão conseguir derrubar a intenção de votos no seu candidato ou evitar que os apoios à sua candidatura cheguem de todos os lados. Principalmente agora, com o reforço que está recebendo de figuras emblemáticas da nova direita, como a youtuber Joice Hasselmann e a tuiteira Janaína Paschoal, que recentemente se filiaram ao PSL e que podem ser grandes puxadoras de votos em 2018.

Meu amigo sente-se em casa na direita, que, finalmente, se assumiu, depois de 30 anos (FHC é de esquerda, óbvio) com o esquerdismo lhe sendo enfiado goela abaixo. Quando lhe contestei que, a rigor, Bolsonaro não tem muito das coisas que caracterizam a direita republicana, como o antiestatismo, a confiança em políticas de austeridade fiscal e a ênfase nas liberdades individuais e dos mercados, chegamos à conclusão de que o que interessa ao meu amigo não é principalmente a direita, mas o conservadorismo moral e a sua posição autoritária sobre lei, ordem e porte de armas. A principal pauta eleitoral do meu coleguinha conservador de direita é o crime, a certeza de que uma mão forte do Estado pode resolver o problema, e a convicção de que apenas Bolsonaro pode assegurar uma alternativa crível neste sentido.

A direita conservadora não confia na direita liberal nem cogita em aliar-se a ela, a não ser que esta se torne, Deus não permita, a única opção para impedir que a esquerda volte ao poder. Mas quer, ao contrário desta, um Estado grande e forte, governado com pulso firme e o fim do estado geral de baderna em que o país se meteu. E se para isso for necessário sacrificar umas liberdades e garantias individuais, bem, não se pode fazer omelete sem quebrar uns ovos. Meu amigo conservador de direita é, ao fim e ao acabo, tão antiliberal quanto antiesquerda. Diria até que tem mais horror ao liberalismo do que à esquerda, embora não seja absolutamente capaz de pronunciar uma frase como esta, tanto por lhe escapar o sentido quanto porque pressente que o apoio de certos setores ditos liberais a Bolsonaro pode vir a ser importante.

O meu amigo quer, além disso, o fim da “desordem moral” produzida pelo avanço de direitos dos homossexuais e pela “ideologia de gênero”, que embaralharam os papéis sobre a identidade masculina ou só geraram confusão sobre o que compete ao homem e que se espera da mulher. Subsidiariamente, quer impedir que três décadas de lavagem cerebral esquerdista dos meninos na escola possa continuar. É preciso restaurar a verdade sobre o Governo Militar, que foi necessário para impedir, isto sim, uma ditadura, a dos comunistas. E que ninguém que não fosse comunista, vagabundo ou corrupto teve qualquer coisa a temer naqueles anos, em que havia respeito pela autoridade, segurança e tranquilidade para as pessoas de bem. E os governos não roubavam, insiste.

A julgar pelo meu amigo, o conservador de direita é muito sensível ao argumento do “pânico moral” causado por uma sociedade mais pluralista, mais diversa, mais aberta e menos dogmática, lida por ele como uma sociedade desordenada e instável. É neste contexto que palavras, que em mim provocam risos de desdenho, como “comunismo”, “ideologia de gênero”, “feminazismo”, “gayzismo”, e outras, são levadas muito a sério para dar nome e forma ao monstro moral que lhe apavora.

O conservador de direita se sente soldado em uma guerra moral contra o Mal metafísico e pressente que, enfim, tem uma chance de virar o jogo depois de 30 anos de degradação. Na sua incapacidade de identificar o seu verdadeiro inimigo, o liberalismo nos costumes, acha que tudo é responsabilidade da esquerda. Mal sabe ele que há conservadores de esquerda, e não são poucos. Como não consegue separar com nitidez a clivagem relacionada à diferença política (direita-esquerda) da clivagem relativa à divergência moral (conservador-liberal), acha que tudo tem a ver com a esquerda: defesa da bandidagem, degradação moral da sociedade, corrupção, políticas sociais e, claro, comunismo.

Reforma da previdência? Reforma trabalhista? Reforma política? Os temas “previdência”, “trabalho” e “sistema político” não têm a menor importância, mas lhe interessa reformar, sim, tudo o que parece criado pelos governos do PT ou pela hegemonia moral (de esquerda) que dominava o Brasil até o início da grande faxina moral em 2015. “Democracia”, em um sentido pleno e exigente, não lhe diz nada. “Direitos e garantias individuais”, “Estado de direito”, “soberania popular” são apenas palavras grandes e insignificantes. Troca tudo isso fácil por segurança pública, lei, ordem, organização, nacionalismo.

A direita conservadora não gosta de política nem de políticos. Pelo menos, “desses políticos que estão aí”. Mas quer bancadas fortes de pessoas conservadoras para acelerar a demolição “cultural” do legado petista, que entende basicamente como uma baderna moral. E aprecia uma posição autoritária. Agora, enfim, tem o seu representante, o seu campeão, com, acredita, chances efetivas de vitória. Apenas o fato de ele já estar incomodando os comunistas da Globo e da Folha e, sobretudo, dando úlceras nas pessoas de esquerda, já é uma revanche saboreada com prazer.

Meu amigo conservador de direita pode estar muito equivocado, mas não está sozinho. De toda sorte, há pelo menos uma coisa sobre a qual ele tem razão: uma boa parte das pessoas estará votando em 2018 por razões morais e não por razões estritamente políticas ou de economia política. O fenômeno Bolsonaro não se explica em sua maior parte por razões que obedeçam a uma lógica estritamente política ou que tenha em consideração políticas públicas para lidar com a economia brasileira. Antes, a candidatura de Bolsonaro é a mais absoluta quimera destes pontos de vista. Por outro lado, o meu amigo conservador é, neste sentido, bem mais lúcido do que muito cientista político e comentarista de campanhas eleitorais, ao identificar na disputa moral as raízes mais arraigadas do bolsonarismo e no pânico moral a sua principal estratégia eleitoral. E que uma posição moral vá, por enquanto, liderando as intenções de voto e tenha a possibilidade de eleger um presidente não deixa de ser inquietante.

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(3) Comentários

  1. A matéria está perfeita, mais só queria saber o que esse pessoal conservador pensa em fazer com homossexuais, feministas e a população pobre do país. É o Brasil se transformando em uma Alemanha nazista da década de 20 contra essas classes. Porque homossexuais, mulheres com opiniões fortes e a população pobre sempre existiu, qual a solução queima-los em Câmaras de gás. É lastimável que políticos e a população brasileira ainda, porque em pleno no século 21 não consigam respeitar e viver com a diferença do próximo.

  2. Concordo com tudo, mas acho que falta somar atenção à questão da violência. Estamos em uma situação séria de violência com o debate sobre isso pautado diariamente pelos Datenas da vida.

  3. Dado o momento revolucionário que estamos vivendo, o artigo de Wilson GOMES é de uma profundidade psíquica devastadora. Destaco para fundamentar essa constatação o título do mesmo: “Meu amigo conservador de Direita”. Revela a normalidade ética e humanista ao ter um amigo com ideologia distinta e ter por ele estima. Por outro lado, ao destacar o discurso moralista (falso discurso, retifica-se!) do senhor candidato da extrema direita, Gomes nos faz confirmar que o projeto que o Estado português e a igreja católica realmente foi bem sucedido. Criou entre nós o entrave do conservadorismo hedonista e sádico.

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