Devorando Oswald, sobre Antropofagia – “Palimpsesto selvagem” de Beatriz Azevedo

Devorando Oswald, sobre Antropofagia – “Palimpsesto selvagem” de Beatriz Azevedo

Beatriz Azevedo, autora de Antropofagia – palimpsesto selvagem

Texto foi publicado essa semana no caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo em 24 de julho de 2016.

 por Marcia Tiburi

Se o sistema hegeliano é o ventre feito espírito como aparece em Theodor Adorno, é porque existe uma correspondência entre o lógos e o fagos, entre o ato de pensar e o ato de comer que constitui a filosofia mais tradicional, aquela da tradição europeia, cognitiva e estética, ética e política, à qual pertencem tanto os filósofos que ainda adoramos como totens e tabus, quanto os conquistadores da colonização com os quais se mantém, na colônia (naquilo que ainda é colônia por aqui), uma relação ambígua, edipiana, meio amedrontada, meio fascinada, típica da forma capitalista e burguesa de pensar, totalmente oposta ao que em Oswald de Andrade é a ação do pensamento selvagem, antropófago em um sentido totalmente diverso do Geist canibal que nada aprendeu com o seu outro. Adorno precisaria conhecer Oswald de Andrade, com quem compartilhava a leitura de Nietzsche, devia ter conhecido esse Oswald que, muito antes dele, sabia do “sentido devorativo do sistema” próprio à fenomenologia do espírito. Mas até agora nem mesmo o Brasil conheceu muito bem as ideias revolucionárias de Oswald e muito menos as levou até as últimas consequências.

Na base de muita piada e graça, de muita ironia e metáfora, Oswald nos legou um pensamento perigoso, rico em sedimentações, agora expostas no livro de Beatriz Azevedo Antropofagia – palimpsesto selvagem (Cosac, 2016, 240 páginas). Beatriz Azevedo escreveu um livro que nos faz acompanhar o gesto criativo de Oswald transformado por ela em totem, em nome de uma grande festa a ser vivida no matriarcado de Pindorama na utopia do pensador paulistano. O que Beatriz nos mostra, sem nos ensinar, é que comer o inimigo ainda é possível, mas que devemos antes devorar o deus Oswald.

O gato europeu e a onça ameríndia

Na linha das metáforas alimentares, metáforas do conhecimento, se pode dizer que filósofos e conquistadores são todos farinha do mesmo saco europeu. Um saco de gatos que a compaixão ameríndia impediu de matar a pauladas. Que perdoem os amantes de gatos pela crueldade das palavras contra a qual é bom lembrar da polifonia da palavra gato que se usa tanto para o homem belo, quanto para o ladrão ou para o grampo que capta o sinal da tv e do wi-fi alheio no país do churrasquinho de gato, onde também, não se deve esquecer, vende-se gato por lebre.

A opressão não vem sem o parasitismo que caracteriza a colonização atravessando nossas relações com a Europa e os demais exercícios do Império. Só a onça – o jaguar – que está para o habitante selvagem de Pindorama como o gatinho está para o bom selvagem de Rousseau, seria destino melhor, sabiam os tupinambás que nos antecederam e que inspiraram o pensamento antropófago de Oswald. De qualquer modo, os invasores do Brasil conseguiram indexar nossas vidas com suas regras estéticas, morais e políticas para nos fazer crer que somos seus filhos e herdeiros, que temos alguma coisa a ver com eles, que aprendemos direitinho a enganar seja na estética, no moralismo ou na política, a reproduzir a indústria cultural, seja na sua versão acadêmica ou popular. Se a lógica da gambiarra instaurou-se entre nós foi como legado que se adapta aos moldes do imperialismo americanizado do momento.

O jogo sujo da estrutura econômica e política e seu correspondente artístico e cultural sempre estiveram na mira da antropofagia, a desconstrução oswaldiana. A europeização branca e cristã nos liga em tudo ao roubo e à pilhagem e o saque se faz gozo entre nós por meio da escravização, da matança dos povos de Pindorama, da maledicência, da imitação das capitais tendências estrangeiras. Oswald de Andrade queria devolver o Brasil a si mesmo através de um poderoso não e, como não era possível expulsar europeus que de algum modo também somos, sugeriu comê-los. Seu gesto inverteu o jogo e transformou o europeu no que ela nunca foi, um outro. E deixou claro, na linhagem de quem olha como uma onça, e não como um gatinho cordial, que eram nossos inimigos.

