Lembrança verdadeira: dez anos do golpe e da mentira organizada contra Dilma Rousseff

Lembrança verdadeira: dez anos do golpe e da mentira organizada contra Dilma Rousseff
Crédito: TV Câmara/Reprodução

 

 

Uma semana antes da votação do Impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, eu estava internado em uma UTI, em Brasília. Um quadro severo de vômitos havia provocado a laceração da parede do meu esôfago. Sim, os médicos confirmaram à época: meu corpo somatizava o horror político que já se espalhava pelo país desde que Aécio Neves contestara o resultado das eleições em 2014 – dando início à polarização odiosa em que as esquerdas levavam a pior, e que dura até hoje.

A escalada de violência – simbólica e concreta – contra as esquerdas, e contra o Partido dos Trabalhadores em particular, ganhava intensidade a cada dia, impulsionada por uma atmosfera saturada pela Operação Lava Jato e por sua legitimação midiática. O ambiente político e social tornara-se tóxico. Pessoas passaram a ser hostilizadas em espaços públicos simplesmente por usarem a cor vermelha. Danilo Gentilli do auge de sua estupidez acusou Fernando Haddad de “homenagear o comunismo” por apresentar ciclofaixas com a cor que elas têm no mundo inteiro. E, com toda a progressão geométrica dessa mistificação, faltou, por parte de setores hegemônicos da imprensa, uma reflexão séria em relação a esse esgarçamento do tecido democrático que estava em curso. Ao contrário: essa parte da imprensa deu guarida à burrice motivada, como hoje dá guarida a Flávio Bolsonaro.

Saí da internação quase diretamente para aquele momento decisivo (antes, tive um princípio de choque anafilático com antibiótico – que me deram por causa da pneumonia desenvolvida pela aspiração do vômito). Sim, era de morte a energia dirigida contra mim pela direita e a extrema direita pelo simples fato de eu defender Dilma Rousseff e acusar a Lava Jato e seu “herói” fajuto de corrupção. Naquele dia 17 de abril, antes de sair de casa para a sessão do golpe, procurei uma gravata vermelha. Não encontrei nenhuma no tom que desejava. Vesti então um cardigan vermelho, como se fosse um manto. Não era mero detalhe de vestuário. Era um gesto consciente de resistência num ambiente em que até as cores haviam se tornado objeto do ódio da extrema direita, àquela altura já movido pela desinformação nas mídias sociais, em especial o Facebook.

No Plenário Ulysses Guimarães, a cena que se desenrolou naquela noite materializou todo esse horror que percebíamos crescente à nossa volta. Sob a condução do presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha – então já marcado por graves acusações de corrupção – o espaço institucional foi transformado em picadeiro de um freak show que horrorizou até mesmo quem, na sociedade, foi convencido a estar a favor do impeachment de Dilma. Uma arquitetura efêmera (construída por autorização de Cunha para aquela ocasião, e que descaracterizava totalmente o plenário) conduzia parlamentares por uma espécie de passarela até um microfone central. O gesto de votar havia sido convertido em performance; uma performance que, mais que derrubar a presidenta, deveria humilha-la publicamente.

E assim foi feito.

O que deveria ser uma deliberação de alta gravidade institucional assumiu a forma de espetáculo deprimente e revelador do baixíssimo nível moral e intelectual da direita. Discursos sem densidade jurídica eram substituídos por invocações religiosas, homenagens familiares e palavras de ordem. O Parlamento, naquele momento, deixou de operar como instância de responsabilidade e passou a funcionar como vitrine da alma hedionda da república oligárquica.

