Entre tropas militares nas favelas, a volta do Jornal do Brasil às bancas do Rio

Entre tropas militares nas favelas, a volta do Jornal do Brasil às bancas do Rio
Tradicional jornal do Rio, JB voltou a circular no dia 25 de fevereiro de 2018 (Reprodução/Arte Revista CULT)

 

A novidade que chegou, principalmente para a cidade do Rio de Janeiro (além do estado de sítio informal decretado pelo presidente Temer nas favelas com a intervenção militar), foi a volta do Jornal do Brasil para as bancas.

Desde 2010, o centenário jornal carioca deixou de ter a versão impressa e se restringir à internet. Neste período, houve várias idas e vindas, com transferência da empresa, negociações de débitos (inclusive trabalhistas) e uma operação de venda do controle da marca “Jornal do Brasil” do empresário baiano Nelson Tanure, dono da Companhia das Docas de Santos, que tinha arrematado a empresa jornalística da família Nascimento Brito em 2001, para o empresário-político Omar Resende Peres, conhecido como “Catito” no ano passado. A compra do JB por Catito foi motivada pelo interesse de Tanure em vendê-la por querer participar do Conselho Administrativo da empresa de telefonia Oi. A legislação brasileira proíbe que proprietários de empresas de comunicação estejam no comando de empresas de telefonia.

Em uma matéria assinada por Consuelo Diegues, na revista Piauí de março de 2017, Catito já demonstrou o seu plano de relançar o Jornal do Brasil impresso mesmo reconhecendo que os jornais impressos tendem a acabar. E fez isso por dois motivos. Primeiro, por se tratar de uma marca forte no Rio de Janeiro. Disse ele que nunca ousaria lançar um jornal impresso novo, mas em se tratando de relançamento de um jornal tradicional como o JB, a história é outra. E, segundo, que montou um plano de negócios centrado na venda exclusivamente em bancas no Rio de Janeiro e Brasília e uma equipe “enxuta” de 30 profissionais, entre jornalistas e colaboradores, que produzirão conteúdos noticiosos próprios em apenas duas editorias: política nacional e noticiário local. Todas as demais serão alimentadas por material vindo de agências de notícias nacional (Agência Estado) e internacionais.

Nesta matéria, Catito também confessa que o plano de circulação da edição impressa do Jornal do Brasil tem prazo determinado. “Dois ou três anos”, segundo ele, o tempo suficiente para sustentar a transferência da marca para a plataforma digital, sem contar que o seu projeto também visa explorar outras modalidades, como rádio e televisão pela web.

Um dado interessante neste episódio é o fato do projeto ter sido construído por um empresário que atua em vários outros ramos, não exclusivamente na comunicação. Catito é empresário do ramo naval – foi dono do estaleiro Mauá, vendido depois para o atual dono da empresa Avianca, Germán Efromovich. Também foi presidente da Seapar – Navegação Marítima, e presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Naval. No campo da comunicação, Catito foi proprietário de uma afiliada da Globo em Juiz de Fora (1997) e do grupo Panorama, que teve jornal e editora nesta mesma cidade, além de uma empresa de promoção de eventos, a Pan Show.

Suas tentativas na carreira política não foram frutíferas. Tentou vagas para deputado federal, senado e até a prefeitura municipal de Juiz de Fora, sendo derrotados em todos estes pleitos. No ano passado, lançou-se pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo PDT. Define-se como um brizolista e apoiador da candidatura presidencial de Ciro Gomes.

Este breve perfil do protagonista do relançamento do jornal é importante para observarmos os valores simbólicos que circulam esta empreitada. Primeiro, que ela está diretamente vinculada a uma recuperação de um sentimento idílico do Rio de Janeiro como “capital histórica” do Brasil, quase que um sentimento de deja vu dos anos 1960. E nada melhor que um símbolo desta época, o Jornal do Brasil, para sintetizar este sentimento.

Em tempos de total sucateamento do estado do Rio de Janeiro, com várias das suas lideranças mais importantes sendo presas, intervenção militar na segurança pública, estádio do Maracanã impedido de ser usado – e a final da Taça Guanabara sendo transferida para o estado do Espírito Santo -, e até a facção do crime organizada mais tradicional do estado, o Comando Vermelho, sendo ameaçada por uma facção paulista – o PCC –, a necessidade de recuperar um orgulho ferido se transforma em oportunidade de negócio.

Segundo, a própria natureza deste empreendimento possibilita um plano de negócios enxuto e que, teoricamente, caberia dentro de uma situação econômica difícil para os meios impressos. Produção de conteúdo somente local e de política nacional. Distribuição somente no Rio de Janeiro e Brasília. Redação enxuta. Vendas em bancas, resgatando o hábito de ir ao jornaleiro adquirir o jornal.

Um relativo pluralismo na redação comandada por um jornalista que tem posições fortemente de apoio à política neoliberal, como Gilberto Cortês (que foi até comentarista da Globo News), mas que comporta Octávio Costa, editor de política, que foi próximo ao PT e também da direção da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) ou ainda Teresa Cruvinel, ex-articulista do portal Brasil 247, resgatando os tempos em que as redações dos jornais eram espaços de exercício da autonomia intelectual e do livre pensar.

Quando se lançou pré-candidato ao governo do Rio, Catito disse que uma das soluções para a economia combalida do estado era o refortalecimento da indústria naval e dos estaleiros. A ex-senadora Benedita da Silva, no final dos anos 1990, disse algo semelhante, que o sucateamento deste setor teve impactos grandes no desemprego da população do Rio. Enfim, um projeto político, empresarial e jornalístico na contracorrente da hipermodernidade.

Mas quando Catito afirma que espera que o jornal impresso dure em torno de três anos para dar suporte para a plataforma digital, todos estes retornos também terão vida curta. Serão momentos nostálgicos para aplacar a dor da dura realidade do Rio de Janeiro, submetido a um estado de sítio informal. Mas poderão significar pequenos espaços para despertar o que resta de reflexão em tempos que o culto à irracionalidade ganha força nas redes. Pelo menos, o povo do Rio de Janeiro terá a sua disposição mais um jornal na banca, além do Globo.

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