Do coração do Brasil para a biblioteca do mundo: III. A poesia que viaja de uma pessoa para a outra
Edição do mês
Bruna Dantas Lobato (Foto: Divulgação) | Eric M.B. Becker (Foto: Divulgação)
Da sensibilidade do editor
Procurada por Jeremy Spencer (que já havia adquirido os direitos de Preocupações, de Ana Guadalupe), Bruna Dantas Lobato afirma ser “muito gratificante ver poesia publicada nos Estados Unidos – por um motivo maior, que não seja dinheiro”, e sublinha que os tradutores contratados pela microeditora Scrambler são remunerados: “ainda é um tanto simbólico, mas o valor chega a ser maior do que o oferecido por editoras mais comerciais”.
Dantas Lobato, que nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, vive há 16 anos nos Estados Unidos; ela mudou-se para fazer graduação, e acabou ficando. Fez um MFA [Master of Fine Arts], de ficção, na NYU; fez outro, de tradução, na University of Iowa – hoje reside em Grinnell, em Iowa, onde leciona (e de onde falou, por telefone).
Após tornar-se a primeira brasileira, junto ao autor Stênio Gardel, a vencer um National Book Award – pela tradução do romance A palavra que resta (Companhia das Letras, 2021); nos EUA, The Words That Remain (New Vessel Press, 2023) –, Dantas Lobato publicou sua própria narrativa longa, escrita tanto em inglês quanto em português: Blue Light Hours saiu pela Black Cat/Grove Atlantic em 2024 e, como Horas azuis, pela Companhia das Letras em 2025.
Em paralelo com os poemas de Guadalupe, ela está terminado de traduzir um livro de contos de Caio Fernando Abreu para a Archipelago Books – e, de certo modo, flertando com as origens: sua estreia na tradução, afinal, foi com Moldy Strawberries [Morangos mofados], de Caio Fernando Abreu, pela mesma editora. Na mesma chave, Dantas Lobato estará em Natal no final de maio: na Ocupação Literária 2026.
Jeremy Spencer também procurou Eric M.B. Becker – tradutor de autores como Mia Couto e Djaimilia Pereira de Almeida, e ex-editor da prestigiada revista eletrônica Words Without Borders – para traduzir o livro mais recente de Alice Sant’Anna. Mas a relação entre Becker e Sant’Anna já existia de versos mais antigos.
Becker, que nasceu em Saint Paul, Minnesota, em 1984, e vive na cidade de Nova York, descobriu o trabalho da poeta por acaso, através do livro Rabo de baleia (Cosac Naify, 2013); o tradutor, então, convidou-a para participar da antologia Glossolália: Women Writing Brazil, publicação da PEN America, de 2016, co-editada por Becker e Mirna Queiroz.
Mais tarde, veio de Spencer, o editor da Scrambler, um convite para que Becker traduzisse Pé do ouvido, de Sant’Anna. Por gostar do trabalho da poeta, aceitou – e Speak Low veio a público em 2021. Agora, a história se repete com Acrobata.
Em paralelo com o poema narrativo de Sant’Anna, o tradutor está finalizando um projeto (que vem preparando desde a época da pandemia, junto a Miguel Conde) para a Oxford University Press: uma reunião de contos e crônicas sobre o Rio de Janeiro – desde Machado de Assis, passando por João do Rio, Rubem Braga e Sérgio Sant’Anna, até Marta Batalha e Carlos Eduardo Pereira.
“Acredito que, nos Estados Unidos, para a prosa em tradução – principalmente romances, e mesmo os experimentais – há um mercado; a poesia, porém, tem circulação mais restrita, mais precária. Em contrapartida, ela desenvolve seus caminhos naturais”, considera Becker, em conversa por telefone. “Além de que os poetas são generosos, isso contribui para que o trabalho atravesse fronteiras.”
Dantas Lobato reflete na mesma direção: “Um livro de poesia é capaz de viajar de uma pessoa para outra, apenas com o burburinho”; a tradutora e romancista sente que há, nos Estados Unidos, “leitores dedicados a ler poesia e, mais, a ler poesia internacional” – e que a escolha dos títulos, no caso da Scrambler, está atrelada à “sensibilidade do editor”.