Eduardo Cunha não teria arquitetado essa “fogueira” para queimar Dilma Rousseff publicamente sem a cumplicidade da Rede Globo, interessada no golpe contra a presidenta para ver implementada a política neoliberal que tanto lhe beneficiaria, principalmente no que diz respeito à destruição dos direitos trabalhistas. A Globo simplesmente suspendeu toda sua programação de domingo para transmitir a festa do golpe e ver a primeriza mulher presidenta da república ser humilhada por homens. Sim, a Globo flerta com o banditismo não é de hoje – desde que o banditismo garanta os privilégios de seus donos, que se comportam como donos do Brasil.

Quando Jair Bolsonaro dedicou seu voto ao torturador da ditadura Brilhante Ustra – responsável por perseguir e violentar a então militante Dilma Rousseff –, algo se rompeu definitivamente no pacto da Nova República. Não se tratava mais de divergência política, mas da celebração pública de uma golpe e da violência contra mulher. Sim, ali algo de institucional deveria ser feito: a cassação do mandato de Jair Bolsonaro por crime previsto na Constituição. A PGR e o STF foram omissos porque foram cúmplices do golpe. Que o STF saiba que boa parte da violência que seus ministros sofrem hoje é fruto dessa pusilanimidade e irresponsabilidade.

A única reação verdadeiramente contundente àquele crime partiu de mim. Cuspi na cara do apologista à tortura! O que fiz naquela noite não pode ser compreendida fora desse contexto. Não foi um gesto gratuito. Foi recusa. Recusa diante da naturalização do inaceitável.

Mas o que me move hoje neste texto não é a reivindicação daquele gesto, mas a necessidade de lembrar detalhes daquele golpe para que a história não seja apagada ou reescrita a partir das mentiras dos golpistas.

Dez anos depois, o que está em jogo não é apenas a interpretação do processo que levou à queda de Dilma Rousseff. O que está em disputa é a própria natureza dos fatos.

Hannah Arendt, em “Verdade e política”, chama atenção para a fragilidade das verdades factuais. Diferentemente das construções teóricas, os fatos dependem de testemunho, registro e reconhecimento público. São, por isso mesmo, vulneráveis à distorção. Quando são sistematicamente reconfigurados, altera-se não apenas o passado que muitos testemunharam, mas põe em cheque a própria possibilidade de verdade na política.

É luta por essa verdade em relação ao golpe de 2016 que me move.

Ao longo da última década, principalmente a mídia hereditária e oligárquica de direita tentou consolidar (mas sem sucesso, graças à nossa resistência na forma de lembranças e registros) a narrativa que apresenta o impeachment como procedimento regular, esvaziando as controvérsias jurídicas que o cercaram e apagando seu contexto político. Um esforço por organizar os acontecimentos de modo a limpar a barra dos golpistas e dar alguma consistência para o golpe que não sejam as mentiras em torno das quais ele foi tramado, “um acordo nacional, com o Supremo, com tudo” – para lembrar a frase de outro corrupto golpista, Romero Jucá.

Minha lembrança, por si só, não resolve essa disputa. Como ensina Ecléa Bosi em “Memória e sociedade: lembranças de velhos”, lembrar é um trabalho. A memória individual se constrói na relação com o mundo social e precisa ser confrontada com aquilo que permanece verificável. É nessa articulação que o meu testemunho ganha consistência.

Minhas lembranças não valem por serem minhas. Elas têm valor na medida em que se sustentam em registros que podem ser revisitados e verificados: as imagens da sessão, os discursos proferidos, os documentos disponíveis. O testemunho só se torna politicamente relevante quando se ancora em fatos.

Ao mesmo tempo, como observa Flora Süssekind em reflexões como as de “Tal Brasil, qual romance?”, a memória histórica não é um espelho neutro do passado. Ela é mediada por narrativas. A imprensa, a televisão e as plataformas digitais não apenas registram acontecimentos – elas os organizam, enquadram e distribuem sentidos. Por isso, à época do golpe e hoje, dez anos depois, eu me debato com esses meios para não deixar que eles escondam a verdade dos fatos. A imprensa hereditária e oligárquica escondeu por anos que a ditadura militar torturava e assassinava dissidentes do regime, a mesma imprensa que hoje rende loas a Eunice Paiva, que lutou toda sua vida contra a mentira dessa mesma imprensa.

