“Melhor para ser igual”, colonização e Sobrevivendo no Inferno

“Melhor para ser igual”, colonização e Sobrevivendo no Inferno

 

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“Tem que acreditar. Desde cedo a mãe da gente fala assim: filho, por você ser preto você tem que ser duas vezes melhor. Aí, passados alguns anos, eu pensei: como fazer duas vezes melhor se você está, pelo menos, cem vezes atrasado?” Essa é a mensagem inicial da música “A vida é desafio”, de Mano Brown e Edi Rocky dos Racionais MC’s, faixa do álbum Mil Trutas e Mil Tretas, de 2006. Os Racionais, de forma direta e contundente, transformaram esse dizer maternal comum na minha casa, em aforismo sobre a estrutura racista da sociedade brasileira. Concordando com o sociólogo Tiarajú D’Andrea, os Racionais deram forma ao horror que vivemos entendendo a impossibilidade da mediação para fazer o retrato do Brasil Periférico. É direto, real, e para mim e “mais de 50 mil manos”, revoltante!

Se é verdade que a socialização em uma família negra pobre produz uma infância áspera, a proposta estética transformou o vaticínio materno em consciência sobre uma estrutura social de dominação que organiza a existência das pessoas negras. O rap nacional produziu uma inflexão cultural responsável pela constituição da identidade de uma geração de jovens ao reconceituar a ideia de país aprendida nos meios de comunicação e ensinada nas instituições oficiais de ensino.

A propósito, a criação do orgulho periférico e insurgente cantado no rap fez com que eu desconfiasse do caráter inexorável da reprodução da forma de vida dentro da qual nasci. Com a proteção da minha mãe, consegui resistir às acusações do meu pai que sempre disse que eu “usava” a escola para fugir do trabalho. Querendo não ser pedreiro, tentando afastar a acusação de vagabundagem, fiz-me professor.

Pelo valor social dos profissionais da educação em nossa sociedade, tornar-se educador não é propriamente o que se considera uma grande vitória social. Mas não é nesse “Brasil” que eu cresci. No meu país tudo o que tinha a ver com carteira assinada e livrar-se de um assassinato estava de bom tamanho. A preocupação de quem nos ama é com o não “desandar” – expressão que significa não fazer carreira no crime e nem nas drogas –, era conquista social de respeito, altamente valorizada. Tudo se resumia no ensinamento das mães: não mexer nas coisas dos outros e não andar com qualquer um. Tudo o que fosse além disso era impossível para a maioria, e para os negros era uma piada entre sádica e ridícula.

Formei-me em universidade pública. Graduação, anos de proteção. Se Getúlio Vargas criou a carteira de trabalho azul como símbolo da dignidade cidadã, Lula nos permitiu ter a carteira de estudante, eficiente para reduzir a taxa de assassinato dos jovens negros. Os “tempos de universitário” foram tão bons que, por alguns momentos, era possível se “esquecer” que era negro depois de ter feito melhor. Afinal, a universidade tem seus encantos, mas também nos põe para chorar no canto.

A violência do homo academicus produz uma morte espiritual. As mães pretas choraram menos corpos universitários. A universidade como reino encantado reluz e seduz. Como instituição de sequestro, faz nos perder de nós mesmos. A propósito, ingressei na mesma instituição que Djonga, um dos mais importantes rappers brasileiros dos tempos atuais. Cheguei antes dele e fui até o fim, ele seguiu outro caminho. Cada um a seu modo e com os respectivos recursos de que dispomos, estamos tentados acertar as contas com o mundo branco. Ele uma estrela do rap, eu um educador anônimo, ambos negros.

Consegui me formar. Não virei acadêmico, tornei-me professor. Com um rap na cabeça e um giz na mão, fui para a sala de aula. Reencontro trágico com a periferia. Pensei, não é pra mim! Ser professor na Rede Estadual de São Paulo foi uma experiência de ser forçado a ser cúmplice da ação estatal iníqua, a fabricação de corpos pretos e pobres para ação violenta do Estado, do mercado e da teologia da prosperidade do neopentecostalismo midiático. O rap me levou à escola, a consciência que o rap me deu me tirou da escola. Seria o fim? Não.

Hoje atuo no Vale do Jequitinhonha, e a escola em que trabalho poderia ser considera uma “Companhia de Comércio do Médio Jequitinhonha”, já que insuspeitadamente segue os imperativos da cartilha imperial em tempos de capitalismo financeirizado. Somos um enclave colonial na era “pós-industrial” e da “sociedade do conhecimento”. Não faltam plantations e lógicas extrativistas por aqui, e a mão de obra é farta assim como a condescendência dos agentes locais da Coroa é mui respeitosa e ciosa das bênções de Vossa Alteza O Capital.

Há luta, somos quilombo! E seguimos em meio à chibata virtual do capitalismo financeiro e das monoculturas mentais. Temos descoberto uma nova dimensão do devir negro do mundo: o capitalismo, em relação à aurora da época moderna, faz “várias vezes melhor” para manter tudo como sempre foi. E, concordando com Sueli Carneiro, continuamos pretos, Sobrevivendo no Inferno.

 

José Carlos Silvério dos Santos (Apelido é Rone), 36, é professor.

 

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