Enfrentando a misoginia online: O direito em disputa

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Enfrentando a misoginia online: O direito em disputa
A atriz Carolina Dieckmann, vítima de vazamento de fotos íntimas em 2012, dá nome à lei que tipifica delitos de invasão de dispositivo informático alheio e roubo de dados (Rede Globo/Divulgação)
Quando Bia, uma jovem jornalista, chegou em casa, foi surpreendida por uma pilha de caixas. Dentro de uma, minhocas. De outra, objetos eróticos. Outras continham camisetas com uma foto sua e um xingamento sobre sua aparência, que também foram enviadas – ela soube depois – para todos os seus vizinhos. Bia ficou perplexa ao ver um entregador chegando com um poste de iluminação de concreto. Sem saber o que fazer com tudo aquilo, percebeu um envelope endereçado a ela, sem remetente. Dentro, um papel com os dizeres: “Não vamos parar até que você se mate”. O crime de Bia tinha sido escrever um texto sobre o machismo no mundo nerd. O texto caiu em um fórum de discussão misógino, um dos espaços conhecidos como chans – em que os usuários postam anonimamente. Ali reinava a subcultura de lulz e trolling (descrita por Whitney Phillips, em 2016, como uma atividade de lazer e uma estratégia de negócios que encontrou no ambiente online um espaço confortável para se desenvolver). Um dos membros do fórum dizia ter acesso a uma base de dados do Serasa e divulgou o endereço da jornalista. A revelação de dados privados em espaços públicos para fins maliciosos é conhecida como doxxing. O ano era 2015. Bia levou o caso a uma delegacia, saiu de casa, desapareceu da rede por alguns meses. Nunca mais foi contatada pela polícia e resolveu parar de escrever sobre feminismo. Também em 2015 a mídia divulgou dois suicídios na periferia de São Paulo por causa das listas das “mais vadias” – “Top 10” –, feitas por adolescentes para classificar men

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