Devorar para pensar

A relação etimológica entre saber e sabor que alguns defendem nas pedagogias atuais mais adocicadas, apaga o caráter bárbaro próprio ao ato do conhecimento baseado no princípio de identidade, ele mesmo devoratório. Por mais interessantes e críticos que sejam os pensadores europeus como Montaigne, Nietzsche e Marx lidos por Oswald, apenas os ancestrais tupinambás e não os judaico-cristãos dos europeus, poderiam ter inspirado uma forma de pensar que se contrapusesse ao poder disfarçado da bondade civilizada e jesuítica que nos levou à hipocrisia e ao cinismo inscritos em nossas carnes até hoje devoradas pelo capitalismo. À melancolia europeia, Oswald apresentou a alegria como a prova dos nove. Prova que só o pensamento e a ação ameríndia, direta, corajosa, prazerosa e, evidentemente, selvagem poderia nos dar contra a cadaverização das ideias promovida por intelectuais brasileiros que, em sua época, pareciam maus espíritos a realizar o trabalho morto e triste da imitação.

Beatriz Azevedo propõe que a prática da antropofagia “celebraria outra intenção, mais potente: ‘continuar alegres’” (p. 127), o que poderia acontecer se invertêssemos a lógica tradicional no que concerne ao pensar, ao sentir, ao agir e ao inventar, o que não aconteceria sem que comêssemos os europeus. Assim como o comer antropófago, pensar, no sentido antropófago, necessariamente é um ato selvagem. Um ato perigoso e vingativo, que nos faz ver agora nos olhinhos amedrontados de Hans Staden – ou do Padre Vieira – uma covardia histórica.

Em Oswald a antropofagia é o método por meio do qual se chega à coragem de pensar apagada pela ação das teorias colonizadoras e suas catequeses entediantes.

No generoso banquete que tem como prato principal o Manifesto antropófago, Beatriz Azevedo nos dá de comer metodicamente esse texto, um corpo bem temperado e assado, com a generosidade, mais do que a certeza, de que o prazer advém, desde o começo, pelo servir-se delicadamente em nacos de todas as partes do corpo e apreciá-los sem moderação. São muitos os textos que configuram o palimpsesto e há que se comer tudo.

A devoração proposta pela autora é eminentemente metódica. Enquanto nos explica o que significa comer Galli Mathias, ela nos leva à operação antropófaga original temperando-a com a flor de sal da obra de Oswald: “Só não há determinismo – onde há mistério, mas que temos nós com isso?”. Essa pergunta é o ingrediente mágico que casa muito bem com o bem mastigado “Tupi or not tupi”. Beatriz nos faz entender o funcionamento desses gostos reunidos em total aversão à qualquer tipo de arte culinária acadêmica, afinal, está em cena um ritual selvagem.

Sabemos que a questão essencial de Oswald é a mesma de Beatriz: “que temos nós com isso?”. Ela nos ajuda a entender a importância de uma pergunta que nos conduz a pensar fora das importâncias agregadas aos padrões da nobreza acadêmica. Há ritual, e há roteiro, muito roteiro, mas não há pompa, nem espetáculo. O corpo serve ao corpo e não ao olho sedento de espetáculo.

Leitura ritual

É na prática de uma paciência antropofágica que Beatriz nos dirá de “galimatias”. O discurso incompreensível que Oswald devora no ato mesmo de separar a palavra em duas e transformá-la em personagem. Galli Mathias, criação de Oswald, é aquele que antes de ser devorado explicou-lhe o direito como possibilidade. Beatriz faz como Oswald, lê o Manifesto separando as partes, ritualiza assim a leitura oferecendo-nos os sabores mais incomuns do texto potencializados também para perturbar o paladar domesticado de nossa época.

Mais do que anatomia, Beatriz Azevedo nos lega uma curadoria, ou melhor ainda, uma “curanderia” com o texto de Oswald. São os protocolos acadêmicos que são purificados de sua pompa doentia. Entendemos que a importância da antropofagia está no potencial “deseuropeizante” da criação cultural brasileira. No potencial devir indígena, um devir selvagem, aberto ao outro, descolonizante, entregue à floresta, encontramos o desafio brasileiro.

Podemos então começar por comemorar a reinauguração do Brasil em uma data mítica. Se há 462 anos se dava a devoração do bispo Sardinha, é a hora de passar ao banquete e servir-se das palavras apetitosas de Beatriz Azevedo. Assim como Morubichaba ao devorar o seu assado, posso garantir que é gostoso.

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