Franceses que não são franceses, ou como se tornar mais otimista

Franceses que não são franceses, ou como se tornar mais otimista

Cena do documentário ‘Swaggers’, de Olivier Babenet (Foto: Divulgação)

O documentário Swagger, de Olivier Babinet, trata da experiência de ser e não ser francês na França. Mas é possível resumir o filme a isso: falar com outras pessoas pode nos tornar mais otimistas

Segundo os últimos dados disponíveis, que são de 2013, Paris tem 2.229.621 habitantes (contando apenas a cidade “entre muros”, deixando de lado os municípios que a contornam, os chamados “subúrbios de Paris”). Desses mais de 2 milhões de habitantes, apenas 31 % são “parisienses de raiz” ou parisiens de souche, como eles dizem por aqui: os parisienses nascidos em Paris. Mas mesmo esses parisienses tão pouco numerosos muito raramente têm pais parisienses. Isto é: 69% dos parisienses têm pais não parisienses. É uma tendência antiga da cidade. Os parisienses de raiz já eram apenas 36% da população no final do século 19. Daí que encontrar um parisiense de souche em Paris é quase como encontrar uma agulha no palheiro. E encontrar um parisiense cujas origens parisienses remontam a mais de uma geração é quase um milagre.

Dados de 2013 mostram que há 330.167 estrangeiros vivendo em Paris, isto é, pessoas que moram, trabalham e/ou estudam em Paris, excluídos os trabalhadores e estudantes sasonais e fronteiriços. Esse número aumenta consideravelmente se a ele acrescentamos as pessoas que obtiveram a nacionalidade francesa ao longo de suas vidas. Juntando os estrangeiros e esse último grupo, temos o grupo dos imigrantes, que perfaz um total de 455.485 habitantes, ou seja, em torno de 20% da população de Paris, o que quer dizer que uma em cada cinco pessoas em Paris é um imigrante.

Dentre os imigrantes, o grupo mais numeroso é o dos argelinos. Em torno de 46.000 argelinos ou franceses nascidos na Argélia vivem hoje em Paris. O número parece grande, mas a ele deve ser acrescentado o número de argelinos que moram nos subúrbios de Paris, que é apenas a quinta cidade em número de argelinos na França. Saint-Denis, Argenteuil e Montreuil, subúrbios de Paris, são as três cidades da região parisiense de mais de 100.000 habitantes que possuem mais imigrantes. Sua imigração é proveniente, principalmente, da Argélia, do Marrocos e de outros países da África, assim como de Portugal. Paris é uma cidade bastante negra e árabe, o que contradiz totalmente o imaginário que se faz do francês típico – e o que me fez bastante feliz quando cheguei aqui. Às vezes Paris é como Madureira, e eu gosto disso.

A presença massiva de negros e árabes é ainda maior, no entanto, do que esses números sugerem, porque dentre os nascidos em Paris há um número considerável de filhos de imigrantes, e boa parte deles são bilíngues. Paris é uma cidade de muitas línguas e de muitas comidas e de muitas cores. Na maioria dos casos, os filhos de imigrantes são ainda bastante ligados à cultura, à comida e aos costumes do país de origem dos seus pais e vivem, por isso, uma experiência bastante peculiar: a de serem e não serem franceses.

Um filme que trata especificamente desse grupo e dessa experiência de ser e não ser francês na França estreou recentemente por aqui. Trata-se do belíssimo e divertidíssimo documentário Swagger, de Olivier Babinet. O filme foi exibido na programação ACID (Associação do Cinema Independente para a sua Difusão) do Festival de Cannes de 2016. A programação ACID existe em Cannes desde 1993 e pretende dar visibilidade a autores insuficientemente difundidos tentando facilitar o lançamento de seus filmes nas salas de cinema. A programação exibe longas-metragens franceses e estrangeiros, de ficção ou documentários. É pouco provável que Swagger seja exibido em circuito no Brasil, mas se você tiver a oportunidade de vê-lo num festival ou mesmo de baixá-lo pela internet, eu recomendo.

