Desalma: uma história de morte, luto e vingança

Desalma: uma história de morte, luto e vingança
Autora de sete obras literárias, Ana Paula Maia estreia na TV com "Desalma", nova série da Globoplay (Foto: Victor Pollak)

 

Numa pequena cidade chamada Brígida, localizada no sul do Brasil, vive a maior comunidade ucraniana do país. Lá, o idioma, os costumes e os mitos eslavos continuam sendo estudados e transmitidos de geração à geração. Até que, no final dos anos 1980, durante a comemoração de Ivana Kupala, cerimônia pagã tradicional, uma garota de dezesseis anos desaparece. Ela é filha de Haia, viúva que vive numa casa isolada no meio da floresta, considerada pela população como uma espécie de bruxa. Poucos dias depois da festa, a garota é encontrada morta numa cachoeira da região. 

Trinta anos mais tarde, um homem chamado Roman morre ao saltar de uma cachoeira, deixando uma esposa, Giovana, e duas filhas. Roman vivia em São Paulo com a família, mas é nascido em Brígida, onde ainda estão seus parentes e amigos. Depois da morte do marido, Giovana e as filhas mudam para lá, passando a viver na casa em que ele cresceu. 

Entre as pessoas mais próximas de Roman, estão Ignes, sua prima, e Bóris, melhor amigo dos tempos de escola. Ignes e Bóris são casados e têm um filho pequeno, da mesma idade da caçula de Giovana. Bóris é sócio em um negócio de criação e abate de porcos e oferece um emprego à viúva. 

As perspectivas concretas são desoladoras: ela, que é vegetariana, vai então trabalhar como auditora nesse abatedouro. Além da brutalidade do entorno profissional, começa a experimentar a ambivalência da acolhida em Brígida. Giovana, uma mulher cética acostumada à vida urbana, passa a ser confrontada com crenças e acontecimentos que desafiam sua racionalidade e sua experiência de vida.

Para descobrir como essas duas histórias, separadas por três décadas, estão conectadas é preciso assistir à Desalma, série criada pela escritora e roteirista Ana Paula Maia. Com direção de Carlos Manga Jr., João Paulo Jabur e Pablo Muller, a primeira temporada, composta por dez episódios, estreou no dia 22 de outubro na plataforma Globoplay. 

O trio de protagonistas é interpretado pelas atrizes Cássia Kis (Haia), Maria Ribeiro (Giovana) e Cláudia Abreu (Ignes). É a primeira vez que a criadora, que tem um longo percurso na literatura, escreve para a televisão. Também é a primeira vez que escreve uma obra protagonizada por mulheres. 

Maia é autora de sete obras literárias, uma delas composta por duas narrativas. Com suas últimas publicações, Assim na terra como embaixo da terra (2017) e Enterre seus mortos (2018), venceu o prestigioso Prêmio São Paulo em dois anos consecutivos — feito inédito na história da premiação.

 

Seus livros são todos
protagonizados por homens
“invisíveis”, trabalhadores
embrutecidos, que, longe de
ocuparem uma posição
idealizada, são retratados
com complexidade.

 

 

No texto “Sujos, brutos, invisíveis: os trabalhadores de Ana Paula Maia”, a professora de literatura Maria Fernando Gárbero fala desses sujeitos responsáveis pelo “trabalho sujo dos outros”, para usar uma expressão da própria escritora. O mais célebre deles é Edgar Wilson, que aparece na maior parte dos romances de Maia, ora como protagonista, ora como personagem secundário, em diferentes momentos de vida.

O destaque que a autora alcançou no campo literário rendeu a ela também um séquito de leitores que não encontram paralelos na literatura brasileira: as comparações com Rubem Fonseca, por exemplo, talvez sejam sustentadas mais pela escassez de outras referências. Como Fonseca, Maia escreve sobre a violência e muitas vezes recorre a um formato que pode ser considerado como suspense policial. Mas há questões específicas que a colocam num patamar próprio. Seu projeto literário é um dos mais originais da literatura contemporânea brasileira.

