Do coração do Brasil para a biblioteca do mundo: II. Valendo-se de auxílios variados
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Matvei Yankelevich (Foto: Marco Gugliarelli/Civitella Ranieri Foundation/Divulgação) | Ricardo Domeneck (Foto: Mecky)
Poesia do mundo
“O mercado para tradução nos Estados Unidos sempre foi pequeno”, atesta Luiz Fernando Valente, professor da Brown University. De acordo com o site da ALTA, 3% dos livros publicados no país são traduções.
Na contramão, a jovem World Poetry, sem fins lucrativos, em atividade há nove anos, tem 100% de seu foco em poesia traduzida para o inglês. Com o conceito, conta o editor Matvei Yankelevich, de “valorizar o trabalho dos tradutores e valorizar as traduções artísticas, procurando trazer à tona um vasto espectro de vozes internacionais que não estariam disponíveis de outra forma nos Estados Unidos”.
Yankelevich nasceu em Moscou, na União Soviética, mas (transcorrido um parêntesis de alguns meses na Itália), chegando aos Estados Unidos em 1977, cresceu em Boston e se mudou para Nova York em 1997 – para se tornar poeta, tradutor e editor.
Um dos fundadores do proeminente coletivo editorial Ugly Duckling Presse – que, desde 1993, publicou mais de 400 títulos –, ele passa, atualmente, uma temporada em São Paulo.
Cidade que Yankelevich observa, do nono andar de um edifício na Santa Cecília, no apartamento onde vive com a companheira, Rebecca Watson Horn – artista visual estadunidense –, ao discorrer sobre edição e poesia.
Foi Watson Horn quem atraiu o editor de Astrid Cabral à capital paulista, em dezembro. A artista chegara no mês anterior, para começar a preparar as telas que exibirá neste mês em exposição individual na galeria Fortes D’Aloia & Gabriel.
Durante a fase paulistana, o tempo de Yankelevich é dividido entre a própria produção poética, uma tradução de Óssip Mandelstam – projeto que desenvolve há quase 20 anos, com o cotradutor John High – e o trabalho remoto como editor em duas casas: World Poetry e Winter Editions.
Atento às vanguardas e aos nomes não tão óbvios, Yankelevich vem formando, no catálogo da World Poetry, uma biblioteca de livros de todo o mundo (e expandindo o panorama literário do que é vertido para a língua inglesa). Há, nessa “biblioteca”, livros traduzidos do basco, do persa, do grego, do românico, do indonésio.
Normalmente, durante o processo editorial, Yankelevich contrata ao menos um leitor que conheça a língua de partida, o que, no entanto, ele considera um detalhe: “Porque o tradutor já domina a língua de partida; o mais importante, na verdade, é ter leitores que entendam de poesia na língua de chegada”.
De tudo o que já publicou, após refletir bastante a respeito, ele destacaria Compleat Catalogue of Comedic Novelties [inédito no Brasil], do russo Lev Rubinstein: um dos livros que fez para a Ugly Duckling Presse, em 2004 – o título, que está esgotado, será reeditado em breve pela World Poetry.
Contudo, aproveitando que está por aqui, o editor não poderia deixar de mencionar a publicação – pela Winter Editions em coedição com a Soberscove Press, em 2023 – do volume Secret Poetics [Poética secreta], de Hélio Oiticica. Traduzido por Rebecca Kosick, com ensaios de Kosick e de Pedro Erber, o livro dispõe, em paralelo, reproduções dos manuscritos dos poemas do artista carioca, escritos entre 1964 e 1966, e suas versões para o inglês.
Os manuscritos originais dos poemas estavam na casa da família de Oiticica, no Rio de Janeiro, atingida por um incêndio em 2009 – e foram destruídos junto a centenas de obras do acervo. Versos que teriam se perdido, não fossem as fotografias de Kosick.
Poesia do Brasil no mundo estadunidense
Yankelevich não havia lido os dois volumes prévios de Astrid Cabral publicados nos Estados Unidos. Spotlight on the Word/Palavra na berlinda chegou-lhe através de Levitin – tradutor que conhece há anos, “participativo na ALTA Conference”. E a Palavra de Cabral foi aprovada. “O livro é sucinto e tem um toque leve: ele agarra você com rapidez”, pondera o editor.
Outro brasileiro, de outra geração, teve publicação simultânea pela World Poetry. O paulista Ricardo Domeneck, nascido em 1977, em Bebedouro, São Paulo, acaba de lançar First Epistle to the Amphibians, com tradução de Chris Daniels (que já verteu para o inglês obras de autores como Orides Fontela e Fernando Pessoa). É uma seleção de poemas, bilíngues, reunidos especificamente para a edição estadunidense.
Daniels revela, no posfácio do livro, que trabalhou em colaboração com Domeneck: produziu “primeiras versões”, trocou e-mails e mensagens, e fez chamadas de vídeo com o poeta “para discutir soluções, correções e revisões”.
