Fazer do fragmento um meio de vida

Fazer do fragmento um meio de vida

(Foto: Eder Cardoso/ Iluminuras)

Danielle Magalhães

Fragmentos: sobre o que se escreve de uma psicanálise é uma prática de escrita que se sustenta enquanto desejo. Respeitando o tempo do desejo – que só se mantém enquanto não se realiza, que não obedece ao tempo cronológico –, ele reivindica uma leitura que menos se cerca do “sobre o que se escreve” e mais se movimenta no terreno movediço, feito de rastros, do como se inscreve. Não na fórmula reducionista da receita do “como escrever”. Longe disso. O que quero dizer é que só é possível se aproximar destes Fragmentos se o movimento de leitura não for encontrar um objeto (por exemplo, a morte, o amor, o luto, a infância), mas deslizar no próprio movimento do como esta escritura é tecida. Dizendo de outra forma: em como é dado corpo aos fragmentos.

Não há fragmento sem corpo. E, se isso é sobre a vida, há desejo. Desejo também de fazer do fragmento – isso que é precário, isso que também já problematizou as fronteiras entre a poesia e a filosofia pelos românticos alemães, como um gênero híbrido que já se abre para a criação, para o ato criativo – um meio, um meio de possibilidade em que a vida acontece não só em um e em outro, mas entre um e outro, no intervalo entre um e outro. Ou seja, no entre. O livro é um encontro não só do duplo e do outro que há em cada “eu” – aliás, estes Fragmentos atestam muito bem que “eu é um outro”, como disse Rimbaud, que só há eutros (termo de Rodrigo Garcia Lopes, apropriado pela autora), que o eu está contido no outro (assim como “outra” está contida em “autora”) – mas também o encontro de um reflexo invertido, desde a capa: as duas partes do livro (cada uma constituída por duas partes: “Autoria” e “Escrita”) se encontram pelo meio, em um reflexo invertido. O livro é ao mesmo tempo uma e outra parte e se faz entre uma e outra, constituindo, nele, dois livros diferentes. Ele se faz na impossibilidade de o apreender em uma só definição: entre ele e ele, entre a literatura e a psicanálise, entre a linguagem literária e a acadêmica, entre a teoria e o testemunho, entre a narrativa e a impossibilidade de narrar, entre o romance e o poema, entre a prosa e a poesia, entre o olho que desliza pelos significantes e a escuta que amplifica e transmuta os significados, entre a letra e a escuta, entre vozes de escritores que Luciana desloca dos lugares de origem, conferindo-lhes o lugar de títulos dos fragmentos, expropriando-as e fazendo destas vozes também a sua voz, entre voz e voz, entre letra e letra, entre a palavra e o silêncio.

A possibilidade do sentido acontece quando se fura a temporalidade lógica da disposição das palavras. Talvez o tempo em que a vida acontece em maior potência seja o quase: entre “quase-viva” e “quase-morta” sente-se a iminência, e talvez seja este o tempo que “garante que vivo”. E talvez seja este, o “quase”, o tempo destes fragmentos. O tempo da iminência, que deve permanecer irrealizado e incompleto, e que só existe antes do que já chegou a começar, só existe enquanto potência. O tempo destes Fragmentos é o tempo da invenção. Como tal, é um tempo inarticulado e em descompasso.

Se a nós, hoje, é impossível transmitir experiências tal como a tradição oral dos antigos, que passavam as narrativas de geração para geração, o que este livro transmite, na impossibilidade de uma transmissão, não é nem o fato ocorrido e nem mesmo a descrição de uma memória, mas a poesia que resta disso. Poder não contar sua história se transforma em poder de invenção. Se cada fragmento contém um dito, o que cada dito abre é a possibilidade de um não-dito que excede os próprios fragmentos. Se são restos, como diz Salum, é isso que os faz decisivamente poéticos: como ruínas, apontam para o que se salva do que esteve ou está na iminência de extinção e, ao mesmo tempo, se abre como força-motriz de todo movimento criador, afirmando a potência criadora e criativa da palavra que surge não só no “deslizamento” dos significantes, mas também entre os silêncios que existem entre um e outro. É na impossibilidade da fala como ordenação sistemática da vida que a linguagem poética acontece, fazendo do corte a possibilidade da forma, não o contrário.