O editor – totalmente livre
O primeiro volume de literatura brasileira publicado pela Scrambler foi This House [Esta casa], uma seleta de poemas de Ana Martins Marques, em 2017. A poeta mineira foi sugerida ao editor Jeremy Spencer pela tradutora Elisa Wouk Almino, que vive nos EUA.
Spencer nasceu em South Bend, Indiana, mas cresceu na Califórnia e – e começou a fazer zines (“The Scrambler”) em 2003. Marido de uma brasileira, ele tem familiaridade com a língua portuguesa; e vem publicando autores da América do Sul há cerca de 15 anos.
Por telefone, o editor relata que – ainda antes de Martins Marques – conheceu, na internet, o trabalho de Ana Guadalupe. “Nunca nos encontramos pessoalmente, mas ficamos amigos próximos. Publiquei poemas de Guadalupe no zine, e sempre havia um plano de fazer algo maior”, diz.
A Scrambler não costuma se inscrever em editais para apoio de traduções; prefere manter-se pequena, com seu ritmo desacelerado e totalmente livre, “sem depender do que quer que seja para editar os livros”. Nos Estados Unidos, ele argumenta, “muitos dos recursos para a cultura foram cortados pela atual administração”.
Ainda que Spencer tenha familiaridade com a língua, ele confia plenamente nos tradutores que contrata e evita cotejar traduções e originais – analisa, mais de perto, o resultado em inglês. Os livros de Ana Guadalupe e Alice Sant’Anna devem sair entre o final de 2026 e o início de 2027.
O edital
O Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, promovido pela Fundação Biblioteca Nacional, existe desde 1991 e “tem como objetivo ampliar a circulação de autores brasileiros no mercado editorial internacional, por meio da concessão de apoio financeiro a editoras estrangeiras interessadas em traduzir, publicar, difundir e comercializar obras originalmente publicadas em português no Brasil”.
Mais de 1.500 projetos já se beneficiaram do programa – com aumento expressivo de apoios após 2010 (entre 1991 e 2009, apenas 151 projetos foram contemplados). Verônica Lessa, coordenadora geral de cooperação e difusão da Biblioteca Nacional, em conversa por telefone, explica que neste ano o edital ficará aberto entre junho e julho; dois milhões de reais serão divididos em bolsas de 1.000 a 6.000 dólares, destinadas a várias editoras do mundo inteiro.
Uma comissão avaliadora analisará as inscrições – feitas pelas editoras; cerca de 300 inscrições são feitas anualmente. Em um primeiro momento, as editoras precisam enviar um formulário preenchido e anexar o currículo do tradutor; em outra etapa, diversos documentos devem ser apresentados (como “cópia do contrato de cessão de direitos autorais”, “declaração do tradutor com eferência ao valor acordado com a editora para o trabalho de tradução da obra”, entre outros).
Desde a criação do programa, 90 apoios foram concedidos a editoras estadunidenses; 9 para livros de poemas: em 2010, Sol sanguíneo (Milkweed Editions), de Salgado Maranhão; em 2013, Ex-Voto (Tupelo Press), de Adélia Prado, e A pelagem da tigra (White Pine Press), de Salgado Maranhão; em 2017, O país não é o mapa (Ugly Duckling Presse), de Marília Garcia; em 2022, Poética Secreta (Soberscove Press), de Hélio Oiticica, e Galáxias (Ugly Duckling Presse), de Haroldo de Campos; e, por fim, em 2025, os três livros da World Poetry: de Astrid Cabral, Ricardo Domeneck e Waly Salomão.
Imposto recentemente, um desafio para a elaboração do edital é a hipótese de que traduções sejam feitas por inteligência artificial. Para 2026, portanto, foi inserida uma cláusula sobre o uso de IA – com o intuito de preservar a autoria intelectual, a qualidade literária da tradução e a integridade da obra apoiada pelo programa. “Ao longo dos anos, vamos percebendo as necessidades de mudança”, Lessa diz.
A expectativa é que mais de 300 projetos sejam inscritos em 2026. E dezenas desses projetos serão contemplados, traduzidos e publicados. E dessa forma – e de outras: seja quais forem seus caminhos, com ou sem auxílios de editais – a literatura e a poesia brasileiras prosseguirão gerando burburinhos para viajarem de muitas pessoas a outras tantas.





