Epistemofobia: O perigo dos negacionismos teóricos
Todo discurso tem função performativa no sentido de causar efeitos gerais sobre a realidade, mesmo quando só busca descrevê-la. Embora constatações sobre fatos, como “está chovendo” ou “não está chovendo”, possam ser tratadas como neutras, elas somente o são se recortadas e abstraídas dos contextos nos quais são ditas. Uma comparação pode nos ajudar a entender essa ideia. Assim como as palavras “em estado de dicionário” em A rosa do povo, de Carlos Drummond, estariam prontas para a poesia, as frases enquanto enunciados ou proposições lógicas, por assim dizer, “em estado de lógica ou de filosofia analítica” estariam prontas para a vida.
Contudo, assim como a vida cotidiana não convive tão bem com a poesia, tampouco é benquista a lógica. Elas representam extremos de abstração e, portanto, soam “inúteis” no contexto dos sistemas devoradores da vida que se põem, eles mesmos, no lugar da vida impedindo seu germinar em direções criativas, propriamente vitais, movidas mais por “eros” do que por “tanatos”, para citar um par que fez história na reflexão sobre o desejo humano. Essa “vida” comandada por tanatos, ou seja, na contradição de ser comandada pelo princípio da morte que a nega, não está pronta para a poesia e para a lógica. Não está à espera da sensibilidade das proposições porque segue na brutalidade da sobrevivência ou da destruição, muitas vezes mais prazerosa. Em outras palavras, no atual tempo-espaço da experiência a que fenomenólogos chamaram de “mundo da vida”, a poesia e
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