Neste livro, falar de morte é falar de amor. Entre um fragmento e outro, “vidamorte”. Este quase-diário de luto mostra que escrever sobre a morte é escrever sobre a vida. “Quase” porque isto não é um diário e não dá sentido a perdas, mas cria vida. Do corpo que dança lutando contra o tempo e que luta dançando contra o tempo ao corpo que se depara com a morte, do corpo que dança para aprender a cair ao corpo que cai insustentável pela leveza, dos olhos que sustentam o azul da leveza aos olhos que caem pelo efeito do tempo nas pálpebras,do olhar que se vê envelhecendo e vê o tempo agindo sobre o corpo ao olhar que se afronta com o tempo que sujeita toda vida à morte e todo corpo à deformação, se tudo começa pelo e com o corpo, pela e com a mão – aquilo que se estende ao outro –, se tudo começa pela e com a vida, se os Fragmentos abrem e fecham com a morte, é porque tudo se movimenta também com o amor: “Vamos voltar a falar de morte?” apenas indica a torção variante deste título que virá como uma frase–de outrem – ao final do fragmento: “Tá bom! Vamos variar, agora já podemos falar de amor!”. Luciana vai aos mortos como quem vai ao amor. Amor e morte se entrelaçam no mesmo eixo que os desarticula: na vida:amo(r)te.

Nestes Fragmentos, há a “alusão” de que apreender algo nas mãos como um objeto é uma “ilusão”. Ter algo ou alguém – como um objeto – nas mãos não é se integrar de posse, ao contrário: é desconhecer-se. Podemos entrever isso em “Feminilidade”, que leva a crer que o que poderia ser chamado de “feminino” comparece aqui como sinônimo de desconhecer-se: “E me desconheço no mais puro de meus restos.” O feminino ou a feminilidade é o que não tem posse integral nem do outro nem de si. Ter nas mãos, ao contrário de aludir à posse, acena mais a uma entrega. No acolher, o perder-se. O feminino, como abertura ao “desconhecer-se”, aparece como subversão do objeto e como possibilidade do ver-se (entregue ao) outro.

Em uma das duas biografias contidas no livro, está escrito sobre a autora: “Seu maior sonho é aprender a escrever”. O que estes Fragmentos sugerem é que só se aprende a escrever se não se chega ao saber escrever. Se as formas são aquilo que também dão corpo, e se dar corpo está intimamente ligado ao desejo – como atestamos na linda frase: “As formas são fantasmações que suportam as leis do desejo” –, então a escolha de fazer do fragmento um meio, uma forma de vida, é sustentar ao máximo estes textos enquanto desejo, enquanto algo que não se cumpre e que não tem um fim em si – ao contrário do saber como na linguagem lógica e linear –, enquanto algo que, paradoxalmente, está sempre apontando para o informe, para o que existe na incompletude, para o que não se enrijece, para o que não termina. Se há um saber, ele é um “saber esquisito” como o dos poetas, um saber que não se quer claro. Ele reivindica olhos que não desejam capturar a clareza. Uma autobiografia não acontece se se centra na – e se encerra sobre a – vida às claras do holofote do “eu”.

Não é fácil sustentar o peso das sombras, o peso de uma vida e o peso da vida em um corpo. Sempre há o risco de morrer “sobrecarregada pelo outro”, sempre há o risco de o outro cair por sobre você. Mas inevitável é a queda: “Ele insiste:/ ‘Vem? Eu te seguro.’// Não há garantias./ Eu vou/ e caio.”Mas a impossibilidade de, num “passo a dois”, os dois sustentarem um ao outro é o que torna possível o passo: o mesmo pas de deux, “não há dois”, é o que permite o outro pas de deux, “passo de dois”.No mesmo, o outro. Só há como ir junto se sustentado pela possibilidade iminente da queda.

Estes Fragmentos mostram que não só pode haver desejo no fragmento, no corpo em fragmento e no fragmento do corpo, mas que só quem “sabe” escrever é quem sustenta o escrever sempre como um “querer-escrever”, como diz Roland Barthes, como uma prática que se mantém no campo potencial do desejo, do que nunca chega a ser ou a assumir uma forma nítida e específica. “‘o instante de ver’” é sempre se deparar com a página em branco. Em toda “escrição” há “um branco a cegar e denunciar os (não) ditos da estória.” É preciso ir com uma cegueira necessária se se quer enxergar. O amor só faz ver porque ele é cego: porque “‘o amor nos torna inventivos’”.

Eu poderia dizer que “sobre o que se escreve de uma psicanálise” é o que se inventa entre leitura e escrita, é a forma outra que nasce da leitura viva de um texto – viva porque desde já faz mover um corpo. Mas eu poderia dizer também outra coisa: gostaria de transformar o título em uma pergunta: (sobre) o que se escreve de uma psicanálise? Gostaria de responder com os restos (toda uma vida) que o livro me deu: uma poética. Acredito que, com isso, haverá desejo suficiente para cada um fazer, de seus fragmentos, vida(s). E só sei que o sonho de Luciana já se tornou realidade – que hoje nos cai como um presente.

Danielle Magalhães é poeta e doutoranda em Teoria Literária pela UFRJ.

fragmentos-perspectiva-w1-800x800Fragmentos: sobre o que se escreve de uma psicanálise
Luciana K. P. Salum
Iluminuras
R$ 47 – 164 págs.

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Setembro

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