Nesse processo de esconder a verdade dos fatos, atores como o Movimento Brasil Livre desempenharam papel decisivo. Sua atuação nas redes sociais não se limitou à mobilização política. Estruturou-se na produção sistemática de desinformação, na simplificação deliberada do que estava em jogo e na repetição de enunciados falsos até sua naturalização. E este movimento de tintas fascistas foi acolhido pela imprensa hegemônica da mesma forma que o delinquente Jair Bolsonaro; seus analfabetos políticos mistificadores ganharam até colunas em jornais – para mentir descaradamente.

A cobertura dos fatos por parte de tal imprensa frequentemente ultrapassou o registro objetivo e operou como amplificação da agenda política da direita derrotada nas urnas em quatro eleições seguidas. Misturavam-se deliberadamente os motivos do impeachment com os da Lava Jato. O resultado foi a formação de um imaginário social no qual a ruptura institucional e a violência contra a mulher puderam ser percebidas como normalidade.

Nesse contexto, a misoginia funcionou como catalisador. Não como detalhe, mas como força ativa do golpe. A figura de Dilma Rousseff foi sistematicamente alvo de uma violência que excedia a crítica política e atingia sua condição de mulher. Entre os franco atiradores da imprensa, estavam muitas mulheres que anos mais tarde, hipocritas que são, reclamariam do que a extrema direita fez com a jornalista Patrícia Campos Mello. Em relação a Dilma, a sororidade delas não existiu, como de resto nunca existe quando as vítimas do machismo são mulheres de esquerda – ou meninas estudantes do Irã e Faixa de Gaza.

O caso mais brutal – e revelador do nível de degradação a que se chegou – foi o de adesivos amplamente difundidos à época, colados em tanques de combustível de automóveis, nos quais a presidenta aparecia de pernas abertas, de modo que a mangueira de abastecimento simulava um ato de penetração. A alusão ao estupro era inequívoca. Ainda assim, essa imagem circulou com naturalidade, foi consumida como “piada” e exibida publicamente sem que provocasse a reação proporcional à sua violência.

Quando uma representação dessa natureza se encontra banalizada, o que se revela não é apenas o rebaixamento do debate público, mas a ativação de um imaginário que autoriza a humilhação da mulher como prática política.

Mais grave ainda foi o silêncio – ou mesmo a complacência – de setores da imprensa diante dessa violência. Ao não nomeá-la com a gravidade necessária, contribuíram para sua normalização.

Se algo precisa ser afirmado com clareza hoje, é também o meu respeito por Dilma Rousseff. Sua trajetória, marcada pela resistência à ditadura, pela coragem pessoal e pela dignidade com que enfrentou aquele processo, permanece como um dos elementos mais sólidos do período. Mesmo submetida a uma violência política e simbólica extrema, ela manteve uma postura que honra a história democrática brasileira.

Para aqueles que nasceram em 2016, tudo isso já não é lembrança. É memória em disputa.

É por isso que escrevo.

Não para impor uma versão, mas para insistir numa distinção que não pode ser dissolvida: há fatos. E quando esses fatos são sistematicamente distorcidos, o que se perde não é apenas o passado – é a capacidade de orientar o presente.

A lembrança, quando confrontada com o mundo e sustentada por evidências, pode funcionar como resistência.

Resistência ao apagamento.

Resistência à simplificação.

Resistência à mentira organizada.

Porque, ao fim, o que está em jogo não é apenas o sentido de 2016.

É a sobrevivência dos fatos – e, com ela, a própria possibilidade de verdade na política.

Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. É autor, entre outros livros, de Falsolatria (Edições Sesc SP e Editora Nós) e O anonimato dos afetos escondidos (Tusquest Editores). É pré-candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo.

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