esse pequeno poema rouba & expõe as joias da cultura ocidental
Napoleão cruzando os alpes (1800)/jacques-louis david/wikimedia commons
a Colônia & os processos
da sifilização ocidental mancham meus dedos
meus passos na prancha do navio
os tubarões logo abaixo
sob o sol aperto os olhos, Napoleão
me saúda
em língua perigosa me beija
à força – o lapso
de Napoleão, o lapso
linguístico do grande corsário
veja bem, o Louvre
a pirâmide vítrea que brilha
a distância desde o Ártico
a pirâmide mais que desejada onde
a Humanidade perdeu sua humanidade
a obscuridade gelada guarda as relíquias
as pinturas gravuras esculturas
os fósseis ossos ossários
de mulheres decapitadas
de culturas mortas – impregnadas
da fumaça dos cachimbos dos infames
bandeirantes de barro
(se você se aproximar, verá
como as imagens esfarelam
sob a ponta dos dedos)
a vida não é justa com as mulheres
tenho 33 anos
estou à beira do colapso
o mundo à beira do precipício
42 graus à sombra hoje
um dia de verão sem trégua
sem trégua nossa ocupação no globo
passeio pelas esquinas do Louvre
o lusco-fusco das últimas luzes
sendo apagadas – uma a uma
enfio meus dedos num buraco
que está em mim & sobe pelas paredes
entre um Goya & um El Greco
ali, bem no meio
dos dois neurônios de meu pai insiro
dois dedos – uma bomba
(uma granada)
puxo o pino, respiro
o alívio banha meu corpo em largas cascatas
não corro, antes me faço
de estátua, paro
rogada, acendo um cigarro
& assisto à destruição em massa
(às vezes as pessoas erram
& você tem de aprender
a perdoá-las)
as mulheres & as crianças
são as primeiras a abandonar navios
é difícil ancorar o espaço
& eu, que não sou mulher nem criança
nem navio ou planta
gaivota, tubarão ou Napoleão
eu, inominável que desliza por avenidas
não abandono este navio:
antes,
o esculacho
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Daniela Rezende, 35, mora em São Paulo, é arte-educadora em museus e espaços culturais, poeta e pesquisadora na área de literatura brasileira





