Desenho um “X” em minha mão/ para dizer: não beberei/ do licor do sonho.
Quando eu poderia imaginar que mal começaria a ler Clay Tablets in Nietzsche’s Cave [Tábuas de argila na caverna de Nietzsche], do saudita Raed Anis Al-Jishi, e, imediatamente, já no primeiro verso, meu cérebro seria atirado para o mundo underground – para rápidos acordes distorcidos e canções com conteúdo político, esbravejadas, e Ian MacKaye, e a banda Teen Idles, e a canção “Too Young to Rock”.
A menção ao “X” desenhado na mão inicia o poema que abre o livro, “Jovem demais para estar bêbado”. E a primeira interrogação que me surgiu foi: como é que nós (do Brasil, da Arábia Saudita) temos essa mesma referência? Referência não tão usual, da cena alternativa, do hardcore estadunidense, em que um “X” na mão atribui à pessoa que o rabiscou – ou que o tatuou – o significado de ser straight edge.
Em resumo, a banda Teen Idles, da qual MacKaye (futuro vocalista e letrista de grupos icônicos como Minor Threat e Fugazi) fazia parte, foi autorizada a tocar no clube noturno Mabuhay Gardens, em San Francisco, porque seus membros (adolescentes, de fato) seriam, pelo símbolo, reconhecidos como menores de idade, e para eles, portanto, não seriam vendidas bebidas alcoólicas. A partir da apresentação californiana, espalhou-se o “X” na mão em outras performances da banda – e mundo afora.
Pessoas inseridas na subcultura straight edge optam, então, entre outras propostas mais ou menos flexíveis, por não consumir bebidas alcoólicas (bem como nenhuma droga recreativa). Sendo esse o curto-circuito provocado pelos versos iniciais de Clay Tablets in Nietzsche’s Cave: se a subcultura straight edge nasce de um contexto no qual se consome álcool com naturalidade (e para o jovem MacKaye, em excesso), uma subcultura entrelaçada com a subcultura punk, os versos de Al-Jishi nascem no contexto de um país em que o consumo de álcool é proibido.
O que poderia vir pela frente? Ou melhor: o que não poderia vir pela frente?
Página a página – em 43 poemas curtos (em geral, de uma ou duas páginas) –, Al-Jishi vai construindo um eu lírico que sabe jogar pontualmente com intertextualidades implícitas: além do aceno inaugural à canção underground, o poeta cita Jean Meslier, cita George Orwell. Eu lírico que não ignora em absoluto o cotidiano, mas que se posiciona muito mais vinculado às metáforas inesperadas e, sobretudo, embebido em densidade filosófica.
Um eu lírico aberto a falar de corpos, de excrementos, de êxtase, de religiões, da própria criação literária, da natureza. Na tábua de argila e na caverna; mas não é a caverna de Platão, a caverna é de Nietzsche – e, por que não?, poderia ser um clube noturno alternativo. O décimo segundo poema, “Autoridade suprema”, por exemplo, contestando a necessidade de uma autoridade suprema, contém versos censurados; um asterisco explica: “Censurado pela Autoridade Suprema”.
Al-Jishi produziu duas versões (distintas, mas similares) do livro: uma em inglês, base para todas as traduções existentes, e outra em árabe formal (o autor não utiliza gírias em seu trabalho); ambas publicadas pela primeira vez, isoladamente, por editoras diferentes, nos Emirados Árabes Unidos. Contratado para sair na Turquia ainda em 2025, a obra já teve edições na Espanha, na Itália, na Alemanha, na China, no Uzbequistão – além de uma em Portugal, bilíngue, português-inglês, traduzida por Carlos Ramos, pela Edições Fantasma: Tábuas de barro na caverna de Nietzsche.
Sem romper de todo com as tradições – e potencialmente hardcore.

Mapa – Autores e livros inéditos no Brasil, por Felipe Franco Munhoz
Felipe Franco Munhoz é autor dos livros Guide to a Fall (University of Iowa, 2025) e Dissoluções (Record, 2024), entre outros. Foi contemplado com as fellowships e residências: International Writing Program (Estados Unidos), Santa Maddalena Foundation (Itália), MacDowell (Estados Unidos), Ucross Foundation (Estados Unidos), Art Omi: Writers (Estados Unidos), Sangam House (Índia) e Festival Artes Vertentes (Tiradentes)





