Do coração do Brasil para a biblioteca do mundo: I. O tradutor Alexis Levitin

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Do coração do Brasil para a biblioteca do mundo: I. O tradutor Alexis Levitin
Astrid Cabral (foto: Divulgação) | Alexis Levitin (foto: Nick Levitin) | Salgado Maranhão (foto: Divulgação)

 

 

Sobre palavras e silêncios

“Astrid Cabral nasceu no coração da Amazônia, em Manaus, no Brasil, em 25 de setembro de 1936” – é assim que começa o prefácio, assinado pelo tradutor Alexis Levitin, do livro Spotlight on the Word: a versão estadunidense (e bilíngue) de Palavra na berlinda, da poeta e ambientalista manauara, recém-publicada pela editora World Poetry.

Palavra na berlinda é um livro de 2011 (Ibis Libris) – e o terceiro de Cabral a sair nos Estados Unidos, todos traduzidos por Levitin; Cage [Jaula, de 2006 (Da Palavra)] foi publicado pela Host Editions em 2008, e Gazing Through Water [Rasos d’água, de 2003 (Valer/Governo do Estado do Amazonas)], pela Aliform Publishing em 2021.

Ao se pesquisar “Astrid Cabral” na internet, surge um dado curioso: o verbete da Wikipedia em inglês sobre a poeta é muito mais extenso do que seu equivalente em português. Levitin acha graça da informação, em conversa por telefone com a Cult – mas, “de qualquer maneira, não há tantos leitores de poesia nos Estados Unidos”, afirma.

Se alguns leitores já estão familiarizados com a obra de Cabral, os poemas de Spotlight on the Word também encontrarão novos olhares: formados a partir do trabalho que a World Poetry vem realizando em relação à disseminação de poesia vertida para a língua inglesa.

Novos olhares voltados para um livro, em definição de Levitin, “sobre palavras e silêncios”. A primeira parte de Palavra na berlinda repete seu título; já a segunda, pela qual o tradutor tem particular preferência, desenrola-se da subdivisão “Avesso” [The Other Side]: palavra “impossível de se traduzir fielmente”, confessa ele – e completa: “O que é o avesso da palavra? É o silêncio”.

É exatamente o poema “Silêncio” que abre a sessão: No silêncio, latentes,/ jazem todas as palavras./ Cada palavra proferida/ elimina as demais./ Quero o vasto silêncio/ onde a linguagem se inclua/ total, absoluta.

Cabral era professora da UnB havia quatro anos até abandonar o trabalho em 1966 – temendo ser perseguida pela ditadura militar. Tornou-se, então, oficial de chancelaria do Ministério das Relações Exteriores, atuando junto às embaixadas brasileiras em Beirute e Chicago. Mais tarde, após o fim do regime, em 1988, ela retomou sua carreira acadêmica (antes de ser professora emérita da universidade em que começou a lecionar). Há vários anos, a poeta vive no Rio de Janeiro.

A autora que recebeu prêmios da Academia Brasileira de Letras e da União Brasileira de Escritores, publicou 20 volumes de poesia e traduziu duas obras de Henry David Thoreau: Walden, ou A vida nos bosques e Desobediência civil; além de ter integrado a programação principal da Festa Literária Internacional de Paraty de 2006, quando lançava Jaula.

Na altura em que participou da Flip, com curadoria de Ruth Lanna, Cabral já havia sido traduzida por Levitin. Que, aos poucos, vinha publicando seus poemas em periódicos como Confrontation, Dirty Goat e Two Lines.

Espaços granjeados por Levitin; e não exclusivamente para Astrid Cabral – mas para diversos autores – que inseriu em revistas, jornais e editoras. Um único poeta brasileiro será, por ele, mais traduzido: Salgado Maranhão.

 

Conexão Estados Unidos-Maranhão

O elo dessa confluência – definitivo nas trajetórias tanto de Levitin quanto de Maranhão – é Luiz Fernando Valente, professor da Brown University.

No início dos anos 2000, por sugestão de Valeria Gauz, bibliotecária da Brown, Valente leu o poeta Salgado Maranhão. O professor explica, por telefone, que imediatamente identificou-o como “um dos melhores poetas contemporâneos de língua portuguesa”.

E escreveu sobre sua poesia. Em maio de 2007, organizou um festival de poesia lusófona em Providence, Rhode Island, para o qual Maranhão viajou – somando-se a autores como Ana Paula Tavares, Ana Maria Amaral, Gastão Cruz e Ricardo Aleixo.

Tradutor de Gastão Cruz (e velho amigo de Valente), Alexis Levitin foi convidado para assistir ao evento – e estimulado pelo amigo a trabalhar com a obra do poeta de Caxias.

“Ninguém traduz poesia da língua portuguesa para a inglesa como Levitin – é um tradutor impressionante”, assegura o professor da Brown. “Eu acreditava que só ele seria capaz de transpor, de forma bem-feita, Salgado Maranhão para o inglês; afinal, a imagética de Maranhão é muito complicada”, argumenta.

Assim como Valente, Levitin se tornou um entusiasta da obra de Maranhão e viria a traduzir cinco livros do poeta – a começar por Sol sanguíneo (Imago, 2002): Blood of the Sun foi publicado em 2012 por uma importante editora independente, a Milkweed.

O trabalho de Levitin em relação à obra de Maranhão fez com que o poeta se tornasse um dos autores brasileiros mais bem publicados (e estudados) nos Estados Unidos. Desde Blood of the Sun, Maranhão – que não fala inglês – já se apresentou em 35 estados estadunidenses, dando palestras em mais de 100 universidades, incluindo Harvard, Yale, Princeton e Iowa, sempre acompanhado de seu tradutor.