Mas quem vai assistir a Desalma esperando encontrar Edgar Wilson pode se surpreender com uma nova atmosfera — ainda que as principais características de sua obra continuem lá: há muitos paralelos entre os livros e série, como os porcos, o abatedouro, o embrutecimento das pessoas, o clima sombrio e precário, o desamparo. Mas Desalma também traz novos elementos: o destaque dado às personagens femininas e o fato de que, aqui, a autora coloca os dois pés em algo que, em seus romances, aparece apenas sugerido: o apelo sobrenatural. 

 

 

Desalma é um drama
sobre morte e luto, mas
também um suspense
sobre vingança. A série
abraça abertamente o
terror, gênero querido
para a autora desde
sempre.

 

 

Maia conta que, na infância, vivida nos anos 1980, assistia a todos os filmes de terror que podia encontrar na televisão e, mais tarde, também nas videolocadoras. Diz que viu tudo de bom e de ruim que estava disponível na época. Essas referências estão refletidas na série, deslocadas, condensadas e transfiguradas de forma mais ou menos direta. Tem floresta e crianças assombradas, tem a ambiguidade da bruxa, tem mitos assustadores misturados a temas atuais, como corrupção e violência. Quanto ao aspecto mais dramático, o eixo temático central é a maternidade — o que, de certo modo, une três protagonistas muito distintas e permite que se conectem, apesar de suas diferenças e rancores, sem, no entanto, forçar o laço.

Além da fotografia e da direção de arte muito elogiadas desde a exibição da série no Festival de Berlim deste ano, Desalma chama atenção pelo bom uso que faz da trilha sonora. A personagem de Haia é outro ponto forte. Embora a interpretação expressiva de Cássia Kis seja carregada nas tintas, à beira de uma caricatura, o enfoque parece acertado para reforçar o mito evocado pela personagem, um arquétipo que há muito habita o imaginário popular de diferentes lugares do mundo. 

Em “Desalma”, Cássia Kis interpreta Haia, considerada uma espécie de bruxa (Foto: Divulgação)

Para Maia, a imagem da bruxa da floresta que conhecemos no Ocidente equivale à tradição do Leste Europeu. Durante suas pesquisas, a autora se encantou especialmente pela figura da Baba Yaga, ou Bába Iagá, do folclore eslavo, uma mulher velha que vive sozinha na floresta e voa pelos céus montada num pilão. Na série, Haia teria como companhia uma gata chamada Baba Yaga, mas a ideia acabou caindo durante as filmagens, por dificuldades técnicas. 

De acordo com a morfologia de Vladimir Propp, estudioso russo que fez um amplo levantamento dos contos de magia, a Baba Yaga aparece de forma benéfica nos contos de fadas, mas também como vilã ou guerreira, ou, ainda, de forma completamente ambígua. Uma das inspirações literárias para a criação de Desalma foi a novela “Viy”, de Nikolai Gógol (em português, pode ser encontrada no livro O capote e outras histórias, editora 34, tradução de Paulo Bezerra), história de horror de que Maia gosta muito e na qual vê uma representação fascinante dessa figura.

A decisão de recuperar a imagem da bruxa, com toda a sua potência simbólica, a partir de uma perspectiva autoral, veio quando, ao mudar para o Paraná, a autora conheceu e passou a se aprofundar na história da maior comunidade ucraniana do país. A cidade fictícia de Brígida foi inspirada na cidade de Prudentópolis, que fica a 200 km de Curitiba. Lá, vivem hoje cerca de 50 mil habitantes, dos quais 80% é descendente de ucranianos. 

Um pouco como acontece nos livros de Maia, Desalma conta a história de um Brasil que poucas vezes ganha espaço na literatura e no cinema. Ao misturar elementos da cultura nacional com a cultura eslava, a autora escolhe um recorte incomum e muito curioso, que parece ter fôlego para se desenrolar por outras temporadas. Para quem gostou da primeira, a boa notícia é que a segunda já está confirmada

Fabiane Secches é psicanalista e doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo.


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