Por telefone, Domeneck salienta o caso do poema “Os afazeres domésticos”/“Household Chores”, em que a palavra desnaturados foi transposta para denatured – uma decisão conjunta, “privilegiando mais a etimologia da palavra do que a palavra em si”. O poeta dizia ao tradutor que às vezes “era necessário traí-lo para ser fiel ao seu trabalho”.
Entre abril e maio, acompanhado por Daniels, o poeta fez 17 eventos de lançamento de First Epistle to the Amphibians, em 12 cidades nos Estados Unidos. Para auxiliar na costura das apresentações, a World Poetry contratou – como consultora de marketing – a brasileira, de Florianópolis, Jéssica Sabatini. “Para um poeta brasileiro, foi uma turnê prolongada”, ela avalia por telefone.
Antes de ingressar nos bastidores das letras brasileiras e latino-americanas traduzidas, Sabatini trabalhou com marketing na Sony Music Brasil durante 8 anos; então, em 2023, mudou-se para a Califórnia, fez um curso de gestão de entretenimento na UCLA, e hoje vive em São Francisco.
“Acionei contatos compartilhados pela World Poetry e abri novas portas em universidades e livrarias”, Sabatini esclarece. Os eventos aconteceram em lugares distintos: desde o Consulado-Geral do Brasil em Nova York até um diner na Filadélfia – em que o poeta Jason Mitchell, dono do restaurante, organiza a série FOHLL (Frank O’Hara’s Last Lover) há 13 anos –, além de universidades.
O giro se encerrou com uma apresentação em Los Angeles, na casa de Je Hofer, poeta. Era de Los Angeles que Domeneck falava. “Cada leitura era definida pelo ambiente”, comenta o autor de Cabeça de galinha no chão de cimento (Editora 34, 2023; premiado com o Jabuti).
O poeta morou entre 1994 e 1995 nos Estados Unidos, em Louisiana, com uma bolsa de estudos; e havia retornado ao país pela última vez em 1996. Ele – que afirma pertencer a “uma geração vinculada à poesia lírica, à performance, à tradição oral”; ao mesmo tempo, “uma geração que não é mais uma promessa, que deixou sua marca na poesia brasileira” – mora desde 2002 na capital da Alemanha: “Só em Berlim é possível viver de leituras, de apresentações como poeta”.
Na sequência da turnê estadunidense, o poeta iniciou uma pelo brasil: com paradas em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Ouro Preto e Curitiba – para divulgar dois livros de 2026: A cidadania das bonecas de pano (Ars et Vita) e Memorando: Maximin (Ercolano). Passos que vêm sendo captados pelo cineasta Eugen Bräunig e equipes: o alemão registrou lançamentos de Domeneck a fim de produzir um documentário a partir do material.
Nos Estados Unidos, tanto o livro de Domeneck quanto o de Astrid Cabral foram publicados com apoio da Fundação Biblioteca Nacional, do Ministério da Cultura do Brasil e do Instituto Guimarães Rosa, do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. O de Oiticica, com apoio da Fundação Biblioteca Nacional e do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Para a coletânea de Domeneck, adicionou-se um apoio extra de Eugen Bräunig.
São dados suficientes para demonstrar o quanto editais e auxílios variados são imprescindíveis para a circulação da arte e da poesia brasileiras no exterior.
Em 2025, mais de 100 propostas foram contempladas pelo Edital de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, da Fundação Biblioteca Nacional – dentre as quais, 12 para livros publicados nos Estados Unidos ou no Reino Unido (cujas editoras ganharam bolsas entre mil e 4.500 dólares). Neste ano, o edital ficará aberto entre junho e julho.
Do gênero poesia, porém, constam da lista somente os projetos da editora World Poetry: os livros de Domeneck e Cabral, já publicados, e Tarifa de embarque de Waly Salomão, ainda inédito. Se a poesia tem menor potencial de ser futuramente rentável – porque, como disse Levitin, não há tantos leitores para o gênero –, é esperado que o interesse das editoras seja menos expressivo.
A microeditora independente californiana Scrambler, contudo, anunciou no dia 1º de maio, no Instagram, que publicará dois livros recentes da poesia brasileira (no caso, sem recorrer a editais): Acrobat [Acrobata, de 2024 (Companhia das Letras)], da carioca Alice Sant’Anna, com tradução de Eric M.B. Becker; e Worriment [Preocupações, de 2019 (Macondo)], da londrinense Ana Guadalupe, com tradução de Bruna Dantas Lobato.
Tudo, ao fim, parece ajudar: apoios institucionais, apoios de caráter filantrópico e (à semelhança das movimentações de Valente e de Levitin) esforços isolados e pontuais de indivíduos. É isso o que acaba convergindo para que exemplares da poesia brasileira – seja originária do coração da Amazônia, como a de Cabral, seja com versos mais multiculturais, como os de Domeneck – figurem na biblioteca do mundo estadunidense.
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