Em conversa por telefone, o poeta valoriza o fato de que tamanha conquista foi um fruto da parceria com Levitin – que ainda publicou seus poemas em dezenas de periódicos e revistas literárias. E acrescenta: “A recepção da obra nos Estados Unidos impactou na recepção brasileira”, reforçando que já havia reconhecimento crítico à sua poesia antes disso, e um Jabuti por Mural de ventos (José Olympio, 1998; terceiro lugar na premiação).

Da parceria Levitin-Maranhão, mais frutos foram gerados. O poema “Índio velho” – inédito no Brasil até hoje – foi publicado, bilíngue, no especial “A Amazônia viu nosso futuro” do The New York Times, em 2020. Do fogo não brotam flores./, remata o poeta; Deixem o que ainda nos resta!/ O que veste o índio é a floresta. O livro mais recente do maranhense nos Estados Unidos é Consecration of the Wolves, publicado pela Bitter Oleander Press em 2021; no Brasil, A sagração dos lobos, publicado pela 7Letras em 2017.

O tradutor, de 83 anos, que disseminou letras lusófonas em território estrangeiro, esteve em maio no Brasil. Levitin conta que, nas últimas décadas, visitou esporadicamente o país: para dar aulas e seguir trabalhando com Maranhão. Desta vez, terminada a disciplina “Women in Greek Tragedy” do Programa de Pós-Graduação em Inglês da UFSC, os parceiros ficaram lado a lado por dias e dias, no Rio de Janeiro, na Urca, debruçados sobre a leva de sonetos Arte de matar.

“Ele traduz sonetos com métrica e rima”, enfatiza o poeta, ressaltando o domínio da linguagem de seu tradutor. Domínio não restrito em relação ao inglês ou ao português. Maranhão relata um episódio que o marcou, certa vez, em Pittsburgh; ao notar o sotaque russo de uma interlocutora, seu tradutor substituiu inglês por russo com extrema naturalidade. “O mundo, para Levitin”, ele conclui, “é uma casca de coco”.

 

Na casca de coco de Levitin

Em 1971, Alexis Levitin – que havia se graduado em zoologia pela Columbia University – obteve seu PhD, com uma dissertação sobre os “Sonetos da China”, de W.H. Auden, pela mesma universidade. Sem dinheiro, precisando de trabalho, deparou com um anúncio: procurava-se um professor anglófono para o Departamento de Línguas e Literatura Estrangeiras da UFSC, em Florianópolis. Ele, que nasceu na cidade de Nova York, se candidatou; em três semanas, avisaram-lhe que a vaga era dele.

O nova-iorquino chegou ao Brasil sem conhecimento prévio de português – e nunca estudou a língua. Aprendeu-a durante o curto período em que permaneceu em Santa Catarina. Regressando a seu país natal, em 1974, enquanto buscava um emprego de professor (que logo encontraria: na SUNY Plattsburgh), começou a fazer traduções.

O primeiro poeta que traduziu foi Manuel Bandeira. Com o boom latino-americano, havia grande interesse de revistas literárias estadunidenses por autores brasileiros – tudo o que o jovem tradutor submetia, portanto, era publicado. Assim, ao longo das décadas seguintes, inúmeros poemas traduzidos por ele viriam a público.

E mais de 50 livros.

Soulstorm, versão para o inglês dos textos em prosa de Onde estivestes de noite, de Clarice Lispector, foi publicada pela New Directions em 1989. Extrapolando os cinco livros de Salgado Maranhão, Levitin verteu 12 volumes do português Eugénio de Andrade. Em contrapartida, vem enfrentando dificuldades para publicar em livro a poesia de autores portugueses consagrados (já traduzidos por ele), como Sophia Mello de Breyner Andresen e Herberto Helder.

Agora, Levitin se ocupa com El puerto, prosa poética de Ana C Blum, equatoriana radicada em Tucson, no Arizona, e com De senectute erotica (Massao Ohno, 1998), de Leonor Scliar-Cabral.

 

Florestas e silêncio

Depois dos poemas esparsos de Astrid Cabral, Levitin adentrou em Jaula – a temática do livro foi o que imediatamente encantou o zoólogo de formação.

[foto da capa de Cage]

O livro foi traduzido na íntegra. Celebrando essa estreia da poeta manauara nos Estados Unidos, Levitin arquitetou para a autora, em 2008, uma turnê de 20 dias: com datas em diversas universidades e uma leitura na ALTA Conference [conferência anual da American Literary Translators Association].

No prefácio de Spotlight on the Word, o tradutor narra um “pequeno desvio” no itinerário dessa turnê: uma visita ao Walden Pond, em Concord (onde, sem sucesso, procuraram pela cabana de Thoreau); e arrisca uma comparação entre a floresta do Massachussetts e a floresta amazônica.

Em “A Amazônia viu nosso futuro”, especial do The New York Times com poema de Salgado Maranhão, há também um poema de Cabral: “Manaus outra vez”; e também traduzido – surpresa nenhuma – por Levitin. Mas ao contrário de “Índio velho”, que era inédito, o texto de Cabral havia aparecido no livro Ante-sala (Bem-Te-Vi, 2007).

É o tradutor quem aponta uma triste “ironia”: nos últimos anos, a poeta ficou aprisionada em seu silêncio – devido a uma série de derrames que sofreu. “Astrid Cabral, aos 89 anos, é muito bem cuidada pelas filhas”, constata Levitin, “mas não se sabe até que ponto ela está, mesmo, no mundo”.

 

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Confira a segunda parte da série Do coração do Brasil para a biblioteca do mundo – sobre poesia brasileira publicada recentemente nos EUA

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