Swagger filma onze adolescentes negros e árabes que estudam num liceu em Aulnay-sous-Bois, um desses subúrbios de Paris habitados hoje sobretudo por famílias de imigrantes. Logo no início do documentário, os adolescentes são perguntados se conhecem franceses de souche, “de raiz”. Os meninos e as meninas dão respostas bastante surpreendentes. Aston Gonle, uma adolescente negra, diz: Je connais pas des français de souche (“Eu não conheço franceses de raiz”). Perguntada se ela sabia o que significava a expressão français de souche (“francês de raiz”), ela responde: “Eu não sei. O que é souche?”Abou Fofana, um outro jovem negro, afirma: “Eu não conheço todo mundo no colégio, mas é raro quando tem um francês puro. Eles não estão conosco. Enfim, eles estão na França, mas não conosco. Nós ficaríamos espantados de ver um francês, um puro, um puro francês”. Naïla Hanafi, uma linda menina árabe, fala de um francês de raiz que conheceu na escola como se se tratasse de uma figura mítica: “Ele estava na minha classe no início do ano. Depois ele se mudou. É o único que eu encontrei. Ele era alto, ele era branco, ele tinha olhos azuis. Ele era gentil. E é tudo”. Aïssatou Dia, uma outra adolescente negra, responde do seguinte modo à pergunta: “Jamais, eu acho. Na verdade, talvez sim, mas sem me dar conta de fato. Talvez eu os tenha encontrado, mas talvez eu tenha esquecido”. Outra menina negra, Mariyama Diallo, diz: “Quando eu fui para Paris, eu via mais franceses do que negros e árabes. Isso me pareceu estranho, porque eu tenho o hábito de ver árabes e negros e lá eu só via brancos”. Salimata Gonle, outra adolescente negra, afirma: “Não sei se eles são franceses há muitas gerações, mas eu conheço franceses. Eu tenho uma amiga…” Mas logo depois se dá conta de seu equívoco, rindo: “Ah, não, ela é portuguesa. Ele é um pouco portuguesa”. E ainda um último, Régis N’Kissi, o mais hilário dentre os jovens negros do filme, que diz, talvez com ironia, mas certamente com muito humor, que já viu franceses de raiz em Paris e “que os considera pessoas normais”, não segurando o riso diante do que ele próprio acaba de dizer. Swagger tem momentos sublimes.

O filme situa de início a situação paradoxal desses “franceses que não são franceses” no plano da própria linguagem, como quando Naïla Hanafi, a bela menina árabe suburbana, diz: “Os franceses… quer dizer, nós também somos franceses, mas os franceses…”, ou seja, “os franceses somos mas não somos nós”, o que mostra claramente como ela se sente sendo e não sendo francesa. Ou como na frase de Mariyama Diallo: “mais franceses do que negros e árabes”, como se ser negro e árabe excluísse de saída qualquer possibilidade de participação na identidade francesa.

Swagger, ao mostrar esses “franceses que não são franceses”, vivendo em prédios altíssimos de conjuntos habitacionais de arquitetura melancólica, não se reduz, no entanto, a um retrato dessa condição paradoxal de ser e não ser francês. Embora essa seja a questão de partida, sem dúvida, Olivier Babinet vai pouco a pouco mergulhando na singularidade de cada um desses onze adolescentes. Como se o seu esforço fosse mostrar o que pensam esses franceses que não são franceses para os franceses que são franceses, como ele. Podemos dizer que, em certo sentido, Swagger faz um trabalho de tradução, mesmo que se trate de uma tradução intralinguística. Não há nenhum problema linguístico entre esses jovens, ao contrário, eles falam muito bem um francês de alta qualidade, a ponto de serem capazes, se o quiserem, de imitar o modo como os imigrantes falam, como o faz o jovem indiano Paul, para gargalhada geral dos colegas. O que se traduz aqui é outra coisa: é a possibilidade mesma desses adolescentes se traduzirem para a própria língua que os torna franceses, para a própria linguagem, eu diria, na medida em que só temos acesso a ela através de uma língua singular. Esses adolescentes se tornam, no filme, compreensíveis para todos, franceses e não franceses. A partir desse momento é a própria singularidade de cada um desses meninos e meninas que chega à linguagem, para além de sua condição social ou cultural. E é aí que o documentário teen de Olivier Babinet cresce de maneira vibrante. Em vez de vítimas da sociedade, eles são swaggers, termo inglês, apropriado pelo francês, que bem pode ser traduzido por “fanfarrões”, pessoas que demonstram uma grande autoconfiança. Esses adolescentes, que se veem na estranha condição de pertencer e não pertencer à unidade política e cultural em que vivem, demonstram uma subjetividade complexa, diversa e surpreendente, que aparece a cada cena.

Como quando a pequena Naïla, que odeia o Mickey e as bonecas Barbie, expressa seu desejo de ser arquiteta exatamente para poder construir prédios diferentes daqueles que são construídos nos subúrbios, por arquitetos que não conhecem o subúrbio, e nos quais ninguém quer morar. Ou como quando N’Kissi, que quer ser estilista e tão famoso quanto Beyoncé, expressa sua admiração por Barack Obama, por ser um presidente elegante, que sabe andar, enquanto François Hollande… Ou como quando vemos Paul, o adolescente descendente de indianos, baterista e apaixonado por rock, que só vai para o colégio de terno e gravata, dançar pelas ruas de Aulnay-sous-Bois, dublando When you said goodbye, um antigo rockabilly de Jerry Arnold. Ou como quando ouvimos a doce e triste Aïssatou dizer que não se lembra do seu nome, como um modo de contornar a dificuldade que tem de pronunciá-lo. Apesar da sua enorme timidez e desconfiança, ela diz: “Falar com outras pessoas me tornou mais otimista”. Swagger pode ser resumido a isso: falar com outras pessoas pode nos tornar mais otimistas. E foi por isso que o cineasta francês Olivier Babinet resolveu falar com outras pessoas: com franceses que não são franceses. Para se tornar mais otimista.

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