Covardia consensual – sobre a energia psicopolítica que rege a nossa época

Covardia consensual – sobre a energia psicopolítica que rege a nossa época

Publicado na coluna ContraCorrentes do Justificando na semana passada.

 

Por Marcia Tiburi e Rubens Casara

 

 

Cada época possui um “pathos”, uma espécie de “energia psíquica” que vem à tona nas obras de arte, nos livros, na cultura como um todo. Essa energia psíquica também está nos gestos e na fala das pessoas, no modo como elas se expressam. Mesmo quando não são artistas ou intelectuais, quando são pessoas comuns exercendo suas atividades diárias, todos os cidadãos estão envolvidos pelo miasma do pathos de sua época.

Antes de seguirmos, é importante saber que com o termo pathos não devemos nos referir a um sentimento só, a um afeto único. Pathos quer dizer mais um modo de sentir que revela algo de uma época. Talvez seus anseios, talvez sua agonia. Não apenas o desejo, mas inclusive ele. A palavra miasma nos ajuda, porque ela remete a algo físico, um cheiro apodrecido, mas também a algo metafísico, como as sombras de um fantasma. Talvez também possamos traduzir pathos por clima, por atmosfera, assim, todo mundo entende fácil. Mas tem algo mais nessa ideia.

Muitos filósofos vem falando há tempos de “afetos autoritários”, no entanto, quando falamos em “energia psíquica”, talvez fique claro que, no conjunto dos afetos, talvez haja uma base, um lastro, um afeto ou sentimento que faz o papel de fio a alinhar todos os demais. Um afeto que dá o tom. Nessa época em que manipulam-se os afetos, em que os meios de produção dos afetos estão nas mãos das instituições (a mídia, a justiça, a religião) que dominam a ordem do discurso e das práticas em geral, tudo o que se pensa, tudo o que se sente e se faz passa por mediações invisíveis. Não somos donos do que sentimos. Podemos estar sentindo ódio, por exemplo, e ele não ser nosso. Isso quer dizer que os afetos não são naturais, quer dizer que são inventados e somos contagiados por eles. Depois do contágio, a manipulação fica fácil. Qualquer vendedor, qualquer publicitário, qualquer autor de novela, qualquer pastor, qualquer político e quem mais queira mistificar com o povo, sabe disso.

O afeto que alinha ocultamente todos os demais e que vem regendo nosso tempo é a covardia. Sendo um afeto, não sabemos se ele é causa ou consequência do que vivemos, mas ele está aí. Podíamos dizer que a covardia é um efeito do medo, assim como é o ódio, mas não seria suficiente. A covardia não apenas faz par com o medo e, poderia até parecer um vício se ainda pudéssemos opô-lo à virtude da coragem, mas ela se tornou algo mais. Assim como o ódio, assim como o medo, não sabemos se ela é causa ou consequência, mas ela tomou a dimensão do pathos de uma época e, podemos dizer que, de um modo muito interessante, ela fede como um miasma.

 

A covardia que nos importa não é aquela que se reduz à ilusão do indivíduo tomado pelo medo. É verdade que o medo faz parte da vida e quando o enfrentamos temos a coragem. E poderíamos também dizer, como alguém que segue uma definição de dicionário, que ao não enfrentar o medo, temos a covardia. De fato, se a questão fosse apenas individual nosso problema seria pequeno e solucionável ao nível das individualidades questionáveis, das terapias, ou dos exorcismos (cada vez mais vendidos aos pobres nas religiões neoliberais, elas mesmas muito covardes).

 

“Chlorosis (Love sick),” 1994 - Marlene Dumas.
“Chlorosis (Love sick),” 1994 – Marlene Dumas.

 

Mas a covardia se tornou bem mais que isso. Hoje ela é um pathos com frequência visível nas falas humanas. A quantidade de pessoas que dizem às outras “como você é corajosa”, “como vc é corajoso” quando essas pessoas assim denominadas não fizeram nada além de defender outras pessoas, causas justas, ideias e até mesmo a simples constituição, quando essas pessoas não fizeram nada além de realizar seu próprio dever, nos faz pensar que a covardia é, entre nós, uma acordo tácito, prévio e que, os corajosos se tornaram “exceções”. Em um mundo de covardes por prepotência, ser razoável é uma coragem incomum e elogiável.

Em épocas autoritárias política e moralmente, torna-se normal que os que não se submetem à regra da falta de regras, à regra do desrespeito aos valores da dignidade, da verdade, da justiça, sejam tratados como inimigos do sistema, em uma palavra, como bruxas que devem ser perseguidas. Cada ato corajoso humilha o covarde e a covardia elevada a patamar ético-político, institucional, e induz também ao ódio.

A covardia se tornou um estranho calibrador social. É de bom tom não envolver-se. É de bom tom submeter-se à tendência dominante. Nos tempos do estado de exceção, em que o direito está suspenso, a tendência dominante gerou esse novo consenso, o da covardia assumido por cada um que não dá a cara a tapa, e por fim, como em nossos dias, acredita que seu voto nulo ou branco é melhor do que política. Os covardes são corpos e mentes docilizados, mas que fingem uma certa força, pode ser a da aparência, do dinheiro, da toga, do carteiraço, da arma apontada para fora do carro, do fiu-fiu, do texto jornalístico falso, da maledicência pelas costas, pode ser a força da ignorância para mistificar com o povo, pode ser pedir voto a fiéis. O covarde pode ser um cara-de-pau bem comunzinho, pode ser um pastor diabólico, pode ser um homem que bate em mulher, pode ser alguém que vive de aparências.

O covarde é outro nome para o otário e o burro, mas com um grau de consciência um pouco maior. Em nossa época covarde anda próximo do cínico, mas ainda pode ser salvo dependendo da grau de desenvolvimento de sua covardia.

Nas péssimas condições da cruz, Jesus Cristo pedia que Deus os perdoasse, pois eram ignorantes quanto ao que estavam fazendo. Também Deus teve seu momento de covardia aos olhos de Cristo. Também Deus abandonou o barco e deixou que Cristo fosse até o fim, também ele foi vítima de um pathos (ora o que é a paixão…).

Deus consentiu na covardia generalizada.

 

 

 

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